Voltar para Entrevistas

Depressão: a doença da solidão

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Imagem: Sasha Freemind
Imagem: Sasha Freemind

Ao contrário do que se pensa, a depressão não é desencadeada necessariamente por algum acontecimento muito marcante. Dentre os vários fatores que o escritor norte-americano Andrew Solomon coloca como causadores da doença, em uma somatória, estão: falta de sono, alimentação inadequada, falta de atividade física, excesso de tecnologia, pouco contato com outros indivíduos, redes sociais, etc.

Sobre as poucas horas de sono o escritor faz uma observação: as horas diminuíram com a chegada da televisão, e depois diminuíram mais ainda com a chegada da internet. Devido às distrações com tecnologias, as pessoas estão dormindo menos do que deveriam, o que gera estresse. Além disso, relacionam-se mais com tecnologia que com seres humanos.

Cabe um destaque para a sensação que as redes sociais podem despertar: o sentimento de que nossa vida é inferior às outras, de que estamos fora do padrão e de que nossa vida não é interessante. 

São inúmeros os fatores e Solomon aborda assuntos relacionados na entrevista a seguir.

>> Assine a plataforma digital para ter acesso ao Fronteiras do Pensamento 2020.




O demônio do meio dia

No seu livro O Demônio do Meio-Dia, você explica com muita propriedade tudo que se sabe sobre a depressão, além de ser muito aberto sobre sua experiência pessoal. Ao longo dos anos, qual tem sido o feedback de pessoas que enfrentam o problema?

Andrew Solomon: Eu recebo muitas cartas de pessoas dizendo "eu não tinha as palavras para descrever a experiência, mas isso me ajudou". Há várias categorias de livros sobre depressão. Livros técnicos, muito informativos, e memórias, que tendiam a ser escritas por uma pessoa e só descreviam a experiência daquela pessoa com a depressão. E apesar de a minha experiência com a depressão ser a razão pela qual eu escrevi o livro, eu entrevistei muitas pessoas sobre o tema. Senti que não havia um livro que juntasse essas duas abordagens de lidar com o assunto. E parte do que me ajudou a superar a depressão foi fazer anotações. Virginia Woolf disse uma vez: faça anotações e a dor passa.

Que tipo de anotações?

Andrew Solomon: Sobre o que eu estava passando, sobre como eu me sentia, sobre o que estava acontecendo. Na pior época da depressão, eu não conseguia anotar nada, eu ficava deitado na cama. Mas quando eu comecei a me sentir funcional, eu queria registrar o que eu tinha passado. Eu pensei que outras pessoas deveriam passar por isso também. E quando eu comecei a pesquisar, descobri que muitas pessoas passavam por isso também, de um jeito ou de outro.

O sr. sente que os efeitos da depressão na sociedade são subestimados? Ou que muitos estão deprimidos e não sabem?

Andrew Solomon: Minha estatística bruta, baseado em estudos que eu já li, é de que apenas 50% das pessoas que têm depressão reconhecem que têm depressão. E dessas, só metade procura tratamento. E das que procuram tratamento, só metade recebe tratamento adequado. Então, as pessoas que estão sendo bem cuidadas são um grupo muito, muito pequeno.

Tenho sorte de estar nesse grupo, mas acho que são necessários programas para alcançar essas pessoas. É preciso procurar essas pessoas em universidades, nos locais de trabalho, entre as pessoas que estão desempregadas, entre as pessoas vivendo em situação de pobreza. E as pessoas acham que esse tipo de trabalho seria tão caro, mas quando você analisa o quanto é perdido na economia em anos de vida útil por pessoas que sofrem de depressão, você percebe que esse esforço mais que compensaria. É uma situação muito trágica: temos uma condição que na maioria das vezes é tratável, mas as pessoas não estão sendo tratadas.

No Brasil, as taxas de suicídio estão aumentando, e todo mundo conhece alguém com problemas relacionados à saúde mental. O sr. acha que estamos mais deprimidos, ou apenas mais diagnosticados?

Andrew Solomon: Acho que as duas coisas são verdade. Sobre o aumento nos índices de depressão, acho que a vida moderna traz muitos desafios e é difícil destacar apenas um que esteja causando esse fenômeno.

Uma dessas questões é a falta de sono. Eu acho que a média do tempo que as pessoas dormem caiu em cerca de dois anos quando a televisão foi inventada, as pessoas dormem mais tarde e ainda acordam cedo. E diminuiu em mais uma hora depois da criação da internet, as pessoas estão dormindo muito menos do que costumavam e acho que isso é muito estressante. Também, as pessoas passam a vida interagindo com tecnologia em vez de interagir com outros seres humanos.

Eu já recebi relatos de pessoas que estavam tão isoladas, que elas me escrevem dizendo que acordam, comiam alguma coisa, vão para um trabalho em que interagem com uma máquina o dia todo, pegam alguma coisa para comer na volta para casa e comem em frente à TV. Não tinham nenhuma interação real com outro ser humano.

