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Peter Singer: “É preciso punir a ‘pequena’ corrupção”

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Peter Singer no Fronteiras São Paulo (foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian)
Peter Singer no Fronteiras São Paulo (foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian)

Peter Singer é dos mais influentes, polêmicos e populares filósofos da atualidade. Os ensaios publicados por ele sobre temas como ética, pobreza, direito dos animais e aborto serviram de combustível a debates acalorados nas últimas décadas. Defensor da eutanásia e da ideia de que a vida de um animal tem o mesmo valor que a vida humana, Singer já foi chamado de “doutor morte" e teve de enfrentar protestos no campus da Universidade de Princeton, quando foi indicado como professor da instituição – onde leciona ainda hoje. Em entrevista à Época Negócios, ele fala sobre a crise moral brasileira e outros temas atuais.

A grande corrupção é resultado da “pequena", aquela praticada no dia a dia – como pegar um recibo do taxista acima do valor da corrida? Ou é justamente o contrário: o mau exemplo de políticos e governantes acaba se disseminando e contaminando o povo?
Peter Singer: As duas são sintomas de um mesmo problema de fundo, que é uma cultura tolerante à corrupção. Uma vez que pareça ser normal o fato de alguém pedir e de o taxista dar um recibo acima do valor, isso contribui para a ideia de que a corrupção é um comportamento aceitável. No final, mesmo roubar dinheiro público não parece uma coisa tão ruim. O que penso, na verdade, é que uma mudança nos fundamentos culturais é necessária. Não é algo fácil de alcançar, mas deve ser a finalidade a ser perseguida. Há muitos países onde a corrupção era mais prevalente anos atrás, mas as práticas mudaram. É possível, mas definitivamente não é fácil.

Como o senhor vê o futuro da ética e da transparência na sociedade? As pessoas tendem a achar que ao longo dos anos as coisas melhoram, mas às vezes a sensação é a de que elas pioram. O senhor é otimista sobre o futuro da justiça na sociedade?
Peter Singer: Sou otimista sobre o progresso da moralidade no longo prazo. Se olharmos para a história em perspectiva, veremos que temos feito progressos e nos movido no sentido correto. No longo prazo, por uma variedade de motivos, continuaremos nesse sentido. Mas, como em quase tudo, pode haver retrocessos de curto prazo, que podem durar anos. Esses retrocessos acontecem de forma mais grave em alguns países. Talvez, no Brasil, as coisas tenham piorado, mas em outros elas estão melhorando. É algo que tem altos e baixos. Mas ainda acredito que na longa estrada nós fizemos progressos em termos morais, e continuaremos a fazê-los.

Quando o senhor escreveu o importante ensaio “Fome, riqueza e moralidade", em 1971, havia uma crise de refugiados na Índia. Hoje, há uma crise semelhante na Síria. Algo mudou, na forma como lidamos com esse problema?
Peter Singer: Muitas coisas mudaram no mundo, mas o número de refugiados aumentou desde aquela época. Infelizmente, estamos em um pico histórico. O mundo realmente precisa olhar com seriedade para essa questão.

No ensaio, ao explicar por que devemos nos importar com desconhecidos, o senhor usou uma imagem que se tornaria famosa: a criança que se afogava em uma poça de água. Como se sentiu quando viu, no noticiário, a foto da criança síria afogada?
Peter Singer: Bem, obviamente era uma situação triste, é uma tragédia quando qualquer criança se afoga. Mas não escrevi o artigo por causa da questão dos refugiados, mas devido ao problema das pessoas em extrema pobreza que morrem por motivos que poderiam ser prevenidos. Que morrem por problemas simples, como diarreia, malária. Desde a época em que escrevi o artigo, tenho a consciência de que crianças morrem todos os dias por esse tipo de causa. De acordo com a UNICEF e outras fundações importantes, 16 mil crianças morrem todos os dias de causas que poderiam ser evitadas, ligadas a pobreza. Ainda assim, é claro, ver aquela criança foi muito trágico.

Por que não fazemos mais a respeito?
Peter Singer: Sobre o tema pobreza, nós estamos fazendo progressos. Mas não o suficiente, nem com a velocidade necessária. Se atualmente 16 mil crianças morrem todos os dias, quando escrevi A vida que podemos salvar, em 2009, esse número era de 27 mil crianças. Caiu quase pela metade, em menos de sete anos. É encorajador, ainda que seja trágico que as mortes sigam sendo desnecessárias. Estamos fazendo progresso. Claramente precisamos fazer mais.

No Brasil, uma polêmica permeou as tragédias de Paris e de Mariana (MG): as pessoas censuravam a comoção alheia nas redes sociais, como se devessem se importar mais com a tragédia local. É legítimo que nos importemos de forma diferente com essas tragédias?
Peter Singer: Esse tipo de acusação é muito comum, sobre o quanto nos importamos e o quanto a mídia cobre as tragédias que acontecem em outros países ou no nosso. De modo que entendo isso. Mas acho lamentável, todos deveriam entender a vida humana de forma igual, não importa em que parte do mundo ou qual a raça ou a religião que tenham. Deveríamos nos importar da mesma forma com as vidas perdidas no acidente da Samarco, em Paris, em Mali ou em qualquer lugar. É uma tragédia, onde quer que ocorra.

A tragédia de Mariana causou um grande dano ambiental. O senhor sempre foi uma voz importante na defesa dos direitos dos animais e em temas afins. Como acha que esse tipo de dano deve ser compensado? Pagamento em dinheiro é suficiente?
Peter Singer: Não. Acho que, se houver espécimes sobreviventes das espécies nativas, as mineradoras envolvidas deveriam desenvolver um habitat apto e protegido para eles, onde, esperamos, eles poderão se reproduzir e popular novamente a região.

De modo geral, as empresas usam – e poluem – bens que são de todos nós, como o ar ou a água, para lucrar. Como essa troca poderia se tornar mais justa?
Peter Singer: Esses ativos pertencem às pessoas do país e devem ser usados em benefício delas. Principalmente para um benefício de longo prazo. Normalmente, a precificação deles é pensada no curto prazo. Acabamos “vendendo" esses ativos muito barato, dado seu valor no longo prazo. É uma decisão difícil. Esse é um fato muito relevante, principalmente para a indústria da mineração e do petróleo. Há um custo global no uso de carvão e do petróleo. Os combustíveis fósseis deveriam ser precificados levando-se em conta esse custo, mas não o são. O preço deles é muito baixo, eu acredito, porque esse custo global não é levado em conta.


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