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"A imbecilidade não será vencida num virar de folha"

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© Lusa
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O que realmente será repensado após a pandemia? De que forma vemos a natureza em relação ao vírus? Economia, saúde, educação, nostalgia, o espaço da poesia... O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, presença confirmada no palco do Fronteiras do Pensamento em 2020, faz uma análise sobre alguns aspectos do momento em que vivemos em entrevista.

Embora Mia Couto não considere a reclusão inspiradora, devido ao cenário de miséria e desemprego, e seja cético quanto a mudanças mais profundas no mundo pós-pandemia, ele acredita ser possível pensar novos caminhos: “trata-se de apostar numa nova ordem em que as instituições do Estado não sejam conduzidas pelos desígnios do mercado. Um mercado ‘livre’ aprisiona os cidadãos tanto como a mais cruel das ditaduras”.

>> Assista aos vídeos de Mia Couto para o Fronteiras do Pensamento

Qual é o espaço da poesia — e da literatura, em modo geral — nesses tempos de dúvidas e de medo? O medo é perigoso? Podemos enfrentá-lo com elegância poética? 

Mia Couto: O espaço da poesia sempre foi encontrado nos interstícios, nas fendas do muro, em contracorrente. Tudo depende, afinal, do que se entende por poesia. Se poesia constituir uma visão alternativa do mundo, e não apenas uma forma de arte, então ela terá poderes para enfrentar este mundo. Às vezes, tudo o que resta é a palavra. Essa palavra é apenas o rosto de algo que Drummond chamou de um sentimento do mundo. 

A poesia pode convocar o desejo de um outro mundo que seja mais nosso. É preciso não esquecer que obras de referência mundial, como A peste, de Albert Camus, foram produzidas como forma de resistência perante um medo coletivo que é suscitado pelas epidemias.
 
A reclusão pode ser inspiradora? A matéria-prima da poesia são as pessoas, o relacionamento entre desejos e anseios. Como trabalhar isso agora? Por outro lado, a reclusão também pode ser inibidora?
Mia Couto: Não creio que formas impostas de reclusão possam estimular a inspiração. A reclusão (isolamento social) não é nunca inspiradora se significa o desemprego e a miséria (como é o caso para muitos criadores de cultura). Não é esta reclusão imposta e desesperada que a maior parte dos criadores deseja para produzir arte.

Você acha que o ser humano estará melhor depois da pandemia? Será mais solidário? Ou continuará o mesmo, com suas falhas na alma?
Mia Couto: O problema nunca foi o chamado ser humano. O problema, ou melhor, os problemas, foram os fatores de desumanização que estão inscritos nos modelos de fazer economia e política. Há quem acredite que tudo isso vai ser repensado depois desta epidemia. Mas eu não sou tão otimista. O que talvez seja reforçada é a defesa cega das receitas neoliberais que advogam o emagrecimento (a desconstrução) do Estado e fortalecimento dos mercados. 

O que precisa ser questionado, em particular, é o desprezo dado a setores públicos da saúde e da educação. Mas a imbecilidade não será vencida num virar da folha. A maioria dos que escolheram lideranças imbecis muito provavelmente continuará apoiando no futuro essas lideranças populistas e demagógicas. O medo não ajuda a vencer a mentira. Pelo contrário, o medo fundamenta a escolha de soluções messiânicas. 

É por isso que os “salvadores do mundo” adoram o medo. E fazem da gestão eterna de crises o alimento da sua longevidade. O Brasil tem uma experiência dolorosa nesta produção de um poder que vive da eternização da crise e da permanente polarização que mantém o país numa espécie de estado de guerra.

No Brasil, o presidente e uma elite atrasada negam a dimensão dessa pandemia... De onde vem essa falta de empatia?Mia Couto: Não sei se é uma falta de empatia. Mas é uma empatia pelo obscuro, pela negação da ciência e da luz, pela ganância do poder autoritário. Há governantes brasileiros que negam que a Terra seja redonda. Como esperar que acreditem na progressão epidemiológica de um vírus? Pelo mundo, animais voltam a circular em áreas que pareciam estar perdidas para o homem. 

O vírus, como destaca o italiano Domenico de Masi, nos obriga a repensar a relação com a natureza. Como, pelo olhar poético, se faz isso? É preciso ter atenção quando definimos o que é a natureza. A natureza não existe fora de nós. Não mora apenas onde há árvore e passarinho. Nós, com as nossas cidades, somos também a natureza. O vírus que nos atingiu é parte dessa natureza. Aliás, uma das razões que levaram a desvalorizar o estudo dos vírus foi a nossa visão antropocêntrica do que é importante no mundo natural. Muito pouco sabemos dessa criatura invisível que virou o mundo do avesso. 

