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A ameaça ao espírito democrático

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Foto: Fronteiras do Pensamento - São Paulo, 2014
Foto: Fronteiras do Pensamento - São Paulo, 2014

Que papel os mercados devem desempenhar na vida pública e nas relações pessoais? Como decidir quais bens podem ser postos à venda e quais devem ser governados por outros valores que não os de mercado? Onde não pode prevalecer a lei do dinheiro? E, falando de Brasil, onde não pode prevalecer a lei do Estado?

Na obra O que o dinheiro não compra, Sandel faz uma análise em busca de equilíbrio, trabalhando com complexos fatores que envolvem psicologia, filosofia, política e economia, para tentar esboçar uma sociedade livre e justa, em que a eficiência do mercado promova melhoria de bens e serviços, mas que não seja um guia definitivo do comportamento humano.

Em entrevista, ele volta seu conhecimento ao Brasil e reflete sobre nossos conhecidos problemas, que tanto buscamos solucionar: burocracia, corrupção, ineficiência, qualidade dos serviços públicos e muitos outros grandes desafios que nos afetam grave e cotidianamente. 

O senhor critica a "camarotização" da vida pública nos EUA, onde se paga para ser VIP. Onde não há mistura de classes e convívio, o bem público e o espírito democrático estariam em risco. Como desenvolver esse espírito?
Michael Sandel:
Nos EUA, as elites parecem desesperadas em não se misturar com os demais. Vida comum é saudável, e uma democracia vibrante precisa de lugares públicos que misturem diferentes classes. A camarotização é uma ameaça à democracia, ao espírito do bem comum. Os esportes costumavam ser essa arena. Mas a camarotização dos estádios tem repetido a segregação.

No Brasil, a insegurança produziu uma sociedade ainda mais segregada.
Michael Sandel: O maior erro é pensar que serviços públicos são apenas para quem não pode pagar por coisa melhor. Esse é o início da destruição da ideia do bem comum. Parques, praças e transporte público precisam ser tão bons a ponto de que todos queiram usá-los, até os mais ricos.

Se a escola pública é boa, quem pode pagar uma particular vai preferir que seu filho fique na pública, e assim teremos uma base política para defender a qualidade da escola pública. Seria uma tragédia se nossos espaços públicos fossem shoppings centers, algo que acontece em vários países, não só no Brasil. Nossa identidade ali é de consumidor, não de cidadão.

O senhor conta que a associação de aposentados americanos não convenceu advogados a trabalhar por honorários baratos para seus sócios. Mas que eles aceitaram trabalhar de graça. A filantropia americana não seria diferente se não houvesse vantagens fiscais e uma lei taxando heranças?
Michael Sandel: Incentivar filantropia é bom. Promover a dedução de impostos nesse caso é uma declaração pública de que doações são hábitos que queremos encorajar. Mas, em outros casos, incentivos podem ser danosos. Oferecer dinheiro para que alunos leiam livros pode ser corrosivo. Se acharem que ler é um trabalho que merece ser pago, vai ser difícil descobrirem que é prazeroso, que os faz seres humanos mais reflexivos.

Leia também | Michael Sandel: O que o dinheiro não compra

No Brasil, onde a cultura da filantropia é menos comum, alunos e professores protestaram contra batizar classes com nomes de doadores, mesmo estando em universidades públicas. Quando é legítimo advogar por mais mercado?
Michael Sandel: Sou cético sobre batizar bens ou espaços públicos e cívicos com nomes corporativos. Nos EUA, temos viaturas policiais, carros de bombeiros, propaganda em escolas, em peruas escolares, nos uniformes e nas lanchonetes. Principalmente nas escolas, prefiro um certo santuário, certa distância do marketing.

Nas universidades, é diferente. Universitários são mais maduros, menos impressionáveis que crianças. Sempre devemos nos perguntar quando algo corrompe. O prédio em que estamos aqui em Harvard é batizado com nome de doador. Nesse caso, isso não afeta a maneira como dou aulas ou o comportamento dos alunos.

No Brasil, há extremos opostos ao que o senhor descreve. Esperamos muito do governo, mesmo com alta carga tributária e má qualidade dos serviços.
Michael Sandel: Às vezes, mais mercado é necessário. Meu livro não é contra o livre mercado. É contra os excessos, o domínio de cada aspecto da vida. Mercado é ferramenta para organizar uma economia produtiva. Mas não pode regular tudo: política, lei, espaço público, saúde, educação. Há burocracias ineficientes em fornecer serviços. Agências governamentais às vezes têm um poder que não presta contas, o mercado é mais eficiente em algumas áreas.

Quando o poder é muito concentrado, seja nas mãos do governo ou de oligopólios privados, há espaço para ineficiência e corrupção. Governos de vários países tinham companhias aéreas. O setor privado tampouco é muito bom nessa área, mas não há razão para subsidiar com dinheiro público esse setor.

Assista a Michael Sandel: Política, democracia, justiça e bem-viver

O senhor já esteve no Brasil, falando de seu livro Justiça. O conceito de jeitinho brasileiro denota uma moral elástica quanto ao cumprimento de leis. O senhor ouviu questões diferentes sobre justiça no país?
Michael Sandel: Os brasileiros me pareceram preocupados com corrupção. Minha primeira visita aconteceu quando o julgamento do mensalão começava. Depois, vieram protestos contra o aumento das tarifas e o desperdício na Copa e na Olimpíada. Minha segunda visita foi logo depois, em agosto, testemunhei um desenvolvimento surpreendente no ativismo cívico. Para todos que perguntava, havia simpatia pelos protestos. Fiquei surpreso com o fato de que a maioria achava que mudanças aconteceriam. As expectativas eram muito altas. Temo pelo efeito da desilusão na energia cívica.

O senhor diz que a crença no poder do mercado esvaziou o debate público. Por quê?
Michael Sandel: Há uma hesitação em trazer argumentos morais para a praça pública. A fé no mercado tem ocupado todo o discurso nas últimas três décadas. Se os mecanismos de mercado pudessem resolver todos os problemas, haveria pouco espaço para a deliberação democrática. Em sociedades pluralistas e multiculturais como as nossas, pessoas discordam sobre questões fundamentais. Para evitar controvérsia, os políticos se calam. Há tanta frustração no mundo com a política, os partidos, os políticos porque não há respostas para o que mais interessa. A política acabou sendo dominada por retórica de gerenciamento, tecnocrática, que evita falar dos grandes temas.

ASSISTA A MICHAEL SANDEL | Filósofo político norte-americano fala sobre a pergunta que norteia a obra O que o dinheiro não compra - os limites morais do mercado. Sandel explica que a lógica de mercado começou a ultrapassar o domínio dos produtos, atingindo a educação, a saúde, a vida pessoal.