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Contardo Calligaris: Por que supervalorizamos a felicidade?

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Contardo Calligaris e o ator Emílio de Mello (Foto: Fábio Braga / Folhapress)
Contardo Calligaris e o ator Emílio de Mello (Foto: Fábio Braga / Folhapress)

O psicanalista italiano Contardo Calligaris se tornou um observador privilegiado de dois fenômenos do nascente século 21: a busca insana pela felicidade e a supervalorização da infância.  

Dois dos top 10 conteúdos mais lidos na história do Fronteiras do Pensamento comprovam a força de ambas as questões.

São de Contardo Calligaris o artigo Pelo direito à tristeza, em que pede aos pais para que parem de fazer as crianças alegres o tempo todo, e a entrevista que deu origem à temática do Fronteiras 2019 (os Sentidos da Vida), intitulada Não quero ser feliz. Quero ter uma vida interessante.

Para Calligaris, excluir esta felicidade radiante como única causa do bem viver é muito mais do que um exercício de leveza, trata-se de se distanciar de duas condições contemporâneas graves: a depressão e a infantilização dos adultos – que passam a projetar nos filhos o que sonharam para si. 

Na entrevista abaixo, o psicanalista discute as motivações e os fantasmas atuais. Nesta semana, ele leva nossos desejos e medos ao palco do Fronteiras do Pensamento.

Contardo Calligaris é o conferencista do projeto nos dias 21/10 (POA) e 23/10 (SP). Além de Calligaris, o Fronteiras ainda receberá o filósofo Luc Ferry. Garanta sua participação:

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O medo da depressão e da tristeza é um problema do nosso tempo? 

Contardo Calligaris: É muito antigo. Na Idade Média, o medo era considerado um pecado gravíssimo.  

Se alguém se deprimia, estava desprezando a Criação, o que desagradava Deus. Também, havia preocupação com uma epidemia de depressão entre os monges medievais. O que era um problema, porque os monges deviam se fechar nos conventos para glória divina e não para ficarem tristes.  

Além do mais, havia um paradoxo. Os mosteiros eram ilhas de sobrevivência, de privilégio, de proteção. Raramente se morria de fome... Se houvesse peste, fechava-se o mosteiro, e os religiosos ficavam isolados.  

No fim do século 20, voltou com força a ideia de que a depressão é um pecado capital. Esse fenômeno tem a ver com a hipervalorização da felicidade.  

Por que hipervalorizamos a felicidade?  

Contardo Calligaris: Nos anos 1950 e 1960, em meio à euforia do pós-Guerra, se solidificou o ideal de felicidade. No caso dos americanos, o ideal era suburbano. Tinha-se de ter uma casa própria; o que de imediato trazia a ideia do casamento. Era preciso estar casado, ter filhos. Sexo e amor deveriam andar juntos.  

Esse modelo continuou dominando a segunda metade do século 20 e permanece vivo. Quando se tem um ideal de felicidade muito forte, a depressão é malvista.  

Uma pesquisa recente mostrou que as pessoas que ficam menos tempo no Facebook são mais felizes. Faz mal a divulgação constante da felicidade nas redes sociais? 

Contardo Calligaris:
As redes sociais levam a confrontar nossa felicidade com a felicidade dos outros. A gente se sente obrigado a fingir que está feliz, o que pode ser muito penoso.  

A propósito, foi nos anos 1950 que as pessoas passaram a sorrir nas fotografias. Quando olhamos as fotografias do fim do século 19 e as do começo do século 20, os retratados aparecem seríssimos. Deixar-se fotografar era um momento solene. Só no pós-Guerra começou o costume de parecer feliz.  

As fotos do Facebook vêm dessa descendência. O problema é que ter de se mostrar feliz é um empreendimento constante e muito cansativo.  

Ser feliz acaba por virar uma culpa... 

Contardo Calligaris: Completamente. A infância – como idade separada da vida adulta – existe há pouquíssimo tempo, algo como 200 anos. Tornou-se uma fase idealizada.  

Entendemos que as crianças devem ser os nossos representantes, gozando das felicidades que não tivemos. A criança e a infância se tornaram um valor em si, por tempo indeterminado. Nós as privamos da possibilidade de crescer.  

Explica haver tantos adultos na casa dos pais...  

Contardo Calligaris: Diria mais que isso. O ideal de felicidade projetado na infância promove nossa infantilização. Quanto mais as crianças nos parecem ideais de felicidade, mais nos parecemos com crianças. O que torna a vida complicadíssima para elas.  

No século 19, uma criança sabia muito bem qual era a aparência de um adulto, pois um adulto era muito diferente dela. Hoje, uma criança olha para os pais e acha que eles são adultos por obrigação durante a semana. Aos sábados e domingos, se vestem e agem como crianças.  

Você escreveu em uma de suas colunas que nunca protegemos tanto nossas crianças, mesmo assim elas continuam se acidentando. Cuidado e culpa andam juntos?  

Contardo Calligaris: Temos o narcisismo dos adultos. Achamos que estarmos presentes e envolvidos é suficiente para que a criança se sinta feliz.  

Mas, a criança pode estar infeliz por uma série de outras razões, todas ótimas, como, por exemplo, ter descoberto que todos vamos morrer, que a Terra um dia vai desaparecer... Ou apenas porque uma colega da escola não lhe dá bola. A vida é assim.  

Há pessoas que conquistaram uma boa casa, emprego, casamento estável e, mesmo assim, estão tristes e insatisfeitas. Falta um sentido para a vida?  

Contardo Calligaris: Acho que a gente encontra e procura sentido demais para a vida. Uma das razões para a infelicidade, eu acho, vem dessa incapacidade de viver com leveza, de conviver com o fato de que – e esse é um segredo de polichinelo – a vida não tem sentido.  

Essa tristeza pode vir da sensação de ter conquistado tudo?  

Contardo Calligaris: Diria que não existem arranjos felizes que não deixem um resto. Crises ocorrem sobretudo com pessoas que tiveram certo sucesso e alcançaram ambições comuns, como um carro importado, uma casa de praia, filhos bem encaminhados. Olham para trás e se perguntam: “Corri tanto só por isso?”  

Descobrem que o desejo era maior que a quantidade de clichês conquistados. Muitos sofrem por achar que é muito tarde para mudar. E não só pelo tempo: também é difícil quebrar alicerces. A gente avança muito pela vida por inércia. O que é normal. É cansativo quebrar, o tempo todo, o que se construiu.  

Estamos diante de uma crescente onda feminista, paralelo a uma resposta conservadora. O que dizer sobre esses extremos?  

Contardo Calligaris: Os homens em geral não lidam bem com o fato de que as mulheres têm desejo, o que dá a dimensão do problema.  

Estamos dispostos a entender que o casamento implica renúncias, mas vemos do lado do homem. O casamento, que implica renúncias para os homens, é visto como um modelo ideal para a mulher.

Essa cultura permanece mais de 40 anos depois da onda feminista dos anos 1960. Continua na cabeça de muitos homens e também de muitas mulheres.

(Via Gazeta do Povo)