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Bruna Lombardi: “Eu trabalho contando histórias”

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O recolhimento doméstico e o trabalho diante do computador já faziam parte da rotina de Bruna Lombardi antes da pandemia. Como todas as pessoas do mundo, porém, a escritora, atriz e roteirista se viu abalada pelo impacto do coronavírus em diferentes frentes.

No plano pessoal, ela fez de São Paulo sua base de operações, na companhia dos parceiros de vida e de lidas audiovisuais, Carlos Alberto Riccelli e o filho deles, Kim Riccelli. Desde os anos 1990, a família se divide entre o Brasil e Los Angeles, nos Estados Unidos.

No plano profissional, a pandemia fez Bruna interromper suas atividades presenciais à frente da Rede Felicidade, iniciativa voltada à difusão de saúde e bem-estar físico e mental, na qual, além de textos, participa com palestras e comandando eventos com personalidades e profissionais de diferentes áreas.

Bruna também acompanha as transformações que a crise sanitária impôs à produção cultural. Seus roteiros para a televisão e o cinema se materializam em séries e filmes dirigidos pelo marido e pelo filho. O longa-metragem mais recente do trio foi “Amor em Sampa” (2016). O foco agora está na próxima leva de episódios de “A Vida Secreta dos Casais”, série que vai para sua terceira temporada no canal por assinatura HBO e suas plataformas digitais.

Essa intimidade com a escrita e a produção audiovisual faz de Bruna a pessoa ideal para entrevistar a escritora canadense Margaret Atwood, convidada do Fronteiras do Pensamento – Era da Reconexão. O encontro será exibido nesta quarta-feira, dia 27 de outubro, às 20h, no site fronteiras.com.

Na entrevista abaixo, é Bruna quem fala sobre esse encontro e outros temas que pautam a edição 2021 do Fronteiras do Pensamento, como as transformações do mundo provocadas pela pandemia e a crise ambiental.

O Fronteiras do Pensamento tem em 2021 o tema Era da Reconexão, que propõe discutir os rumos do mundo à luz do impacto da pandemia. Como você observa este período, em especial as transformações no modo de vida das pessoas?

Logo que a pandemia começou, eu senti que tudo estava vindo à tona, que as coisas estavam sendo descortinadas, o melhor e o pior das pessoas. Essa polarização sempre esteve no fundo do ser humano, só estava mais discreta, abafada, escondida. Mas os bons valores não estavam tão escondidos quanto pareciam. A gente se concentra na má notícia, não na boa, porque é a forma de sobrevivência. Você presta atenção onde tem perigo e isso acaba escondendo coisas maravilhosas. A gente viu o trabalho incrível e incansável dos profissionais da saúde e outros profissionais que, em plena pandemia, com todo mundo recolhido, estavam na linha de frente arriscando a própria vida. A gente viu grandes movimentos solidários, de empatia, de compaixão. ONGs se movimentaram diante de uma situação muito alarmante que é a fome que se alastra em nosso país. Sem esse enorme trabalho da sociedade civil seria um desastre absoluto. Então, os bons valores vieram à tona. Tudo isso, na minha visão, vem como forma de purificação. A gente está dando uma limpada naquele sótão em que ninguém entrava para dar um jeito, trazer uma forma de administrar essa sociedade caótica em que vivemos. 

E como você encarou essa limpeza no plano pessoal?

Como eu escrevo durante uma enorme parte do meu tempo, já tenho por força do meu trabalho um recolhimento. Estou acostumada a trabalhar quieta em casa, sem sair. Essa rotina só ficou maior. Também fiz uma enorme limpeza do ponto de vista de valores, para reavaliar, ressignificar coisas, dar prioridade ao que realmente interessa. É como uma limpeza física mesmo, tirar da frente coisas que você não quer mais, doar para quem precisa. Essa faxina interna e externa em volta de nós ajuda muito.

Você entrevistou para o Fronteiras do Pensamento a escritora Margaret Atwood, autora de livros que falam de temas como feminismo e totalitarismo. Ela é uma das convidadas desta temporada do projeto. O que você destaca na trajetória desta autora?

