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Entrevista Richard Sennett: "A internet é usada como uma vitrine, em vez de uma ferramenta de comunicação"

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Richard Sennett no Fronteiras (Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Richard Sennett no Fronteiras (Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

"'Isso é o que eu penso e não posso pensar de forma diferente' é a receita para a morte intelectual e social. Se temos fortes convicções, a questão é como as relacionaremos com pessoas que possuem convicções tão fortes quanto as nossas."

A provocação do sociólogo norte-americano Richard Sennett é pauta de qualquer discussão mais profunda sobre a internet. Grande parte acabará concordando com o professor, quando ele conclui que entrar em uma discussão com um posicionamento irredutível é uma rua sem saída – participar de um suposto debate apenas para tentar convencer o outro daquilo que pensamos não é um debate de ideias, mas sim um embate de forças.

Contudo, a reflexão proposta por Sennett vai muito além: enquanto “a culpa” deste acusatório choque de ideias recai somente sobre o ser humano, a tecnologia também tem seu papel.

Para Sennett, redes sociais têm funcionado como máquinas simplificadoras, que removem a complexidade do pensamento. Mais ainda, essa redução não acontece apenas nas mídias, mas na internet como um todo, sendo que os aplicativos mais utilizados replicam esta fórmula, emburrecendo a capacidade humana de aprender sobre amigos, experiências e ambientes.

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Em entrevista exclusiva à Braskem, patrocinadora do site e das mídias do Fronteiras do Pensamento, o sociólogo nos explica como a internet é mais uma vitrine de ideias do que uma ferramenta de comunicação e o que devemos fazer para transformar esta plataforma. Leia e assista abaixo. Não perca os conteúdos complementares sobre o tema.


Braskem: As redes sociais têm se tornado um espaço de argumentação feroz para grupos com ideologias diferentes. Como o senhor avalia esse uso?

Richard Sennett: Poderíamos usar as mídias sociais de forma menos argumentativa. Atualmente, as mídias convidam as pessoas a serem muito argumentativas, a demonstrarem suas opiniões sem se importar com os outros.

Mas, a tecnologia em si poderia ser transformada de forma que fosse verdadeiramente interativa. Contudo, não utilizamos a tecnologia dessa forma até agora. A internet é usada como uma vitrine, em vez de uma ferramenta de comunicação.

Portanto, penso que essa é uma nova fronteira para a tecnologia, que seria como torná-la verdadeiramente interativa, em vez de uma vitrine de uma ideia após a outra, como a maioria dos blogues funciona.

Braskem: O senhor critica o conceito de Cidades Inteligentes. O que é, então, uma cidade ideal?

Richard Sennett: Não é uma questão de ser uma coisa ou outra. Mas sim de que podemos usar a tecnologia muito bem. Nós precisamos fazer isso para que possamos lidar com a maneira pela qual as cidades funcionam. Mas, agora estamos usando a tecnologia para dizer às pessoas o que devem fazer, em vez de lhes dar uma ferramenta que mostra opções.

Coisas como o Google Maps dizem às pessoas para onde ir e como chegar lá. Em outras palavras, emburrecendo a quantidade de informação que está ao alcance das pessoas. Google Maps é uma operação de emburrecimento.

O que eu quero é algo que estimule as pessoas a pensar indutivamente a respeito de onde estão, por exemplo. Sobre que tipo de lugar é esse. E, então, dar as ferramentas para que elas possam fazê-lo. Possuímos a tecnologia para fazer isso, mas não a utilizamos.

Por exemplo, você está em um bairro e quer ir para outro muito diferente. Simplesmente arrumar um mapa e dar a rota mais curta até lá não é inteligente. Você quer saber como é o seu destino. Se você tomar uma rota caminhando, qual tipo de experiência você terá em comparação com outra rota.

Para isso, é preciso outro tipo de informação, além de traçar a linha mais curta entre duas coisas ou mostrar às pessoas qual o transporte público ou como dirigir até lá. Isso é uma redução da informação. Você não está aprendendo sobre o seu ambiente. Meu trabalho, nos últimos cinco anos aproximadamente, é como usar a tecnologia para que você tenha um panorama mais rico da cidade.

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Em fala exclusiva ao Fronteiras, Richard Sennett critica as tecnologias ditas inteligentes, argumentando que elas nos distanciam cada vez mais da inteligência e da complexidade social.

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