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Duvidar é preciso: entrevista com Michael Shermer

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Crítico do relativismo, do criacionismo que se expande nos Estados Unidos e de toda forma de fé religiosa, Michael Shermer reconhece, no ceticismo que prega, a necessidade de relativizar seu discurso, quando afirma, nesta entrevista: "Nós devemos ser céticos em relação à neurociência, à ciência e até mesmo ao ceticismo!"

Valor: Seu novo livro, recém-lançado nos EUA (The believing brain), começa com uma narrativa pessoal sobre as suas crenças. Em que acredita alguém que se define como cético?
Michael Shermer
: Ser cético significa que você precisa de evidências antes de acreditar em algo. Evidências confiáveis, claro. Céticos são pessoas que pensam como cientistas, sempre buscando evidências. Mas não é preciso ser cientista para ser cético. Escrevi um capítulo sobre as minhas crenças pessoais, sobre a época em que eu acreditava em Deus, na religião, nos fenômenos paranormais e sobrenaturais e outras coisas desse tipo. Até que me tornei um cientista e aprendi a pensar de forma crítica, cética e científica e resolvi procurar evidências para as minhas crenças. Quando fiz isso, deixei de acreditar nos fenômenos sobrenaturais e paranormais, em Deus, na religião etc. Mas o ponto principal do livro é sobre o fato de que todos nós temos nossas crenças, pois o cérebro funciona de maneira a estabelecer crenças e reforçá-las como verdades.

Valor: O seu ceticismo é um método de levar a dúvida até a última consequência? Haverá sempre algo a duvidar?
Shermer
: O objetivo do ceticismo é entender como o mundo funciona. O mundo sempre será como ele é; não importa como queremos que ele seja. O problema é que nosso cérebro está programado para estabelecer crenças e reforçá-las como verdades absolutas, e não é assim que o mundo funciona. O objetivo da ciência é tentar superar essa tendência cognitiva a acreditar, essa tendência a acreditar em coisas nas quais queremos acreditar mesmo quando não existem evidências.

Valor: O senhor acha que acreditar em Deus também é parte dessa tendência? Como explicar a fé religiosa?
Shermer
: Nosso cérebro é programado pela evolução para acreditar em todo tipo de coisa, não importa se são verdadeiras ou não, só pela possibilidade de serem verdadeiras. E nós procuramos evidências que se encaixem naquilo em que já decidimos acreditar. Por exemplo, se você é católico e acredita em Deus, só vai procurar evidências que reforcem essa crença e vai ignorar qualquer outra evidência que vá contra isso. Na ciência, isso não é permitido. Você é obrigado a procurar as evidências contrárias à sua teoria. Se você não fizer isso, outra pessoa vai fazer.

Valor: Ainda haveria motivos para o debate sobre o valor da ciência em relação ao valor da religião como forma de explicação do mundo?
Shermer
: A ciência é uma maneira de explicar o mundo natural, de tentar entender por que o mundo é assim, utilizando métodos confiáveis. Não importa se eu, você ou alguém na Índia tem uma teoria, todos nós podemos usar um método para verificar se ela é verdadeira ou não. Um exemplo: uma pessoa nascida na Índia provavelmente vai seguir a religião hindu, uma pessoa no Brasil provavelmente vai ser católica, e uma pessoa nascida no Sul dos EUA provavelmente será da religião batista. Portanto, o local onde você nasce vai determinar qual será sua religião, em qual deus você vai acreditar. Na ciência, digamos na física, por exemplo, é diferente. Não existe a física da Índia, do Brasil ou dos EUA. Existe simplesmente a física.

Valor: Há diferença em acreditar na ciência e acreditar em Deus ou tudo é meramente uma questão de acreditar ou não? Esse ainda é um embate necessário no mundo de hoje, sobretudo nos EUA, onde a teoria do criacionismo vem ganhando cada vez mais espaço?
Shermer
: É um bom exemplo. Em nenhum outro lugar do mundo, ninguém jamais duvidou da teoria da evolução, exceto nos círculos religiosos dos EUA. O que é mais provável? Que os criacionistas estejam certos ou que o resto do mundo esteja errado? Ou que a crença religiosa deles esteja impedindo que tenham uma visão objetiva do mundo? A opinião de cada um interfere na forma como os dados são analisados. Se você não consegue deixar de lado a sua visão, precisa encontrar alguém que consiga. O que importa para nós, cientistas, é saber se algo é verdadeiro ou não, se está de acordo com a realidade. Se há alguma maneira confiável que permita que eu e você analisemos os mesmos dados para chegar às mesmas conclusões. Os criacionistas duvidam da evolução por razões religiosas. Nós temos que deixar de lado a religião, a política e a economia e analisar os dados para ver se são verdadeiros ou não.

Valor: Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas? A resposta para isso está no cérebro?
Shermer
: Sim, o cérebro não consegue viver sem acreditar em nada. Temos que acreditar em diversas coisas para conseguir levantar da cama de manhã, sair de casa para trabalhar. Nós estabelecemos várias crenças e temos que fazer isso para sobreviver. Todos os animais fazem isso. Nós estabelecemos associações, conexões, aprendemos, ligamos A a B, criamos padrões, isso é um processo normal para todos nós. Mas sem a ciência é impossível saber se nossas crenças são verdadeiras ou não. O que a ciência faz é trazer um conhecimento confiável, determinar se uma teoria é verdadeira ou não. Uma teoria não é verdadeira só porque você acredita nela. Ela é ou não é verdadeira.

Valor: É melhor acreditar em coisas estranhas do que não acreditar em nada?
Shermer
: As pessoas acreditam em coisas estranhas porque elas precisam acreditar nas coisas em geral. E não temos a capacidade de diferenciar as coisas verdadeiras das coisas falsas. Por isso, temos uma tendência a acreditar em tudo. As coisas estranhas são apenas uma parte desse todo. A ciência é algo relativamente novo, foi inventada alguns séculos atrás, enquanto nosso cérebro existe há milhões de anos. Portanto, nosso cérebro é programado para estabelecer crenças rapidamente, de forma intuitiva e emocional. Isso é bem diferente da maneira como funciona a ciência.