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Alain Mabanckou: “Não há caminho proibido na literatura”

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Imagem: Jaredd Craig / Unsplash
Imagem: Jaredd Craig / Unsplash

Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2020, Alain Mabanckou é um dos mais renomados nomes da literatura francesa contemporânea. É autor de diversas obras, sendo a mais recente Les cigognes sont immortelles (As Cegonhas são Imortais), publicado na França, em 2018.  Em entrevista, o franco-congolês fala sobre o regime político no Congo, suas obras e o apelo político, histórico e social, e sua relação com a França e com seu país.

O escritor, que também é jornalista, poeta e professor, trata com responsabilidade e engajamento o papel de porta-voz que a literatura possibilita e assume posicionamento: “sou contra o sistema autoritário e oligárquico na prática que existe no Congo. Nós funcionamos graças à manipulação das eleições e à mudança da Constituição. É hora de estabelecer a transmissão do poder. Minha ira é dirigida contra uma instituição política que mergulha o Congo-Brazzaville em um despropósito”.

Em Les cigognes sont immortelles , o escritor franco-congolês de 52 anos se debruça sobre  os sobressaltos do Congo socialista da década de 1970. Uma maneira, sem dúvida, de lembrar que a história, mas também a atualidade de seu país natal continua a animá-lo. Neste romance militante, encontramos Michel, já narrador e herói de Demain, j’aurai vingt ans (Amanhã farei vinte anos), ao lado de Maman Pauline e Papa Roger, bem conhecidos pelos leitores do vencedor do Prêmio Renaudot de 2006.

Membros de uma pequena família de Pointe-Noire que leva uma vida simples, esses personagens estarão no centro da tempestade depois do assassinato do presidente da República Popular do Congo, Marien Ngouabi, em 18 de março de 1977. Uma narrativa que faz empréstimos tanto da grande história, a dos assassinatos políticos que acompanharam as independências, quanto da pequena história, a de Alain Mabanckou, perfumada com especiarias tragicômicas das quais só ele tem o segredo.

Mais uma vez, estamos em Pointe-Noire, em meio a distúrbios políticos, ouvindo a voz de um adolescente...

Alain Mabanckou: A voz da adolescência é a voz da pureza. A de um ser que não imagina que o assassinato do presidente da República, em Brazzaville, pudesse ter relação com uma pequena família pobre de Pointe-Noire. E, no entanto, um drama nacional tem consequências em todos os lares. A voz do adolescente permite dizer e expressar sentimentos que a idade adulta destrói. Para que fosse ouvida, bastava-me lembrar da minha própria situação em 1977, quando Marien Ngouabi foi assassinado. Eu tinha 11 anos.

Quais elementos são autobiográficos nessa narrativa?

Alain Mabanckou: Meu amigo Dany Laferrière fala sobre culinária quando evoca o romance. Em um prato, é difícil dissociar os ingredientes. Tudo está fundido para resultar em alguma coisa de global. Como no romance, no qual os elementos da ficção e da realidade estão emaranhados. As pistas autobiográficas estão lá e meus leitores sabem disso. Nos meus livros mais recentes, os personagens são reais. Meu pai, minha mãe e meu tio René já estão mortos, mas outros ainda estão vivos, e a narrativa política é autêntica.

Como sua família encarou o assassinato de Ngouabi?

Alain Mabanckou: Com assombro. Todos nós pensávamos que a 512 km de Brazzaville não haveria repercussões. A atmosfera exigia sigilo. A discrição era essencial. Foi um período terrível, pois a cultura da divisão bipartite da política aumentou com o desaparecimento de Ngouabi. Isso afetou a maioria das famílias congolesas, mas ainda mais os parentes do capitão Kimbouala Nkaya. Daí a trajetória de Maman Pauline no meu livro. Eu mostro a coragem, o poder e a força da mulher africana. É ela que, no momento do assassinato de Ngouabi, organiza a resistência e decide restabelecer a verdade.

O capitão Luc Kimbouala Nkaya era seu tio?

