Voltar para Entrevistas

Pondé: "Não acho que a pandemia deixará um grande legado"

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé

Ansiedade aflorada: O escritor Luiz Felipe Pondé relaciona a temática da ansiedade na modernidade ao momento de pandemia em entrevista ao CORREIO.  O filósofo e escritor lançou o livro “Você é ansioso?”, que foi finalizado no começo do isolamento e coincidiu com a ocasião em que as pessoas estão mais ansiosas, ou redescobrindo a ansiedade.  

Filósofo, psicanalista e sociólogo, Pondé não cogita mudanças de comportamento embelezadas quando tudo passar. Ele acredita que teremos avanços na medicina, nas tecnologias remotas, mas lembra que outras epidemias já demonstraram que o ser humano volta ao seu estado normal. “Teremos avanços nas tecnologias remotas, na medicina, mas essas mudanças sociais bonitinhas não passa de marketing. A humanidade passou por epidemias muito piores, como a Gripe Espanhola, e não aprendemos nada”, sinaliza o filósofo. 

Leia a entrevista:

É muito importante definir o que é a ansiedade. De que forma isso é abordado no livro?

Você é ansioso?

Luiz Felipe Pondé: Primeiro, a ansiedade é um termo normalmente associado ao mundo da psicologia e psiquiatria, e é um afeto ligado a projeções para o futuro e o sentimento de incapacidade de controlar esse futuro, que pode ser daqui uma hora como também pode ser daqui a dez anos. O livro é sobre a sociologia da ansiedade, onde eu pego alguns marcadores sociais do mundo contemporâneo, desde hábitos de consumos, busca de sucesso material e profissional, dúvida com relação ao modelo familiar, solidão, mercado de trabalho, política  e uma série de fatos sociais que disparam os sentimentos de tentativa de controle contínuo. Essa é a ansiedade tratada no livro 

A ansiedade se relaciona com a sensação de incerteza, certo? De que forma isso se associa a pandemia que vivemos? 
Luiz Felipe Pondé: Para chegar nessa situação, uma das características da ansiedade contemporânea é ser dialeticamente decorrente sucesso do controle da vida moderna. Sucesso na técnica, nas tecnologias de programação da vida, de organização da vida, sucesso na medicina e na ciência... Então tudo isso dispara uma expectativa de cada vez mais sucesso, portanto cada vez mais controle. 

A pandemia é uma situação inusitada, apesar da humanidade ter enfrentado [pandemias] muito piores do que essa, como a Gripe Espanhola. E vínhamos a algum tempo sem nenhuma experiência constrangedora de incerteza como essa. E nós, viciados em sucesso e em controle, somos lançados nessa experiência biológica, sociológica, política e econômica de incerteza. Então você conecta ansiedade com experiência de pandemia. 

“Há 102 anos não se tinha uma experiência dessa magnitude”

O sucesso é sinônimo de controle da situação?
Luiz Felipe Pondé: O sucesso moderno é muito fruto do controle. Medicina preventiva, vacinas, organização logística da vida, capitalismo globalizado e até aviões que quase caem O sucesso ao qual me refiro sociologicamente é este. Claro que cada um experimenta da sua maneira, mas a condição material de vida avançou muito nos últimos cem, duzentos anos, e o que eu digo no livro é que essa é uma das causas da ansiedade. 

De onde parte o seu interesse para esse estudo sociológico da ansiedade? Já era um desejo escrever sobre isso?
Luiz Felipe Pondé: Isso vem das minhas leituras quando estudava psicanálise na Escola de Medicina da Ufba.  Quando me mudei para São Paulo, continuei nos estudos. Posso dizer que o primeiro interesse tem a ver com o estudo da angústia, de Freud. Já o interesse prático vem de 25 anos de docência na graduação, pela percepção da ansiedade dos alunos Tanto que o maior capítulo do livro é sobre jovens. 

Então podemos relacionar a ansiedade a faixa etária? Existe um público alvo para esse problema? 
Pondé: 
Eu acho que os jovens - a grosso modo falando das pessoas nascidas em meados dos anos 80 para cá - são objetos de grande ansiedade porque eles percebem que eles estão em minoria, estão nascendo cada vez menos. Os adultos não têm mais tantos filhos, o relacionamento dos pais é difícil, as famílias se desmancham ou até situações de filhos que nascem só com a mãe, o que sempre é um problema. Mas não é só geracional, a insegurança no mercado de trabalho é grande, a confiança no mundo é menor. E os jovens de classe média são excessivamente protegidos em casa, e quando vão para o  trabalho e universidade e começam a sofrer. 