Durante anos, houve, é claro, dificuldades técnicas para conhecer o mundo dos vírus: era preciso aparelhos de amplificação visual, era preciso uma tecnologia de intervenção molecular e genética que só agora dispomos. Mas havia uma arrogância de considerar importante apenas o que é mais próximo da nossa espécie. Falo aqui como biólogo: nós quase nada sabemos sobre os vírus e as bactérias. E essas duas entidades são a base da própria vida. Dizemos que essas criaturas são invisíveis apenas porque nós não as podemos ver. Chamamos-lhes de micro-organismos. Custa-nos admitir, mas quem controla a existência e a evolução da vida são essas criaturas ditas invisíveis. Não somos nós. Essas criaturas estão, nesse sentido, mais próximas de Deus do que nós.
 
Com o isolamento social, nos tornamos mais nostálgicos. Voltamos a ter tempo para pensar nas pessoas que éramos, na utopia... Há um embate claro entre o homem dito “produtivo” (que executa tarefas) da pré-pandemia e o homem “contemplativo” (e potencialmente criador) de hoje. Quem prevalecerá?
Mia Couto: Primeiro, o isolamento social tornou-se nostálgico para quem podia, como eu, dar-se ao luxo da nostalgia. Mas há quem corre o risco de não poder sobreviver com esse isolamento. A maior parte das famílias moçambicanas que vivem no limiar da pobreza não teriam tempo de chegar à nostalgia numa condição de isolamento total e obrigatório. Morreriam antes disso. 

Em segundo lugar, não acredito nessa divisão entre um passado produtivo e um presente contemplativo. A questão é que apenas para uma pequena minoria é possível combinar produção e contemplação. O mundo tem que ser virado do avesso para que esse direito de ação e introspecção seja privilégio de todos. Mas é preciso mais do que isso: é preciso interrogar essa ação e essa contemplação. Quando agimos é no interesse de quem? Na maior parte das vezes, agimos ao serviço de ditames sutis de um patrão invisível. José Saramago falava dessa cegueira coletiva. As novas ditaduras já não precisam de ditadores. Usam-nos, depois de nos roubar a visão crítica do mundo. Ainda agora há apelos para voltar à normalidade (sair do isolamento social). 

A economia deve continuar, dizem. Mas que normalidade e que economia estamos a falar? Num país como Moçambique, a aplicação cega das soluções implementadas em outros países seria um desastre social e humanitário de proporções gigantescas. A maior parte da nossa sociedade sobrevive na esfera da economia informal. Essa economia continua a ser invisível aos olhos dos governantes, ainda que ela ocupe a maioria da população.

Pobres e excluídos serão as principais vítimas dessa doença. As políticas públicas — tanto na Europa, como em países da África e no Brasil — não focam no menos favorecido. O vírus veio escancarar a tragédia silenciosa provocada por ideologias liberais. O que fazer? 
Mia Couto: Sim, o caminho sempre esteve aí. Poucos o queriam ver. Espero bem que uma larga maioria das pessoas entenda que há de empreender mudanças radicais. Não se trata mais de escolher pessoas diferentes nas eleições. Trata-se de apostar numa nova ordem em que as instituições do Estado não sejam conduzidas pelos desígnios do mercado. Um mercado “livre” aprisiona os cidadãos tanto como a mais cruel das ditaduras.

Como é sua rotina criativa?
Mia Couto: Não tenho rotina. Não separo a criação do resto do que faço. Só me interessa a profissão de biólogo enquanto for capaz de me apaixonar por novas perspectivas de olhar o processo da vida e os seus mistérios. A ciência que uns querem exata, eu quero aberta e tão criativa como a literatura. Em geral, trabalho de manhã numa empresa moçambicana que faz estudos de impacto ambiental. À tarde, trabalho ou em casa escrevendo ou numa fundação cultural que eu e os meus irmãos criamos em Maputo para apoiar a criação artística de jovens moçambicanos. Sou dado a insônias e é, sobretudo ao longo da noite, que vou escrevendo textos literários.

É difícil traçar cenários, mas que lição devemos tirar de tudo isso?
Mia Couto: Há mil lições. Primeiro, não é verdade, como se queixa o Donald Trump, de que não se tenha previsto pandemias exatamente deste tipo. Outras virão. E irão requerer respostas mais robustas e globais. Já falei de alguns recados que devem ser levados a sério se não quisermos reagir de forma despreparada. E repare: uma das razões por que há pessoas portadoras deste vírus é a resposta desproporcionada do nosso sistema imunitário. O mesmo se passa com a resposta a nível da sociedade: o único remédio que nos resta provoca consequências econômicas e sociais terríveis. 

Uma das grandes lições de que não falei é o valor da cooperação. Talvez seja algo apenas episódico, mas é uma estimulante novidade haver laboratórios e empresas a trocar informações e conhecimento. Esses segredos eram considerados a “alma do negócio”. 

Outra aprendizagem: a pesquisa científica deve responder às necessidades da humanidade e não focar na busca do lucro imediato. É possível que valorizemos de forma mais justa quem está à nossa volta e é ofuscado pelo brilho das carreiras de sucesso: os médicos, os enfermeiros, os professores, os catadores de lixo, os jornalistas, todos aqueles que neste momento de crise se revelam com toda a dimensão humana das suas profissões.