Alain Mabanckou: Para não revelar a culinária do romance, eu diria que Luc Kimbouala Nkaya foi um dos meus parentes. Escrevi o livro para homenageá-lo, porque Kimbouala Nkaya é um homem que conta na história política do Congo. Ele foi assassinado quase ao mesmo tempo em que Ngouabi e foi apresentado como cúmplice da morte deste último. Quiseram deliberadamente considerá-lo culpado. Quando se investiga bem, os criminosos devem ser procurados principalmente no Comitê Militar do partido, no qual encontramos Yhombi-Opango, Sassou Nguesso e outros.

Qual é o papel do cachorro de Michel, Mboua Mabé, voz premonitória, mas silenciosa?

Alain Mabanckou: Esse cachorro lembra meu interesse pela fábula, pelo conto e pelo fantástico. Permite-me injetar uma espécie de dimensão cômica próxima das histórias em quadrinhos com um cachorro de orelhas levantadas, rabo abanando, que hesita antes de comer, ouve rádio e reage às informações.

A palavra e as e ações não estão reservadas apenas aos seres humanos. Quando há uma guerra, um assassinato, os animais também são afetados. Mboua Mabé me permite instalar uma dupla busca. Quando Marien Ngouabi é assassinado, os adultos procuram os assassinos, mas Michel procura seu cachorro, que fugiu depois de ter ouvido a notícia no rádio. O animal encarna algo de espetacular na consciência popular africana.

Por que mencionar a canção Quand passent les cigognes (Quando as cegonhas passam) no título do seu livro?

Alain Mabanckou: Essa canção diz que os soldados russos que morreram em combate voltam a pairar sobre nossas cabeças na forma de cegonhas. Todos os heróis e heroínas africanos que lutaram pela liberdade estão mortos, mas se tornaram cegonhas.

Quando elas analisam as políticas africanas atuais, certamente ficam decepcionadas. Quand passent les cigognes também poderia ser um verso do poeta senegalês Birago Diop, que em Le souffle des ancêtres (O sopro dos ancestrais) evoca “O sopro dos mortos que não estão mortos”. Essa imagem poética percorre o romance, cujo fundo sonoro é a música comunista soviética e a marcha militar.

De alguns anos para cá o senhor tem colocado a política no centro de suas obras.

Alain Mabanckou: Ouço as vozes dos jovens africanos que me leem, que me escrevem e pensam que é necessário que um irmão mais velho lhes dê elementos para que se lembrem de sua história. Muitos jovens não sabem o que era uma república socialista na década de 1970. Neste romance exploro a cultura do assassinato político no continente africano depois das independências. Foi a partir destas últimas que começou a série de assassinatos de heróis da África que chamo de “cegonhas imortais”.

Quem me lê há muito tempo sabe que não se trata de uma obra oportunista, porque falo de Pointe-Noire em muitos livros. E não fui eu quem escreveu Les petits-fils nègres de Vercingétorix (Os netos negros de Vercingétorix), um livro político sobre as guerras civis da década de 1990 no Congo? Não há caminhos proibidos na literatura. O romance não deve evitar territórios. Até agora, os meus ofereceram certa dimensão social, mas o aspecto político e a convocação da história se tornaram necessários. A história do Congo-Brazzaville é uma história para ser reescrita, para ser lembrada e para ser pensada com objetividade.

Como o senhor é recebido quando volta a Pointe-Noire?

Alain Mabanckou: Acontece que eu não posso voltar ao Congo desde 2015. Um boato que chegou aos ouvidos do ministro da Justiça congolês diz que um mandado de captura internacional foi emitido contra mim. De qualquer forma, sei muito bem que não sou bem-visto pelas autoridades. Mas eu não estou na virulência. Eu estou na vigilância. E minhas queixas não são apenas sobre um indivíduo. Não passo minhas noites sonhando com Sassou Nguesso.

Ele não é meu inimigo público, e eu não vivo no ritmo do seu governo. Prefiro me preocupar com os jovens congoleses porque, se não tiverem sucesso amanhã, serei responsável e cúmplice. Mas eu critico, sou contra o sistema autoritário e oligárquico na prática que existe no Congo. Nós funcionamos graças à manipulação das eleições e à mudança da Constituição. É hora de estabelecer a transmissão do poder. Minha ira é dirigida contra uma instituição política que mergulha o Congo-Brazzaville em um despropósito.