Outro grupo que também é muito acometido de ansiedade são os longevos, como tem o capítulo no livro ‘Ansiedade na Longevidade’. Aí é ansiedade relacionada a solidão, perda da importância e da produtividade, dificuldade de se relacionar com os mais jovens e, claro, a morte iminente. O fato da medicina adiar a morte explora ainda mais a ansiedade, com a obrigação de fazer exames periódicos, que são uma fonte em si de ansiedade.  

“Agora tem outras ansiedades que vivemos, como a estrutura política do Brasil, mercado de trabalho ou os papéis sociais de gênero. Também são marcadores sociais de ansiedade”

Podemos considerar esse um problema moderno?
Pondé: 
O primeiro capítulo do livro é uma análise da ideia de era, associada a um afeto -  como a ansiedade - a partir da historiografia. Concordo com os historiadores que é complicado você aplicar um afeto a uma era histórica, porque não dá para dizer que o homem do alto paleolítico tinha menos ansiedade de controle do que nós. Não posso não dizer que alguém que vivia a Segunda Guerra Mundial tinha menos ansiedade do que nós. É por isso que primeiro capítulo eu explico que a ansiedade que me refiro é especificamente associada ao sucesso moderno no controle da vida e as experiências de descontrole dela. Por isso o momento que estamos vivendo é paradigmático em relação a ansiedade.


É possível conviver em harmonia com a ansiedade?
Luiz Felipe Pondé: Em harmonia plena não. Mas uma forma de  sobreviver como uma certa elegância, como falo no final do livro (risos), é tomar os ansiolíticos. Tem um capítulo no livro onde eu vinculo a ansiedade ao desejo. Uma vida razoável com a ansiedade significa não desejar tanto, seja o sucesso, bens materiais… o que é quase impossível na sociedade que a gente vive. Na verdade você mitiga a sua ansiedade. 



Sobre a relação com as redes sociais, qual o impacto delas nessa situação?
Luiz Felipe Pondé: 
Elas são uma ferramenta fundamental para o crescimentos de sensações ansiogênicas. Uma das formas de ficar ansioso é se preocupar com o seu engajamento na rede social, com o que você gera. Se você é uma pessoa que está sempre voltada para o engajamento que gera, a tendência é que você exploda de ansiedade. A ideia de cliques, curtidas e seguidores, é uma ansiedade quase que ‘produzida cientificamente’. Eu falo no livro que, a depender da distância mantida dessa relação de engajamento, gera mais ou menos ansiedade. 

"Na análise sociológica que faço com o mundo moderno trato como uma epidemia. Quanto mais desejo, mais ansiedade, porque há uma necessidade de controle para o seu desejo. Quanto mais informação você tem, mais você tem que dar conta dela para conseguir realizar o desejo”

Mas e quando os seus desejos são sentimentais ou emocionais? É uma fonte que alimenta a ansiedade? 
Luiz Felipe Pondé: Sem dúvida. Ainda mais quandos os vínculos estão cada vez mais líquidos. Uma das maiores causas da ansiedade é a expectativa de ser respeitado, de ter uma vida digna. Não tem jeito, esses pensamentos levam à ansiedade. 

Relacionando com a ansiedade, o que a pandemia vai deixar de legado? 
Luiz Felipe Pondé: Nesse primeiro momento o grande legado será: paranoia e insegurança, portanto a ansiedade. O retorno será bastante ansioso. Se fizermos uma conta super larga, até o final deste ano vai ser um período de aumento de ansiedade, principalmente em relação a economia e à crise política. Depois não, acho que depois a pandemia não vai deixar um grande legado. Primeiro pela tendência de esquecermos as coisas mais rápido, porque a vida pede que seja assim, e também por conta do avanço médico. Provavelmente essa será a vacina a ser desenvolvida mais rápido na história da medicina, e porque precisamos voltar à vida. Pagar contas, fazer filhos, viajar… 

“Essa é uma experiência revolucionária da espécie, quem ficou pensando em tudo de ruim não sobreviveu”

Entre as figuras que devem dar o exemplo após o fim da pandemia está o poder público. Concorda com isso? Como devem agir? 
Luiz Felipe Pondé: Acho que essa é a grande questão prática da Pandemia no Brasil. Deste ponto de vista, creio que é a mais importante. É saber se essa experiência vai tornar a classe política [brasileira] menos canalha. E ainda não temos resposta. Como por exemplo, questões como a saúde pública, O fato do SUS ser um dos melhores sistema do mundo no papel, e que funciona de forma desigual no país inteiro. 

Do ponto de vista político, vejo que todos eles estão usando a pandemia como insumo para sua carreira. Posso comparar o comportamento de governadores e prefeitos, como os daqui de São Paulo, que é mais responsável que o do presidente Bolsonaro. Por mais que ainda usem para fins eleitorais, eles guardam uma margem de responsabilidade com o que está acontecendo no seu estado ou no país. 

“Espero que a pandemia melhore os políticos”