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Pavan Sukhdev traz ao Fronteiras do Pensamento a urgência da questão ambiental

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Com o tema Era da Reconexão, a edição 2021 do Fronteiras do Pensamento busca iluminar questões candentes para um mundo que se reconfigura sob o impacto da pandemia do coronavírus. Ciência, política e economia são campos referenciais nas discussões e se inter-relacionam com as urgências impostas pela acelerada degradação do meio ambiente. Preocupações e ações relacionadas à crise climática e ao desenvolvimento sustentável estão na pauta dos conferencistas do evento e das personalidades de diferentes áreas entrevistadas pelo site fronteiras.com.

É consenso. Não há mais como falar sobre um futuro próximo sem agir diante de um drama que se mostra tão grave no presente e provoca danos globalizados em múltiplos setores da sociedade. Na conversa de estreia do Fronteiras do Pensamento 2021, por exemplo, o biogeógrafo americano Jared Diamond disse que a covid-19 não é hoje o maior problema da humanidade, como são as mudanças climáticas e o esgotamento dos recursos naturais. Por sua vez, o psicólogo canadense Steven Pinker alertou sobre a necessidade de maior investimento em energia limpa para mitigar os efeitos desastrosos da poluição.

Publicado em agosto, o mais recente estudo do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU renovou o alerta: os efeitos do aquecimento global tendem a ser irreversíveis e apontam para tempos cada vez mais caóticos. Enchentes, secas, incêndios florestais, calor e frio extremos são fenômenos que deixaram de ser sazonais e localizados para se mostrarem recorrentes em diferentes regiões do planeta.


Na conferência de encerramento da temporada, em dezembro, o Fronteiras do Pensamento receberá o economista indiano Pavan Sukhdev, nome de referência no estudo do desenvolvimento econômico e social atrelado às boas práticas ambientais. Autor de livros como “Corporação 2020 – Como Transformar as Empresas Para o Mundo de Amanhã”, Sukhdev é considerado um influente interlocutor entre o chamado setor verde, o poder público e as corporações privadas. Ele defende que o custo do impacto ambiental gerado deve ser incorporado na cadeia de produção dele derivada, como forma de despertar nos agentes econômicos a consciência sobre os efeitos que determinadas ações podem ter no ecossistema e na sociedade. Em linhas gerais, os poluidores devem ser sobretaxados e punidos por leis mais rigorosas e os adeptos de sistemas produtivos focados na sustentabilidade devem ganhar incentivos.

Para falar de Pavan Sukhdev e de outras questões relacionadas ao tema, conversamos com Priscila Borin Claro, coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade e Negócios do Insper.

O Fronteiras do Pensamento conta na programação de 2021 com a presença de Pavan Sukhdev, especialista em economia verde e finanças internacionais. Você conhece o trabalho dele? O que teria a destacar?

Uma das partes mais relevantes do trabalho do Pavan é a discussão sobre colocar valor nos recursos naturais. Enquanto não corrigirmos esta falha de mercado, não faremos as mudanças necessárias. Também é super-relevante a discussão sobre o importante papel que as empresas têm em internalizar suas externalidades negativas. Vários dos trabalhos dele são referências para muitas das pesquisas que realizamos e cursos que desenvolvemos. Para além da contribuição acadêmica e aplicada, ele é uma liderança que inspira.

Muitos alertas já foram emitidos indicando a gravidade do aquecimento global. O que o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU traz de novo?

Nada de novo, mas fica mais evidente que as mudanças estão se desenvolvendo mais rápido do que o esperado e que praticamente tudo é consequência das atividades humanas.

Quando se fala sobre a questão ambiental, costuma-se fazer uma alegoria colocando a Terra em um carro que acelera rumo ao precipício. Discute-se muito a questão da velocidade e do tempo que falta para a tragédia e pouco a necessidade de mudar de rota em tempo de evitar a queda. Na sua avaliação, esse desvio ainda é possível?

Apesar de ser uma pessoa otimista, eu acho que é muito difícil conseguirmos evitar a queda, talvez o carro pare no meio do precipício. Ao avaliar os comportamentos de governos, empresas e consumidores, acredito que estamos muito aquém do que devemos fazer para evitar a queda. Já fizemos muito, mas ainda não fizemos o bastante. O Brasil, por exemplo, não consegue resolver a questão histórica do desmatamento na Amazônia, que nos colocaria em uma posição de liderança no mundo em relação à sustentabilidade.

