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"Reagimos tarde e mal"

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Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa

Política, ideologia, solidariedade, natureza, liberdade de expressão: a disseminação do coronavírus vai além do risco de contaminação. Estamos acompanhando o surgimento de outros problemas desencadeados pelo vírus, como as notícias falsas e a recessão econômica. Diante deste cenário, o escritor Mario Vargas Llosa pontua: “não sei se vamos ser muito diferentes do que antes, acho que podemos ser mais prudentes, mais cautelosos e mais responsáveis”.

Prêmio Nobel de Literatura, Vargas Llosa conversou sobre a situação mundial em entrevista ao XL Semanal. O escritor está confinado em sua casa, em Madri, e completou seus 84 anos em isolamento, no dia 28 de março. Confira a entrevista a seguir.


Em primeiro lugar, como o senhor está?

Mario Vargas Llosa: Apesar de tudo, estamos levando o confinamento com bom ânimo e bom humor. A verdade é que, felizmente, ninguém aqui foi abatido.

"Agimos com arrogância. Acreditávamos que tínhamos dominado a natureza. E não era verdade. Mas voltaremos ao cinema, ao teatro… E espero estar vivo para aproveitá-lo ”

O senhor imaginava que poderia viver uma situação dessas?

Mario Vargas Llosa: Não. Ninguém poderia imaginar em nenhum país que a natureza nos daria uma surpresa tão negativa. Esta pandemia não poderia ter sido prevista por ninguém. Havia uma espécie de consenso, pensávamos que tínhamos dominado a natureza e fomos muito ingênuos porque descobrimos que somos muito mais vulneráveis do que pensávamos.

A resposta tem sido muito diferente em cada país.

Mario Vargas Llosa: Mas não há país que estivesse preparado para um desafio desses: nem os Estados Unidos, nem a Alemanha, nem a França... Alguns responderam melhor porque possuíam uma infraestrutura muito avançada, mais desenvolvida e muito eficiente, como é o caso da Coreia do Sul, de Taiwan ou da Alemanha. Na Espanha, sem dúvida, tem sido notável o heroísmo do povo e de toda a parte de saúde. A sociedade respondeu muito bem à adaptação a essa circunstância tão difícil, mas não tivemos uma infraestrutura à altura do desafio e reagimos tarde e mal.

Não é necessário ir tão longe, Portugal está controlando a pandemia com bastante eficiência.

Mario Vargas Llosa: É verdade. O caso de Portugal também é notável, embora, ali, a pandemia tenha atacado menos do que atacou a Espanha e a Itália, não é? O caso mais notável é o da Coreia do Sul, que agiu com grande velocidade para descobrir exatamente qual era a ameaça.

A rápida detecção do vírus na Coreia foi possível graças à massiva realização de testes; algo que, ao que parece, não será possível na Espanha até o final de junho, quatro meses após a propagação do vírus em nosso país.

Mario Vargas Llosa: Isso é muito grave, sim, e estamos sofrendo as consequências por não termos uma preparação que nos permitisse ser mais eficientes. Por isso digo que é preciso pedir explicações e analisar responsabilidades, mas deve-se esperar que a pandemia seja derrotada. Então, quando tudo estiver controlado, o desempenho dos governos terá que ser questionado e comparado. Assim veremos que alguns agiram com mais eficiência e que outros falharam ou cometeram erros que custaram muitas vidas.

As explicações da China sobre o que aconteceu ainda não são claras.

Mario Vargas Llosa: O desempenho da China ainda é extremamente confuso e não se sabe o que realmente aconteceu. O problema é que na China não há liberdade de expressão e sabe-se que alguns médicos chineses, que de maneira muito corajosa denunciaram a presença da pandemia, foram forçados a se retratar. E também se sabe que alguns desses médicos morreram. Tudo isso, sem dúvida, terá que ser esclarecido pelas milhares, milhares e milhares de mortes que essa pandemia causou e que poderiam ter sido evitadas se desde o início o governo chinês tivesse sido muito claro.

O senhor acredita nessas teorias que circulam sobre conspirações para liderar uma nova ordem mundial?

Mario Vargas Llosa: Não, mas acho que, aproveitando essa situação, há grupos que gostariam de ver seus projetos avançarem. Infelizmente, existem setores que desejam impor uma orientação populista que pode reduzir essas liberdades e prejudicar empresas privadas. Acredito que devemos reagir fortemente contra isso e defender a liberdade de expressão acima de tudo.

É dever das sociedades democráticas investigar as notícias falsas e evitar a manipulação pelas redes sociais?

Mario Vargas Llosa: Sem dúvida, mas ambas as coisas são combatidos de forma mais efetiva com liberdade de expressão do que sem ela. Além disso, quem deve julgar a fraude ou a manipulação? O governo não pode ser juiz e uma das partes ao mesmo tempo: vítima de fraudes e responsável por combatê-las? Isso é uma loucura! A melhor maneira de enfrentar essa questão é justamente com liberdade de expressão. A imprensa responsável e séria deveria denunciar as fraudes e as manipulações. Infelizmente, em muitos países especialmente ditatoriais, como Venezuela, Cuba ou Nicarágua, o coronavírus está sendo usado para restringir a liberdade de expressão e os direitos civis, e isso deve ser denunciado.

Nesse sentido, há um debate público sobre a dicotomia entre segurança (diante do vírus) e controle do Estado.

