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A sociedade da sedução soberana

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Em entrevista, o filósofo Gilles Lipovetsky fala sobre a sociedade contemporânea. Sociedade que se caracteriza não apenas pelo hiperconsumo, individualismo, capitalismo hedonista, mas, também, pela sedução que move o mundo na economia, na política, na educação, nas relações. A sedução é um motor, afirma Lipovetsky. Ela está inscrita na antropologia da modernidade. 

Vivemos a era do caráter hedonista, a felicidade e a diversão são importantes em nossas vidas. A educação, que era autoritária, passou a ser compreensiva e preocupada em acertar. A internet e seu mar de possibilidades permite a sedução constante. O poder da sedução transformou-se ao longo da história, passou a ser liberado, como Lipovetsky contextualiza. Porém, ecologistas alertam para as consequências por trás dos hábitos. Um deles é a crise climática sendo agravada pelos prazeres da sedução.

Filósofo francês, Gilles Lipovetsky é um considerado referência nos temas moda e consumo. Teórico da hipermodernidade e da pós-modernidade, lançou no Brasil em 2016 “Da leveza – Rumo a uma civilização sem peso”, no qual fala sobre o culto contemporâneo à felicidade em contraposição à rotina veloz.

Leia a entrevista completa a seguir:

O que significa dizer que hoje vivemos em uma sociedade da sedução? O que mudou?

Gilles Lipovetsky: O capitalismo de consumo é o motor do crescimento nas sociedades hipermodernas, o nervo da economia. Desde os anos 1950 o capitalismo se entranhou no consumo de massa, e isso transformou os modos de vida. Hoje em dia Don Juan é um sedutor ultrapassado, muito pequeno, não é nada se comparado ao capitalismo que seduz sem parar milhões e milhões de homens, mulheres, crianças, idosos. Packaging, publicidade, séries, filmes, destinos turísticos, música... estamos em um universo que não é mais o da disciplina coercitiva, mas o de uma máquina de estímulos, um sistema de tentações que diz sem parar “veja, isso é magnífico, bom, você gostará”. 

Hoje Don Juan é o sistema capitalista. Ao mesmo tempo mudou a nossa relação com a vida. Difundiu-se uma ética de caráter hedonista, é preciso aproveitar a vida, curtir, viajar, se divertir. Desde os anos 1950 falamos na fun morality, o prazer e sua busca se tornaram legítimos, e a consequência disso é que pouco a pouco essa lógica de sedução e prazer tomou conta até mesmo da educação, que foi reestruturada, assim como a economia. 

Da educação autoritária que conheci passamos a uma educação aberta, compreensiva, psicológica, relacional. Escuta-se as crianças, é importante que elas estejam gostando. Elas impõem suas leis às famílias, escutam “eu te amo” o tempo todo. Quando eu era criança minha mãe não dizia isso, não era uma relação de sedução.



Você vê a sedução como um motor da vida?

Gilles Lipovetsky: Sim. Não é só algo útil para nos valorizarmos ou obtermos o objeto de nosso desejo. Isso não é o essencial. O essencial é que a sedução é uma lei do vivo. A sedução está presente na maioria das espécies que se reproduzem por via sexual, a fêmea não aceita o macho antes de um cortejo. É uma lei da vida que começa no nascimento, com o fenômeno de atração-repulsa, somos atraídos por algo. Seduzidos. Don Juan é condenado por ser imoral, perverso, manipulador, e isso existe, mas não é o essencial. 

A sedução nos faz desejar, e quando somos seduzidos fazemos alguma coisa. Platão condena a sedução como uma prática de engano. Eva seduz Adão. O pecado. Ainda no início do século XX surge a femme fatale, que provoca o homem e o leva à morte. É uma visão machista, falocrática, que condena a mulher. O capitalismo subverteu tudo isso. Compreendeu que a sedução é o mais útil para os negócios. E ao capitalismo se soma a lógica do individualismo, que deu um novo lugar à sedução através da mudança fundamental no casamento.

Por que essa mudança é chave?

Gilles Lipovetsky: Todas as sociedades levaram a cabo práticas de sedução: penteados, danças, canto, maquiagem, rituais mágicos, vestimentas, uma lógica de aumento do poder natural de sedução. Mas ao mesmo tempo as sociedades, exceto pela nossa, impuseram limites a esse poder, podaram-no com a instituição do matrimônio. Eram os pais, as famílias e os clãs que organizavam isso, às vezes antes mesmo do nascimento. Existiram duas forças contrárias em todas as sociedades, aumentar o poder de sedução e podar sua lógica. As sociedades modernas individualistas, por outro lado, tiraram esse limite do caminho com a invenção do casamento por amor. A sociedade moderna libertou o poder da sedução, tornou-o soberano, ilimitado, sem instituições para freá-lo. Transformou-se no motor do mundo.