Países desenvolvidos estão empenhados em medidas para diminuir o consumo de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, investindo em fontes de energia renováveis. Isto terá o impacto esperado no meio ambiente?

Ainda que de longo prazo, os impactos acontecerão. Se nos países em desenvolvimento faltam recursos para fazer a mudança acontecer, nos países desenvolvidos existem conflitos de interesse. O que me vem sempre à cabeça quando falo disto é a seguinte pergunta: por que estender tanto o prazo para mudança? Se é uma questão de sobrevivência, deveríamos direcionar mais esforços e recursos para antecipá-la. Eu costumo dizer que a agenda do clima deve considerar os seguintes aspectos:

– Soluções econômicas: taxas, precificação de carbono, pagamento por serviços ambientais.

– Opções tecnológicas para reduzir emissões de poluentes (matriz energética e transporte, manejo ecossistêmico, redução de desmatamento).

– Reflorestamento, restauração florestal em bacias hidrográficas, melhoria e diversificação de espaços verdes nas cidades.

– Pesquisa contínua para entendimento do clima, drivers e impactos.

Só rever matriz energética não é o bastante.

Diante do pior quadro previsto, quais devem ser as transformações mais imediatas na configuração do planeta?

Acho que falar de uma nova configuração do planeta somente gera pouco senso de urgência nas pessoas. Precisamos entender que a mudança no clima impacta a disponibilidade de recursos naturais, a biodiversidade, o ciclo hidrológico, entre outros serviços que o ecossistema natural desempenha. Mas, mais que isso, precisamos deixar explícito e escancarado os impactos socioeconômicos relacionados, e não são poucos. Por exemplo, setores do agronegócio tiveram perdas estimadas em 7,4 bilhões de reais em 2020, dado a mudança da geografia da produção, a queda no valor da terra, o desmatamento e o aumento da temperatura. Setores das zonas costeiras vão perder por conta dos alagamentos, perder patrimônios, além dos prejuízos em redes de serviços públicos, estoque de peixes e vulnerabilidade socioeconômica. Estima-se que o valor material de risco seja de mais de 200 bilhões de reais. E tudo isso tem impacto na saúde pública. Só para citar alguns exemplos: dengue, zika, malária, febre amarela e outras doenças causadas por mosquitos têm relação com mudanças climáticas. Mudança no clima afeta também as doenças respiratórias e cardíacas, que geram menor produtividade do trabalhador, demandam mais gastos com saúde e geram menos qualidade de vida para a população como um todo. Enfim, o cenário é terrível. Enquanto não cair a ficha para os governos, empresas e sociedade civil, que existe uma relação intrínseca entre os sistemas ambientais, econômicos e sociais, vamos continuar sofrendo na pele os impactos negativos das nossas equivocadas escolhas. Precisamos usar a lógica e os princípios de sistemas. Se o desenvolvimento econômico exceder a capacidade regenerativa da Terra, então não haverá recursos suficientes para garantir a prosperidade social.

Estamos observando no mundo ondas de calor e frio, secas, incêndios e enchentes em lugares onde esses fenômenos costumam ser mais raros. O quanto eles podem ser associados ao desajuste climático, sobretudo diante da visão negacionista que aponta esses incidentes como efeitos de ciclos naturais?

Vários estudos de pesquisadores sérios em institutos e universidades renomadas conseguem demonstrar as relações entre mudanças no clima e desastres ambientais, que geram também inúmeros impactos sociais e econômicos. Mas tem sempre os negacionistas que distorcem dados, usando métodos que não se aplicam para mostrar que as relações não existem. Isto é péssimo, não dá mais para falar sobre o mundo que queremos, mas sim do mundo que precisamos. E precisamos tratar o problema pela raíz, atuando nas principais causas das emissões.

Na sua avaliação, a questão climática vai cada vez mais impactar nas decisões políticas e econômicas e se tornar um elemento fundamental nas relações internacionais?

Acho que sim. Na verdade, já é. Só não tem a escala que deveria.

E qual seria o papel ocupado pelo Brasil nesse processo, diante da agenda ambiental em curso?

O papel do Brasil com a agenda política e econômica atual é nulo. Temos todas as características para ser liderança no tema. Mas, infelizmente, a estratégia do atual governo federal vai contra todos os princípios de uma economia verde.