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Ivan Izquierdo: "A cultura tecnofóbica é uma ignorância"

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Ivan Izquierdo (foto: Clleber Passus/Fronteiras do Pensamento)
Ivan Izquierdo (foto: Clleber Passus/Fronteiras do Pensamento)

De que forma as revoluções tecnológicas afetaram nossa memória? De que modo os periféricos digitais colaboram para expandir as fronteiras entre lembrança e esquecimento? Em entrevista, Ivan Izquierdo, neurocientista e pesquisador da memória, reflete sobre estas questões e defende: “A cultura tecnofóbica é uma ignorância. Quem tem este pensamento está perdendo o mundo. Este é um mundo cada vez mais técnico, é preciso conhecer a tecnologia para entendê-lo." Leia abaixo:

De que maneira a revolução tecnológica que estamos vivendo, da nanobiotecnologia, impacta em nosso modo de compreender o conceito de memória tradicionalmente concebido pela medicina, por exemplo?
Ivan Izquierdo:
O conceito de memória talvez não tenha mudado, mas graças à revolução tecnológica conseguimos compreender muito mais os mecanismos da memória. Avançamos mais neste sentido do que nos últimos 200 anos, sem dúvida. Mais do que um avanço dos aparelhos eletrônicos, a grande evolução veio dos processos químicos do funcionamento cerebral. Esta era uma área praticamente desconhecida duas décadas atrás e hoje se tornou fartamente conhecida. Conhecemos os mecanismos bioquímicos que fazem a memória, os lugares onde elas são feitas.

Quantitativamente, é impossível dizer, pois estas coisas não têm medida, mas é como ouvir uma música de longe pela primeira vez e conhecer a partitura completa para dirigir a orquestra. Meus alunos de graduação, quando leem o que profissionais destacados escreviam sobre o cérebro 15 ou 20 anos atrás, riem. Quando veem o que se escrevia há 50 anos, às vezes se interessam pelo valor histórico, mas é como ler um conto cômico. As coisas que fazemos hoje em qualquer laboratório onde se trabalha a memória são completamente incompreensíveis para um sujeito de 100 anos atrás.

Qual a importância da memória para a nossa sobrevivência?
Ivan Izquierdo:
Se não nos lembrássemos de que certas coisas são perigosas, morreríamos no instante seguinte. Por exemplo, quando tenho que atravessar a rua, preciso lembrar que o carro pode me atropelar, que ele vem em uma direção, se a velocidade que ele está vindo é compatível com a que eu preciso empreender para atravessar na frente dele, enfim. Tudo isso devo me lembrar à perfeição, porque envolve risco de vida. Precisamos aprender (e lembrar) como se usa uma escada; se há elevador, como se usa... Até mesmo para andar é preciso lembrar que se deve colocar uma perna na frente e depois a outra. Sem memória não há vida. É possível, inclusive, dizer que a vida é uma sequência de memórias. O coração precisa lembrar que fez uma sístole para bioquimicamente ter condição de fazer uma diástole. Todos os processos metabólicos de qualquer organismo são sequências de processos bioquímicos bem estabelecidos onde cada um depende do anterior. Cada um deve se lembrar do anterior.

Como o esquecimento, também, torna-se essencial para que possamos viver?
Ivan Izquierdo:
Em primeiro lugar, porque não cabe tudo. Nós temos capacidade de armazenar uma quantidade de informação finita. É uma capacidade muito extensa, mas não é possível guardar tudo. E nem ao mesmo tempo. A vida diária exige mais o uso desse tipo de seleção de memória, que chamamos multitarefa. Mas mesmo o multitarefa tem um limite também. Existe um determinado número de tarefas que podemos fazer ao mesmo tempo, com alguma prática, mas não são muitas.