Há isso, e acho que há outros infinitos fatores, como redes sociais que causam o sentimento de que a sua própria vida não está à altura da vida dos outros. Eu poderia falar por horas, sobre nutrição, falta de exercício. Já está comprovado que se você introduz exercício três vezes por semana pode melhorar uma depressão tanto quanto um remédio. Tudo isso têm papel no aumento da depressão.

E os diagnósticos?

Andrew Solomon: Nos anos 1950, se você dissesse que tinha depressão, seus amigos iam dizer sinto muito, mas não há nada a fazer senão viver com isso. Hoje, se você disser que tem depressão existe a psicoterapia, especialmente a comportamentalista, há exercícios, há medicação, que funciona para um grande número de pessoas. Com essa mudança, de as pessoas que têm depressão e melhoram, os médicos tendem a diagnosticar mais, porque existe uma solução disponível.

O senhor toma medicação até hoje contra a depressão e diz que provavelmente sempre tomará. Muitas pessoas temem tomar remédios por medo de interferir na criatividade, ou na personalidade. Isso foi uma questão para o senhor, sendo escritor?

Andrew Solomon: Eu acho que as pessoas têm medo de medicação que na maioria das vezes é baseado na falta de experiência. E as pessoas temem que, se você tomar o remédio, será mudado para sempre, é como perder a virgindade e não tem mais volta. Você pode tomar o remédio, e se ajudar, continua. Se sentir que está mexendo com a sua criatividade, você pode parar de tomar. As pessoas precisam estar informadas e a única maneira de estar informada é tentar por si mesmo.

Qual o papel do amor na luta contra a depressão?

Andrew Solomon: A depressão é uma doença da solidão e as pessoas deprimidas geralmente se sentem isoladas das outras pessoas. É muito útil se o seu intelecto puder identificar, apesar da depressão, que você tem uma vida que vale a pena se você conseguir chegar do outro lado. Se você souber que é amado por pessoas, é a melhor motivação para melhorar. Não faz a depressão ir embora, mas te motiva a fazer o que tem que fazer para melhorar.

Quando eu estava deprimido, eu sentia que seria difícil cometer suicídio porque ia devastar meu pai, foi muito antes de eu casar e ter filhos. Ainda tenho meus altos e baixos, mas eu sinto que sou apoiado por esse amor. É um conselho ruim para dar para alguém com depressão, tipo vá lá e busque pessoas que te amam e vai melhorar. Mas quando olho para casos reais, é fato que as pessoa envoltas em relações amorosas são mais resilientes.

O sr. pesquisou também a depressão em pessoas vivendo na pobreza. O que muda?

Andrew Solomon: Se você tem uma vida relativamente boa e está sempre sofrendo, é mais fácil identificar que você está com depressão. Se você tem uma vida incrivelmente difícil e não consegue as coisas que você precisa e quer, como é a vida das pessoas na pobreza, e você se sente terrível o tempo todo, pensa que o jeito que você se sente é reflexo das circunstâncias. E se você considerar que a depressão vem de uma combinação de vulnerabilidade genética e situações desencadeantes, há mais situações desencadeantes para as pessoas mais pobres.

É uma questão de política pública?

Andrew Solomon: Exatamente. Fiquei impressionado com projetos nos EUA em que médicos acompanhavam as pessoas de comunidades pobres próximas a Washington DC e mudaram as vidas das pessoas. E tudo o que eles fizeram era terapia uma vez por semana, e uma medicação. E custou centenas de dólares e mudou a vida deles. E quando eu perguntei a uma dos pacientes o que eles achavam sobre a pesquisadora que conduziu o estudo, ela me disse: Eu rezei a Deus por um anjo e ele ouviu minhas preces.


Existem lições ou conselhos que o senhor daria a pessoas que estão deprimidas?

Andrew Solomon: O primeiro é: procure ajuda profissional. Há muito que pode ser feito e não tenha vergonha de pedir ajuda. Nem ache que sua depressão não é forte o bastante; se não está se sentindo o seu habitual, procure ajuda.

O segundo conselho é: não gaste muita energia tentando manter sua depressão em segredo, depressão é muito exaustiva, e manter segredos também. Não precisa contar para todo mundo e divulgar como eu fiz, mas se você contar às pessoas ao seu redor que você está sofrendo, terá companhia no sofrimento.

E o terceiro: preste atenção ao cuidado com você mesmo. Coma uma dieta balanceada, não beba muito álcool, não use substâncias em abuso, faça exercícios, durma o suficiente. Tudo isso que pode ser um pouco irritante pode fazer uma enorme diferença na sua depressão. E seja gentil consigo mesmo. Se você tivesse quebrado a perna não estaria dizendo 'eu preciso dançar, deveria estar dançando".

No livro Longe da Árvore, o senhor conta a história de famílias que descobriram que seus filhos eram muito diferentes deles, em diferentes situações. O senhor, sendo gay, viveu isso também quando criança. Como foi?

