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Leonardo Padura: "A alma das coisas é comum a todos nós"

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Agraciado com o Prêmio Princesa das Astúrias das Letras, Leonardo Padura é considerado um dos melhores autores de Cuba. Romancista, ensaísta, roteirista e jornalista, ganhou reconhecimento internacional com a série de romances policiais Estações Havana.

Seus livros retratam a realidade de seu país, mas também reforçam a universalidade da literatura, transcendendo o contexto das personagens e abordando temas como o medo, a corrupção e a ambição - toda a parte obscura da condição humana.

Leonardo Padura abrirá o Fronteiras do Pensamento Salvador deste ano.

Além da conferência com Padura, o projeto ainda promoverá uma conferência com o filósofo Pierre Lévy e um debate especial entre a filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz. As vagas estão abertas e os lugares são limitados.

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Em entrevista à Braskem, patrocinadora dos canais digitais do Fronteiras do Pensamento, Padura fala sobre a importância da memória, a condição humana e a lição que Cuba teria a nos ensinar. Assista e leia abaixo:


O senhor acredita que nossos problemas, enquanto seres humanos, podem nos aproximar?

Leonardo Padura: A condição humana é universal. Há sentimentos que todos nós compartilhamos. A incerteza, o medo, o amor, o ódio, o afeto. São os materiais com os quais a literatura trabalha. 

Acho que, quando se conta uma história que ocorre em um espaço histórico-geográfico determinado, não se pode pensar que somente os conflitos que ocorrem nesse espaço são próprios dele, mas sim que podem ser muito mais universais.

O grande pensador Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia que a literatura deveria buscar o que é universal nas entranhas do local. A partir da história que conhecemos, com a qual convivemos, acredito que podemos nos comunicar com as pessoas que podem nos ler ou que habitam o mundo.

Flaubert, quando lhe fizeram muitas críticas, em função da publicação de Madame Bovary, disse: "bem, eu apenas quis, com este romance, com esta história… O que eu queria era chegar à alma das coisas."

Creio que a alma das coisas é comum a todos nós.

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O assassinato de Trotsky. A chegada dos judeus a Cuba. Seus livros partem de um ponto histórico. Qual a função da memória em sua literatura?

Leonardo Padura: A memória é esse elemento indispensável sem o qual não podemos entender quem somos. Somos o resultado de uma evolução que, embora não tenhamos consciência disso, está por trás de nós. Somos o resultado de algo e sempre foi assim ao longo da história.

Ainda hoje, quando se fala dos elementos psicológicos da Tragédia Grega, 25 séculos atrás, estamos falando de comportamentos que são comuns a todos nós. Essa memória é trazida pela literatura, pela história, pela filosofia… Então, vamos buscando entender quem somos.

O problema é que muitas vezes esse entendimento não serve para que sejamos melhores - que é o que deveria ocorrer.

Em suas histórias, Cuba está em constante evolução. Mas, existe alguma lição que o mundo pode tirar da experiência vivida na ilha e da história do povo cubano?

Leonardo Padura: Não sei. Acho que isso deve ser resultado de um olhar histórico, com uma perspectiva histórica. A realidade cubana é uma realidade paradigmática, mas contraditória, como todas as realidades. Não há nenhuma que não seja assim. Todas têm luzes e sombras - algumas mais luzes, outras mais sombras - isso depende de muitas coisas.

Porém, o julgamento final está no tempo. Fazê-lo agora estaria cheio de determinados preconceitos que atrapalhariam uma opinião mais certeira sobre o que foi Cuba.

Assista também | Em passagem pelo Fronteiras do Pensamento 2017, Leonardo Padura fala sobre a insularidade de seu país: a dureza do isolamento e o forte sentimento de pertença.