Qual o impacto das novas tecnologias em nossos processos de construção de memória? Os dispositivos móveis eletrônicos de armazenamento de memórias contribuem ou prejudicam nossa capacidade memorial? Por quê?
Ivan Izquierdo:
A nossa capacidade de memória agora é muitíssimo maior, pois temos periféricos onde guardá-las e utilizá-las. Podemos crescer, decrescer, apagar, modificar, acessar o sistema de processamento de texto. Agora uma máquina faz isso pelo cérebro. Se eu quero saber agora, nos próximos 10 minutos, quais os principais passos metabólicos para uma sístole cardíaca, vou na internet e vou saber isso em muito menos de10 minutos. Assim, aumentou o acesso do cérebro aos dados e a capacidade e velocidade de processá-los.

Fotografias, agendas de telefone, diários e mais recentemente toda a sorte de aparelhos eletrônicos podem ser considerados como banco de dados de memórias ou como dispositivos de acionamento de nossa memória cerebral? Por quê?
Ivan Izquierdo:
São bancos de dados, sim, mas também dispositivos para mudar nossa memória, fazê-la crescer, diminuir... O computador não pode me mudar, mas o uso que eu faço dele, sim. O que meu cérebro faz com os dados fornecidos pelo computador pode modificar sinapses — e a memória se guarda justamente modificando sinapses.

Como a ideia muito corrente há 20 anos de que o cérebro se pareceria a um computador, com circuitos fixos, foi superada em nome de uma perspectiva mais aberta atribuindo novas e mais elásticas funções aos neurônios? Esta visão mais contemporânea do funcionamento cerebral está mais alinhada ao ponto de vista do software livre, sempre aberto e possível de ser expandido?
Ivan Izquierdo:
Foi superada por uma perspectiva muito mais aberta. O cérebro se assemelha em alguns aspectos ao computador, mas em outros lembra mais uma vasilha cheia. O cérebro está constantemente mudando. Apesar da idade, todos nós somos hoje mais do que ontem. Aprendemos coisas, deletamos algumas, perdemos várias. As memórias na verdade são apenas frações mínimas do que interagimos a cada dia. Por exemplo, ao pensar na tarde de ontem, não conseguimos lembrar mais do que 10 minutos sobre todo aquele período. A menos que tenha acontecido algo fantástico, ou que tenhamos visto um filme fantástico, a maior parte do que vemos é esquecida segundos depois. O melhor médico do mundo pode contar tudo que sabe sobre medicina em menos de uma manhã. Eu posso relatar minha infância em todos os altos e baixos, com os conteúdos imensos que aprendi durante esse período, em poucas horas.

A maior parte da informação que processamos é perdida em seguida e desaparece por completo. Então, quando Freud dizia que era possível lembrar todas as memórias da infância, isso não era verdade. Naquela época não sabíamos nada de neuroanatomia, não sabíamos nada de neuroquímica e muito menos computação. Era fácil dizer isso quando se sabia tão pouco. Eu tenho um curso de pós-graduação que tem quatro ou cinco alunos. Não sei o nome de nenhum deles. Eles também não devem estar seguros se “Izquierdo" é com Z ou com S. Nós esquecemos as coisas, mas com o pouco que nos sobra fazemos tudo que há no mundo.

De que maneira as novas concepções que existem sobre o funcionamento cerebral são também resultado de novas formas de compreensão do nosso tempo, menos binárias e mais complexas?
Ivan Izquierdo:
De que forma não sei, mas sem dúvida há uma influência tremenda. Partes de nosso cérebro funcionam de forma binária, porém as estruturas cerebrais, em seu todo, funcionam de forma complexa.

Deseja acrescentar mais alguma coisa?
Ivan Izquierdo:
A cultura tecnofóbica é uma ignorância. Quem tem este pensamento está perdendo o mundo. Este é um mundo cada vez mais técnico, é preciso conhecer a tecnologia para entendê-lo.

(via IHU On-Line)

- Assista abaixo ao especial Memória, em que o Dráuzio Varella entrevista o Dr. Izquierdo
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