Andrew Solomon: Quando eu era criança, meus pais não aceitaram o fato de que eu era gay, mas eventualmente aceitaram. Eu sinto que o livro e o filme tratam da maneira como pais lidam com filhos que são diferentes deles, e existem muitas diferentes. Pais cujas crianças são surdas, ou têm síndrome de Down, ou autistas, ou anãs, ou esquizofrênicas, ou prodígios. Ou casos de crianças concebidas em estupros, ou famílias com pessoas que são criminosos, e pessoas trans. Olhei para diversas categorias e comparei com a minha própria experiência em ser gay na minha família

E todos essas diferentes situações se mostraram relacionáveis?

Andrew Solomon: Sim. A experiência que as famílias têm em lidar com uma criança que é diferente do que eles esperavam é uma experiência pela qual a maioria das pessoas passa. Uma semana depois da festa de lançamento do livro, em que eu convidei a maioria das pessoas que entrevistei, eu recebi uma mensagem de um homem com nanismo, uma mulher com esquizofrenia e o pai de uma mulher com autismo. Eles jantaram juntos e disseram: nós temos mais em comum do que pensávamos. E isso me confortou.

E sua infância?

Andrew Solomon: Meus pais aceitavam bem o fato de eu ser esquisito, mas eu pensava que se eles soubessem que eu era gay, ficariam furiosos e preocupados. E eles descobriram, aos 22, minha mãe se recusou a aceitar, e brigou, ficou furiosa. Não me expulsaram de casa ou disseram que não iam mais falar comigo, ou nenhuma das coisas extremas que as pessoas fazem nessa situação, mas minha mãe deixou muito claro que era uma decepção terrível, e não o que ela esperava. Foi completamente devastador. Me senti envergonhado, senti todo tipo de sensações terríveis.

Ela morreu anos depois e disse todas as coisas certas antes de morrer, que esperava que eu encontrasse felicidade. Eu pensei tudo bem, não tenho certeza de que ela realmente sentia aquilo, mas achei bom ela dizer. Meu pai, que viveu, tornou-se incrivelmente apoiador. deu uma festa quando eu me casei, é muito apegado aos meus filhos, foi muito feliz.

Mas esses anos foram muito difíceis e mais difícil ainda foi o meu conhecimento de que isso aconteceria, que foi o que me motivou durante toda a minha adolescência a fazer o que fosse preciso para não ser gay, tentar sair com garotas, todas essas coisas que não deram certo.

O que era comum a essas famílias que você acompanhou? As crises?

Andrew Solomon: Sim, as crises. Há diferença entre amor e aceitação. Idealmente, o amor está lá quando a criança nasce. Mas a aceitação é um processo, leva tempo, e requer tempo para aceitar seus filhos por quem eles são, com essas diferenças extremas. E para muitas famílias demorou para aceitá-las, e demorou para minha família me aceitar. E me senti melhor escrevendo este livro, porque pensei que todas essas famílias sofreram para chegar à aceitação. Não é fácil.

Os discursos de ódio e movimentos de extrema direita te preocupam?

Andrew Solomon: Me preocupam e me aterrorizam. Com o crescimento dos governos de extrema direita como no Brasil, nos Estados Unidos, Hungria, Rússia, Turquia, Indonésia, as pessoas estão liberando preconceitos que haviam sido reprimidos. Há mais ataques a judeus, a mulheres, a minorias étnicas, e certamente mais a pessoas sobre as quais eu escrevi, mais ataques a LGBTs. Muitos ataques a pessoas com deficiências, serviços sendo retirados. Vivemos em tempos assustadores e espero que isso mude, como um período estranho da história. Mas temo que pode dar horrivelmente errado, os nazistas vieram de um jeito gradual.

Entrevistei uma sobrevivente do holocausto que escreveu um livro sobre a experiência dela e ela disse: isso parece a Alemanha da minha infância. E nenhum de nós achou que algo tão horrível fosse acontecer, ou teríamos fugido. Mas não prestamos atenção suficiente. E ela disse: "Prestem atenção", ela tem 98 anos, e acho que ela está absolutamente certa. Não acho que caminhemos para outro holocausto, mas acho que precisamos chamar atenção ao que está acontecendo e lutar contra isso. Eu acho que são tempos horríveis para ser diferente em qualquer aspecto.

Tem a ver com o seu livro?

Andrew Solomon: Acho que é muito mais difícil bater em pessoas se você conhece a história delas. O objetivo do livro, e espero que funcione, é que as pessoas que não conhecem essas vidas e experiências possam conhecer, e ler, e ter mais simpatia por elas.


A temporada 2020 do Fronteiras do Pensamento ainda traz ao Brasil Isabela Figueiredo, Alain Mabanckou, Jonathan Haidt, Mia Couto, Paul Collier, Timothy Snyder e Fritjof Capra.

>> Assine a plataforma digital do Fronteiras do Pensamento.