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“O capitalismo não funciona sem cooperação e mutualização”

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Ansiedade é, talvez, a palavra que melhor define este século no Ocidente. Ansiedade diante da insegurança profissional enfrentada por grupos mais jovens; ansiedade provocada pela desigualdade, por ver na tela do celular a exibição de vidas que muitos nem remotamente podem aspirar a viver; e ansiedade, agora também, diante de uma pandemia que ameaça abalar as estruturas sociais que ainda subsistem e que força os Estados a queimar cartuchos para evitar outra Grande Depressão. 

Há um consenso mais ou menos claro sobre as causas dessa nova (ou talvez nem tanto) sensação de pessimismo e incerteza radical: uma mistura de mudança tecnológica acelerada com globalização da produção, que deixou muitos grupos de pessoas com habilidades defasadas ou muito mal remuneradas, que deslocou as áreas mais facilmente replicáveis da indústria para países emergentes em busca de mão de obra barata e que, em última instância, convocou os falastrões de soluções fáceis e radicais para problemas complexos.

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Com esse diagnóstico em mãos, Paul Collier (Sheffield, Reino Unido, 71 anos), professor de Economia e Políticas Públicas da Universidade de Oxford, tenta chegar ao centro da “síndrome do declínio”, cujo início data, na verdade, de quase cinco décadas atrás. “A crise de 2008 e 2009 evidenciou o pessimismo, mas era uma tendência que já vinha crescendo desde meados dos anos oitenta”, diz Collier nesta entrevista por videoconferência. Esse pessimismo é em grande parte justificado: hoje, metade da geração nascida nos anos oitenta vive “absurdamente pior” do que seus pais na mesma idade, como mostrou em seu último livro, O futuro do capitalismo.

O capitalismo – “o único sistema que funciona, mas que periodicamente sai dos trilhos” – tem como “principal credencial melhorar, sem interrupções, o padrão de vida dos cidadãos, e agora não o está conseguindo fazer com muita gente”. E tem diante de si, observa Collier, uma perigosa dupla divisão que ameaça desestruturá-lo. A social, “de habilidades e moral”, que separa as famílias “super bem-sucedidas” daquelas que “se desintegram na pobreza”, e para a qual exige um retorno ao comunitarismo promovido na era de ouro da social-democracia e uma luta implacável contra o hiperindividualismo. E a geográfica, que divide quase todos os países ocidentais em dois blocos claramente diferenciados: metrópoles florescentes, social e economicamente desligadas do resto do país – “não são mais representativas da nação a que pertencem” – e cidades menores, outrora fortes e industriais, como a sua cidade natal, Sheffield, Detroit (EUA) ou Lille (França), atingidas pela perda de população e pela transferência da metalurgia e da manufatura para países com custos trabalhistas mais baixos.

Para essa segunda fissura, a geográfica, que se retroalimenta com a social e a educacional, só há uma argamassa possível: um imposto específico sobre as megalópoles – “que se beneficiam de investimentos nacionais e uma dose de boa sorte" – e destinar os recursos para relançar cidades debilitadas com planos de política industrial de planejamento descentralizado que restaurem sua condição de “aglomerados de trabalho produtivo e não com prestações sociais para seus habitantes”. “As grandes cidades devem compartilhar o que obtêm, em grande parte, graças aos bens públicos que oferece toda a nação, como o Estado de Direito. Não faz sentido que a valorização dos terrenos urbanos metropolitanos esteja sujeita a impostos tão baixos”.

Produtividade

Aqui, também, os anos oitenta são o ponto de ruptura. Desde então, com o auge da economia do conhecimento, o diferencial de produtividade entre as principais cidades e o restante do território aumentou 60%. “Até então, as diferenças de renda entre as regiões vinham diminuindo, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Mas as mesmas forças que impulsionaram as metrópoles enfraqueceram essas cidades. Onde está a noção de obrigação recíproca?”, pergunta-se.

Collier defende um “pragmatismo” que prevaleça na tomada de decisões sobre os dogmas dos Donald Trump e Marine Le Pen de plantão – mas também, diz ele, sobre os cantos de sereia “populistas” de Jeremy Corbyn ou Jean-Luc Mélenchon. E apela, acima de tudo, para a renovação de um conceito, comunidade, que acabou totalmente dominado pela individualidade. Diante dos nacionalismos excludentes, diz ele, o remédio deve ser um “patriotismo benigno” e um sentimento de “pertencimento compartilhado” que sirva como uma cola em sociedades cada vez mais desunidas.

“A social-democracia só se recuperará quando voltar às suas raízes comunitárias e à tarefa de reconstruir uma rede de obrigações mútuas baseadas na confiança que atenda aos anseios das famílias trabalhadoras”, diz. “Ao renunciar aos relatos de pertencimento baseados no espaço compartilhado e em alguns propósitos básicos, deu-se espaço aos relatos de pertencimento que dividem e excluem outros. O que temos vimos nestes anos é que o capitalismo sem um alto grau de cooperação e mutualização não funciona. É um erro que começou com [Milton] Friedman e uma má interpretação do que Adam Smith disse, e que continua até hoje”.

O capitalismo “saudável, social e com propósito” que Collier defende é aquele em que há competição e em que seus membros reconhecem responsabilidades para com os outros e um dever de proteção ao próximo. Isso foi alcançado entre o final da Segunda Guerra Mundial e o final dos anos setenta, mas o surgimento de um individualismo hipertrofiado e a separação de direitos e obrigações “foram desastrosos”. “Estamos num momento em que parece que só o Estado tem obrigações, os cidadãos não, e o Estado é um ator muito fraco, sem uma ideia de comunidade forte”, critica. “Vemos essa questão agora com o coronavírus: uma sociedade forte é aquela que se baseia em obrigações mútuas, recíprocas. Tem que ser inclusiva, mas também estabelecer obrigações recíprocas entre seus membros”.

Por trás das novas ansiedades, Collier também vê uma degradação no comportamento de muitas grandes empresas, presas por uma combinação de exagero de lucros de curto prazo “que nem sequer beneficia os próprios acionistas”. “Precisamos redefinir os propósitos das empresas e uma nova cultura corporativa: se gabam de seu propósito social, mas continuam retribuindo seus executivos apenas com a visão de aumentar seus lucros de curto prazo”. Essa assimetria, diz, reduziu a confiança. “As empresas estão ansiosas para construir uma sólida reputação social com os clientes, mas aquelas que sobrevivem a longo prazo são as que também constroem relacionamentos de confiança com seus funcionários e sua comunidade”.

Provas dessa deterioração nos “padrões de conduta” corporativos nas últimas décadas são, indica, os salários estratosféricos de presidentes e CEOs: “Estabeleceram seu salário comparando-se uns com os outros. O que você faz com cinco milhões de libras por ano? Cobrando essas quantias, dificilmente você pode ganhar respeito e pedir sacrifícios aos funcionários”, afirma. “Precisamos de líderes que conquistem respeito por meio de sacrifícios”.

>> Paul Collier participa do ciclo de conferências desta temporada no dia 28 de outubro. 

(Via El País)