É uma mulher muito interessante, com toda uma trajetória de coerência na sua obra. Ela escreveu “The Handmaid's Tale” (“O Conto da Aia”) em 1985, muito antes destas questões estarem tão deflagradas. Na verdade, estas questões são cíclicas e a gente vai avançando nelas. É como naquele jogo, avança 10 casas e volta três, avança cinco e volta quatro. Mesmo assim, você vai avançando um pouquinho. Ela é um exemplo de mulher com fibra, tem coerência política e social no ponto de vista feminino sobre a posição da mulher na sociedade. Tem sobretudo essa visão política do que pode ser uma distopia, do que pode ser uma sociedade em um regime totalitário comandado por falsos valores. Existem todas essas questões religiosas que a gente respeita, mas que se levadas a um extremismo, a um fanatismo, são perigosíssimas. Extremismos, para qualquer lado, são perigosíssimos.  


Você e sua família vivem entre o Brasil e os Estados Unidos. O sucesso da série “O Conto da Aia” está muito relacionado ao início da Era Trump, em 2016. Qual sua avaliação sobre esse período e seus desdobramentos no mundo?

O que a gente vê são movimentos políticos cíclicos. O mundo foi para um lado mais embrutecedor com essa disparada de fake news, de populismo, da falta total de empatia, da distribuição de uma carga de ódio entre as pessoas. A única coisa que pode nos curar é o oposto disso. É a oportunidade para uma reavaliação do quanto isso faz mal para a sociedade e do quanto a gente precisa de laços de compaixão, amor, afeto e generosidade uns com os outros.

A indústria audiovisual se reconfigurou nesta pandemia e as grandes plataformas de streaming se tornaram hegemônicas na produção e difusão de conteúdo. Como estão seus projetos para a televisão e o cinema nesta nova realidade do mercado?

Estou desenvolvendo a terceira temporada de “A Vida Secreta dos Casais” a pedido da HBO. Mas tudo está parado. Essa hegemonia das plataformas, sem dúvida, existe aqui e lá também. As grandes empresas estão mudando de mãos, uma comprando a outra. A HBO foi comprada pela AT&T, numa manobra meio surpreendente para o mercado. Um pouco pela pandemia, um pouco pelas mudanças do mercado, como o avanço do streaming e a parada dos cinemas, tudo isso misturado exige uma grande reavaliação, como em todas as outras áreas. São os abalos sísmicos do mercado que se refletem de forma geral, deixam todo mundo meio louco. Está se reavaliando os imensos escritórios, como vamos lidar com as aglomerações, que mundo estamos construindo. E seria muito interessante se a gente conseguisse reavaliar isso considerando os recursos naturais e a sustentabilidade, considerando como trabalhar melhor para manter esse planeta. O mais importante a pensar agora é na fome, na miséria, na água, nos recursos naturais, em como vamos lidar com as mudanças climáticas que nós mesmo estamos causando.

Além da parte criativa das produções audiovisuais, como roteirista e atriz, vê também se envolve na área executiva, como produtora. Como observa as dificuldades que o setor enfrenta, em especial no Brasil, com os mecanismos de fomento paralisados?

Na produção da série não tem dinheiro público nenhum, é dinheiro privado. É importante pensar nisso porque num momento de pandemia não está pintando verba e tem gente, como o pessoal da maquinaria, dos bastidores, os cenotécnicos, que está sem trabalhar. O público só vê o último estágio deste trabalho, a pontinha do iceberg, que é o que vai pro ar. Mas tem uma indústria por trás disso que precisa de trabalho. Estamos vivendo no Brasil o momento em que a cultura é um território arrasado. A gente não tem uma política cultural, que mostre a importância de educar, não apenas alfabetizar, que é o básico, mas ensinar a pensar, dar conhecimento. Cultura, educação e saúde são pilares fundamentais para erguer uma nação. O Brasil está passando por tempos duros.

E algum projeto para o cinema em vista?

Adoro cinema, venho de uma família do cinema. Amo o escurinho do cinema, fico emocionada na hora em que o filme vai começar, minha memória emocional disso é sempre uma maravilha. Mas digo com bastante pesar que a gente precisa repensar o cinema. As salas de cinema não estão se sustentando. No Brasil, a indústria cinematográfica, assim como a teatral e toda a parte cultural, puxou um freio de mão terrível. É um desastre a situação. É o momento para redesenhar tudo e pensar como nós vamos trabalhar. A indústria de entretenimento ajudou muito na pandemia. O que seria de tanta gente se não tivesse em casa assistindo a alguma coisa? Isso mostra o quanto a gente precisa de histórias. Eu trabalho contando histórias. As histórias sempre vão existir, vamos é mudar o meio, a mídia, como essas histórias vão chegar ao público.