Como o senhor encara o fato de não voltar a Pointe-Noire?

Alain Mabanckou: É difícil, mesmo que o Congo esteja em mim. Eu nunca o abandonei. Eu o carrego nas costas como uma tartaruga carrega sua carapaça, como uma zebra carrega suas listras. Se os congoleses precisarem me ouvir, poderão abrir meus livros e ler a esperança. Eles sabem que eu sempre estarei lá. Dito isto, não posso negar o fato de que não poder ir ao meu país amputou-me uma mão e um pé, extirpou-me uma narina, um olho e uma orelha. Portanto, estou obrigado a ter mais cuidado, porque tenho de ver, ouvir e assistir duas vezes para manter a força de escrever sobre o Congo.

Caminhamos para uma pacificação do Pool?

Alain Mabanckou: A pacificação requer um estudo das questões em jogo, a leitura dos fatos no terreno e, acima de tudo, o diálogo com a sociedade civil. Queremos pacificar para deixar o presidente da República em paz e a oposição se vangloriar de uma partilha qualquer de poder?

O Congo é o único país do mundo em que o líder da oposição é nomeado pelo governo. Quanto ao pastor Ntumi, ele não recebeu um mandato do povo do Pool para representá-lo. O governo sempre soube onde desemboscá-lo. Às vezes me pergunto qual é o jogo que esses políticos jogam. Essa pacificação não acontecerá porque beneficia os atores que causam problemas. Essas turbulências criaram uma situação em que o presidente e o governo podem legitimar qualquer decisão autoritária que viole os direitos humanos.

Treze jovens morreram recentemente em uma delegacia de polícia em Brazzaville. O que eles representam para o senhor?

Alain Mabanckou: Esses treze jovens são cegonhas. Eles são imortais. Eles são a ilustração da falência das políticas autoritárias, cujos únicos meios de governança são a prática da violência e o deixar morrer.

Um dia o senhor irá para além do engajamento literário em seu país?

Alain Mabanckou: Eu não corro atrás de cargos ministeriais e insígnias. Se fosse esse o caso, eu poderia tê-los obtido há muito tempo, até mesmo na França. O presidente Macron me pediu para trabalhar pela francofonia e eu recusei.

Alguns governos se aproximaram de mim querendo que me tornasse conselheiro e eu recusei. A única entidade pela qual posso sacrificar a reputação da minha escrita é o povo congolês. Tudo o que realizei em minha existência não foi conseguido por rapina nem por indicação. Comecei a trabalhar no térreo e subi as escadas. Eu nunca peguei o elevador e não vou começar a fazer isso na minha idade. Sou o porta-voz do povo congolês através do meu engajamento literário. Ouço sua voz, pego um alto-falante e a amplifico.

O senhor também é crítico em relação à França.

Alain Mabanckou: Eu não odeio a França. Ela me deu muito. Mas não vou agradecê-la eternamente. Trago-lhe coisas essenciais. Gostaria muito de ouvi-la dizer obrigado, a nós, africanos. Eu não sou inimigo da França nem do Congo. Na França, estou feliz por poder ter espírito crítico e levantar o debate democraticamente. No Congo, meu inimigo é o regime político, que reprime o povo.

Em 2015 o senhor disse que as empresas africanas fabricavam loucos. O senhor pensa que ainda será o caso daqui a cinquenta anos?

Alain Mabanckou: Espero que dentro de cinquenta anos sejam os sábios que fabricarão as sociedades africanas. Todos os presidentes pós-coloniais, que chegaram ao poder depois das independências terão desaparecido. Receio, porém, que antes de desaparecer, eles preparem seus filhos para sucedê-los. No Congo, o presidente se apressa com seu filho Denis Christel Sassou Nguesso.

Se nos próximos anos Sassou Nguesso não estiver mais no poder, mas o filho o substituir, teremos perdido o que existe de essencial na mudança democrática. Denis Christel Sassou Nguesso não é o homem mais qualificado para dirigir o Congo. É preciso deixar o povo escolher. Um presidente que compreenda que, quando seu mandato terminar, ele vá descansar e cultivar seus espinafres na horta de sua aldeia.