Somos uma profusão de Don Juans?

Gilles Lipovetsky: É uma sociedade donjuanizada. Isso acarreta um problema: a lógica exponencial da sedução conduz à crise climática, à degradação da riqueza do vivo... Os ecologistas dizem, e não concordo com isso, que a lógica da sedução mercantil é uma catástrofe, que é preciso reduzir o consumo, deter essa dinâmica perpétua de tentações e consumir menos. Mais uma vez o diabo está presente na sedução.

E qual sua opinião?

Gilles Lipovetsky: O diagnóstico é justo, mas a resposta a ele não. Entendo a conclamação para que as pessoas consumam menos, e até compactuo com isso, mas não é a solução. O desejo de consumo, de novidade, não é só marketing, é algo inscrito na antropologia da modernidade. A conclamação à frugalidade faz sentido para os burgueses boêmios, mas falar sobre isso com chineses, indianos ou africanos não vai funcionar. Eles querem alcançar o nível de vida ocidental nos próximos 50 anos.

Então, o que fazer?

Gilles Lipovetsky: A mudança não virá de uma cruzada moral. A ação do Estado será necessária para obrigar a máquina econômica a mudar o sistema produtivo, trabalhar para que as empresas tomem consciência de sua responsabilidade planetária, o que por sinal é de seu próprio interesse, porque elas utilizam a imagem de suas marcas para seduzir o consumidor. É necessária uma sedução aumentada, combinada a outros parâmetros. O carro elétrico, os edifícios de zero emissão, muito bem, nada impede que isso tudo seja bonito. 

É preciso combinar a sedução com a ecologia e a responsabilidade, não são coisas contraditórias. Precisamos de uma sedução responsável e ecológica. Esse é o caminho do futuro. A beleza não é um luxo. Ela faz parte de estar vivo.



Ainda assim, o resultado da sociedade atual sobre as pessoas é ambíguo em seu livro. Você fala da fragilidade psíquica dessa total liberdade.

Gilles Lipovetsky: A individualização degradou os enquadramentos coletivos. Antes pertencíamos a um coletivo de trabalho, de bairro e de religião, e isso fornecia amparo aos indivíduos que viviam em condições difíceis, dava-lhes uma espécie de segurança interior. Hoje temos liberdade, podemos mudar de profissão, de mulher, de religião, a vida privada é livre, mas os indivíduos se tornaram extremamente frágeis. Vemos o reflexo disso nas tentativas de suicídio, no estresse, na depressão, nos vícios. Há uma fragilização da vida individual que torna problemático aquilo que vivemos. Os pais não têm certeza de como educar os filhos, informam-se, leem livros, questionam-se se são bons. O mesmo vale para a alimentação, se é bom ou não para a saúde... A sociedade da sedução permitiu mais liberdades, mas essa autonomia individual cobra um preço alto, a fragilidade psíquica. Não devemos condená-la, mas, novamente, enriquecê-la.

Em que sentido?

Gilles Lipovetsky: Nossos ideais incluem viajar, comprar coisas de marca, distrairmo-nos... Não é de se espantar, mas isso não está à altura de uma sociedade humanista que deve também se integrar a outros ideais que não sejam gostar das coisas pela aparência e ser seduzido pelas mercadorias. É preciso oferecer outros modelos na escola, que não se baseiem na pura sedução. Temos a cultura, o pensamento crítico, a arte para que as crianças busquem algo na vida além das técnicas de sedução. Dar novamente sentido ao esforço, ao trabalho e à inovação, à formação da inteligência. Não podemos esperar tudo da sedução. Mostrar que através do trabalho e do esforço as pessoas podem realizar coisas que trazem satisfação. 

Nem tudo pode ser divertido o tempo todo. Isso é um mito. É preciso repensar a educação, o sentido da cultura, dos empreendimentos e da vida econômica. Empregar a sedução para evoluir nossa relação com ela. Hoje ela não funciona de forma satisfatória. Devemos propor às gerações futuras objetivos dignos ecológicos, sociais, culturais, artísticos e morais.

A Covid-19 nos mudará?

Gilles Lipovetsky: Não. Acelerará o que já estava ocorrendo. Tele trabalho, compras on-line, educação remota, telemedicina. Quanto ao apetite por distração, consumo, diversão, não. Nesse verão, assim que as medidas de confinamento foram relaxadas na Europa, tudo voltou a ser como antes. Comprarão mais com os smartphones e haverá mais tele trabalho, mas isso não acabará com a sociedade de hiperconsumo.

(Via La Vanguardia)