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"Precisamos de uma declaração geral de dependência universal"

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Como será a retomada da vida pós-covid19? Em entrevista ao El País, o filósofo Peter Sloterdijk fez uma análise sobre a pandemia e o que esperar para o retorno da “normalidade”. Autor de Crítica da razão cínica e da trilogia Esferas, Peter acredita que será difícil retomar os padrões de consumo, pois o contexto em que estamos vivendo quebrou a atmosfera das frivolidades que levam ao consumo.

Peter enfatiza a interdependência que está sendo revelada, aborda o conceito de “coimunidade” e sinaliza: “devido à globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra agora é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será o grande tema filosófico e político após a pandemia”. 

Leia a entrevista a seguir:   

A dimensão da pandemia paralisou e atordoou as sociedades. O que acontecerá quando despertarmos e o medo amainar?

Peter Sloterdijk: O mundo, em sua concepção como uma gigantesca esfera, se baseia na produção coletiva de uma atmosfera frívola. Sem frivolidade, não há público ou população que mostre uma inclinação para o consumo. Esse vínculo entre a atmosfera frívola e o consumismo foi quebrado. Todo mundo agora espera que esse vínculo vá se reconectar, mas será difícil. Após uma perturbação tão grande, o retorno aos padrões anteriores de frivolidade não será fácil.

Naquela esfera frívola, pensávamos que seríamos capazes de controlar a natureza com tecnologia sofisticada, mas o vírus nos pôs de joelhos. Nossa maneira de estar no mundo mudará?

Peter Sloterdijk: O problema é a atmosfera frívola e que não aprendamos nada de novo com essa pandemia. Se olharmos para a história das sociedades modernas, elas sempre foram impregnadas por surtos relativamente regulares, mas, no passado, as pessoas tendiam a voltar aos seus hábitos comuns de existência. O que é novo agora é que vemos que, devido à globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra agora é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será o grande tema filosófico e político após a pandemia.

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Como essa idéia de proteção mútua se relaciona à situação atual?

Peter Sloterdijk: O conceito de coimunidade implica aspectos de solidariedade biológica e coerência social e legal. Essa crise revela a necessidade de uma prática mais profunda de mutualismo: precisamos de proteção mútua generalizada, como digo em Você precisa mudar a sua vida (sem edição no Brasil).

A comunidade internacional parece estar indo na direção oposta. Atualmente, vemos mais concorrência do que cooperação.

Peter Sloterdijk: Vejo como, no futuro, a competição pela imunidade deveria ser substituída por uma nova consciência de comunidade, pela necessidade de promover a coimunidade, resultado da observação de que a sobrevivência é indiferente às nacionalidades e às civilizações.

Os países estão agora fechando as fronteiras e se voltando para si mesmos.

Peter Sloterdijk: Sim, mas as fronteiras são para os vizinhos dos dois lados. Não devemos interpretar mal. O bem-estar sanitário nacional também ajuda os vizinhos. Se controlarmos nossos problemas de saúde, também ajudaremos os nossos vizinhos, e não devemos interpretar esse autocuidado como uma regressão nacionalista. Por outro lado, se todos forem cuidadosos em seu território, eles farão uma enorme contribuição para os outros.

O Estado-nação ressurge com força no meio da emergência, mas, ao mesmo tempo, os países nunca dependeram tanto uns dos outros.

Peter Sloterdijk: Nos últimos dois séculos, a maior preocupação das entidades políticas, dos Estados-nações, girou em torno da independência. Para o futuro, precisamos de uma declaração geral de dependência universal; a ideia básica de comunidade. A necessidade de um escudo universal para proteger todos os membros da comunidade humana não é mais utópica. A enorme interação médica em todo o mundo está provando que isso já funciona.

Nossas democracias estão em perigo, ou as liberdades retornarão após o estado de emergência?

Peter Sloterdijk: Em todo o mundo, agora está sendo lembrado que a necessidade de um Estado forte é algo que acompanhará nossa existência por um longo período, porque parece que eles são os únicos disponíveis para resolver problemas. Isso é complicado, porque poderia corromper nossas demandas democráticas. No futuro, uma tarefa para o público em geral e para a classe política será vigiar por um retorno claro às nossas liberdades democráticas.

As forças populistas parecem por ora deslocadas, mas cresce o medo de que se alimentem da frustração. Que impacto você acha que a pandemia terá no populismo?

Peter Sloterdijk: Todo mundo precisa entender que esses movimentos não são operativos, que têm atitudes pouco práticas, que expressam insatisfação, mas que de maneira alguma são capazes de resolver problemas. Eu acho que eles serão os perdedores da crise. O público terá entendido que você não pode esperar nenhuma ajuda de parte deles.