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Pierre Lévy, o fogo liberador e a raiz do sofrimento

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(imagem: Rabkar Wangchuk,
(imagem: Rabkar Wangchuk, "Spiritual Mind and Modern Technology")

Qual a relação entre tecnologia e o ato de respirar? Toda, segundo Pierre Lévy.

Mundialmente reconhecido por suas teorias sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia, o filósofo francês tem, em meio às obras diretamente ligadas à cibercultura, um livro que pode intrigar seus admiradores.

É O fogo liberador (Le feu libérateur), que apresenta a incursão pelo caminho espiritual de Pierre Lévy e de sua esposa, a pintora e ilustradora Darcia Labrosse.

Já em 2001, em entrevista ao programa Roda Viva, Lévy explicava como filosofia oriental e a tecnologia estão intimamente relacionadas: "Sou um filósofo. E, desde sempre, a filosofia se interessa por problemas sociais e políticos, problemas de conhecimento, de evolução histórica, pelo sentido da história etc. Mas, a filosofia também se interessa pela sabedoria, pela felicidade. E, para mim, digamos, é a continuação do meu trabalho de filósofo.

Então, no fundo, nos trabalhos sobre a revolução epistemológica, social e cultural trazida pelas novas tecnologias, trata-se de analisar um tipo de abertura do espírito, expansão do conhecimento e da consciência em uma esfera exterior, uma esfera concreta, uma esfera social. E, com o livro O fogo liberador, não é mais a exploração da liberdade exterior, mas a exploração da liberdade interior."

Pierre Lévy estará no Fronteiras do Pensamento Salvador deste ano.

Além da conferência o filósofo francês, o projeto ainda promoverá um debate especial entre a filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz. A série inicia já no dia 06 de agosto, com a conferência do escritor cubano Leonardo Padura. As vagas estão abertas e os lugares são limitados.

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No livro O fogo liberador, Lévy e Dabrosse propõem exercícios conhecidos por praticantes de meditação, mostrando como a observação do presente e o simples ato de respirar podem revelar o sentido da existência.

Diz Lévy na obra: “A raiz de todos os sofrimentos está na incapacidade de viver no presente, a cada segundo, e de nos maravilharmos com o fato de respirar, sentir, pensar, de nos relacionarmos com outros seres sensíveis."

Sobre O Fogo Liberador, o filósofo comenta no Roda Viva:

Recomendo que se preste atenção à respiração, porque esquecemos essa coisa extraordinária. Isto é, o fato de que estamos vivos. No fundo, tudo que podemos censurar à existência e que nos deixa infelizes é, no fim das contas, tão pouco perto desse fato sólido, bruto, que, muitas vezes, esquecemos.

E repito mais uma vez: nós estamos vivos. Que sorte a nossa. Nós vemos, ouvimos, pensamos, estamos nos relacionando com outros seres humanos. Claro, podemos gostar de alguns e não de outros. Podemos fazer diferença e tudo mais, mas a coisa mais importante vem antes das diferenças: é o fato de existirmos. É toda essa riqueza que nos é dada a cada segundo.

A vida social está dentro de nossa existência. As relações que temos com os outros não estão fora da nossa vida, mas dentro dela. Quando leio um livro, é na minha vida que o leio. Não o leio fora dela, nem tem sentido. Quando opero um computador e navego pela internet, isso acontece dentro da minha experiência e do ponto de vista de um ser humano vivo.

Portanto, temos de tomar consciência de que nossa consciência, nossa experiência consciente, reúne todos os aspectos da existência. E não existe oposição entre interioridade e exterioridade. A interioridade engloba tudo, não é? E é verdade que tudo está dentro da pessoa. O que há fora?

Não há nada fora. Nada. A cor das coisas, por exemplo, é fabricada pelo nosso sistema nervoso. É um produto da nossa mente. No mundo exterior há variações do campo eletromagnético. E ainda isso é produto de nossa ciência, a ciência fabricada pelos seres humanos.

Fora do nosso conhecimento, o que há? Só podemos conhecer o que conhecemos, não é? Ora, o que conhecemos é o que somos. Esta é a mensagem do livro. Quem é 'nós'? Qual a nossa identidade? É o que há no interior da epiderme?

'Nós' é tudo o que há em nossa experiência. Você faz parte da minha experiência. O céu faz parte dela. O céu não existe fora da minha experiência. As estrelas não existem para um verme dentro da terra. As estrelas só existem para o ser humano.