Mario Vargas Llosa: Exatamente, os países que melhor enfrentaram a pandemia não sacrificaram a liberdade de expressão ou os direitos civis para consegui-lo. Limitar a liberdade não significa maior eficiência no combate à pandemia, longe disso. Pelo contrário, a liberdade é um bom instrumento para combater o inesperado. Agora, o importante é que o estado de emergência, o comando total nas mãos do governo ou certas medidas de controle tenham sido tomadas excepcionalmente e no curto prazo. Uma situação excepcional exige medidas excepcionais que, de maneira alguma, como alguns desejam, podem ser perpetuadas. E é a isso que se deve estar atento.

Como o senhor, um liberal, vê as tentações estatatizadoras da Inglaterra, um país liberal por excelência?

Mario Vargas Llosa: A Inglaterra é uma sociedade muito liberal, sim; mas agora é muito menos com Boris Johnson, não é? [Risos].

“Os países nórdicos são um exemplo de democracia e de respeito aos direitos humanos e cívicos. São o modelo que devemos seguir”

E as medidas protecionistas decretadas por Trump?

Mario Vargas Llosa: Tenho esperança de que, nas eleições, Joe Biden vença Trump, que está criando muitos problemas para os Estados Unidos. Especialmente com as medidas protecionistas que são tão profundamente antiamericanas e tão contrárias à sua grande tradição.

O senhor se surpreende que os países mais avançados da Europa, como os nórdicos, tenham governos socialistas?

Mario Vargas Llosa: Os governos da Finlândia e da Dinamarca não são socialistas. E a Suécia e a Noruega são países onde o socialismo se tornou uma social-democracia muito eficiente, que respeita a liberdade e a iniciativa privada. São países que souberam enfrentar essa pandemia de uma maneira notável.

Onde os cidadãos pagam 45% de sua renda ao Estado.

Mario Vargas Llosa: Mas, depois, a população recebe de maneira muito generosa o que paga em impostos, tanto no campo da saúde quanto no da educação, com aposentadorias de alto nível. Os países nórdicos são um exemplo de democracia e de respeito aos direitos humanos e cívicos. E esses são os modelos que devemos seguir.

Neste momento, deve-se resolver um problema de saúde imediato e muito grave, mas, depois, será necessário enfrentar um problema econômico monumental.

Mario Vargas Llosa: Isso mesmo, feroz; e isso requer uma unidade nacional e europeia muito importante. Os governos devem ter claro que, em uma sociedade moderna, o eixo do desenvolvimento está no setor empresarial privado, que deve ser apoiado com todos os meios possíveis, e não criticado e até combatido, como está fazendo com uma atitude suicida um setor do próprio governo.

É difícil para as empresas privadas apoiar certos governos e vice-versa?

Mario Vargas Llosa: Aqui, infelizmente, tem se insistido muito que as empresas privadas não agiram o suficiente, e isso não é verdade. A verdade é que as empresas privadas agiram desde o início com grande generosidade e muita determinação. Considero totalmente imprudentes, inúteis e desnecessários, além de improdutivos, os ataques contra empresas privadas, porque elas são o organismo fundamental para a recuperação de um país como a Espanha. Quem pensa que apenas instituições públicas precisam responder a essa situação está errado, porque isso não corresponde à realidade. O setor público precisa que o setor privado atue em conjunto, não apenas para derrotar a pandemia, mas também para reconstruir o país, que será profundamente danificado por esse cataclismo.

O senhor acha que garantimos a solidariedade europeia ou os países do sul serão os PIGS novamente?

Mario Vargas Llosa: Acredito que a solidariedade deve ser conquistada com seu próprio esforço e que não é justo que os países que fizeram bem as coisas e enfrentaram essa pandemia com eficiência tenham que pagar, para demonstrar solidariedade, os efeitos daqueles que não o fizeram bem ou o fizeram efetivamente mal. O certo é que a Europa terá que agir em conjunto diante desse desafio, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, acredito que o caso dos países que agiram bem e que estão em uma situação mais sólida deve ser harmonizado com o daqueles que não agiram tão bem e não têm uma situação tão sólida para enfrentar a pandemia. Isso é realista e justo.

"A ideologia não deve intervir, deve ser posta de lado no combate a uma pandemia. Depois as explicações serão solicitadas e responsabilidades serão analisadas”

O senhor vê alguma relação entre a ideologia política dos governos e a maneira de enfrentar o problema?

Mario Vargas Llosa: Não, de forma alguma. A ideologia não deve intervir, deve ser posta de lado no combate a uma pandemia. Acima das ideologias, o que importa agora é uma unidade de ação para combater o coronavírus e uma gestão eficaz.

80% das mortes por coronavírus em nosso país correspondem a idosos com mais de 80 anos.

Mario Vargas Llosa: A pandemia é feroz com os velhos, é verdade. É muito triste que a despedida dos velhos seja dessa maneira tão horrível.

Que reflexão o senhor faz nessa situação?

Mario Vargas Llosa: Agora já sabemos que não dominamos a natureza, que as pandemias não são coisas do passado, mas do presente e também do futuro, que elas não atacam apenas os países pobres e que todos nós temos a obrigação de nos prepararmos bem para enfrentá-las.

O senhor acha que, depois, nada será igual?

Mario Vargas Llosa: Não sei se vamos ser muito diferentes do que antes, acho que podemos ser mais prudentes, mais cautelosos e mais responsáveis. Espero que a pandemia nos dê uma responsabilidade maior e que deixemos de agir de maneira tão arrogante, achando que dominamos a natureza, porque isso não era verdade. Mas, sem dúvida, voltaremos a ir ao teatro e ao cinema, a shows e exposições, ao futebol e às touradas novamente. E espero estar vivo para aproveitá-lo.