O mundo do significado e da linguagem, o que dá sentido ao universo só existe na cultura e na consciência humana. Há uma espécie de coincidência entre o microcosmo e o macrocosmo. Isso não é nada original, é o que a sabedoria oriental diz há muito tempo. E não só a sabedoria oriental. Se você estudar Platão ou os estoicos, eles dizem exatamente a mesma coisa. É a sabedoria em geral. Não é sabedoria oriental.

Há uma única sabedoria. Ou, então, poderíamos dizer: 'O que é o Oriente?' É o conhecimento voltado para o interior. E o Ocidente é o conhecimento, a liberdade, voltados para o exterior. A contribuição para a história da humanidade é a ciência, a técnica, a democracia, o livre mercado etc. E a contribuição oriental é a sabedoria, a meditação, é a descoberta da profundeza infinita da consciência.

Mas, na realidade, não há uma divisão entre Oriente e Ocidente. Há uma única humanidade, digamos. E acho que, hoje, estamos compreendendo que os orientais são como nós e que eles têm muita coisa para nos dar. E eles estão compreendendo que queriam ter a democracia, querem a técnica, o livre mercado e tudo isso.

No fundo, Oriente e Ocidente estão se mesclando. O interior e o exterior estão se mesclando. A humanidade está se unificando. E só vejo um único processo de unificação: o processo de unificação da espécie humana, que se faz através da globalização, da internet, como também o processo de unificação de nossa própria humanidade interior.

Ficou interessado na obra? Segundo nossa pesquisa, o livro está esgotado nas livrarias, mas há diversas cópias disponíveis em sebos pelo Brasil. Confira abaixo um breve excerto de O fogo liberador:

Embora o pensamento exista e tenha efeito, ele não representa a realidade. Poderíamos compará-lo à música instrumental. Ela tem um tempo, uma melodia, uma emoção associada, encadeia tensões e desfechos, cria uma atmosfera, mas não tem um referente. A música não é nem verdadeira nem falsa. E no entanto, ela cria um mundo.

É preciso entender que o pensamento é uma espécie particular de música interior que nos faz crer na existência de um referente, de um mundo exterior diferente dela e do qual ela estaria falando. Mas o fato é que só a música da alma e o mundo que dela emana existem, aqui, agora.

O que é uma emoção? Uma mistura de pensamentos discursivos, de imagens mentais e sensações proprioceptivas. E as sensações físicas associadas à emoção ainda são imagens, signos: um certo motivo de impressões corporais, uma textura energética. Observe com atenção todos os detalhes dessas imagens, seus movimentos, suas transformações, seu desaparecimento.

Sensações, emoções e pensamentos vibram cada um com sua própria energia. Para o ser atento, a vida é como uma expedição numa paisagem de energias infinitamente variadas.

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Um pensamento não representa a realidade, é um acontecimento mental. A emoção é a qualidade energética desse acontecimento. Só sofremos porque em vez de ver o pensamento tal como é, acreditamos que é "verdadeiro". Só sofremos porque em vez de sentir o espaço onde surgem e desaparecem os pensamentos, fazemos um encadeamento sem fim de outros tantos pensamentos.

Quando prestamos uma atenção geral no espaço, a queda da consciência em um pensamento é um pequeno desabamento do ser, um buraco negro do espírito. Deixemo-nos levar pelo turbilhão. Se não endurecermos nem nos debatermos, o turbilhão bem rápido nos rejeita e voltaremos para o espaço aberto.

Os pensamentos são como turbilhões móveis, evanescentes, no espaço infinito da consciência luminosa. Em vez de se prender na armadilha desses turbilhões, amplie sua atenção para a vastidão de ouro liquefeito.

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Somos constantemente visitados por pensamentos, emoções, conceitos que não são nossos pensamentos, nossas emoções, nossos conceitos, mas palavras, sentimentos e ideias impessoais. Se esses visitantes não são nossos, tampouco são estrangeiros, intrusos ou inimigos, pelo menos não mais do que o choro de uma criança na rua, a palmeira no jardim, o céu cor de rosa, o murmúrio do mar ao longe. Não somos nada disso, e, no entanto, tudo isso participa de nossa vida. O essencial é compreender que todos esses visitantes estão de passagem.

Pensamentos e emoções nos atravessam como voos de pássaros, de ilusões, um motivo onírico impessoal. Cada pensamento tem seu próprio pensador.

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Mas, então, quem desperta de nossos pensamentos? Nós. Quem, nós? A luz por toda parte derramada.

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A forte torrente não arrebatou a lua. - Koan Zen