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"Sem tributar especulação, oportunidades iguais não bastam contra desigualdades"

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Michael Sandel em passagem pelo Fronteiras do Pensamento
Michael Sandel em passagem pelo Fronteiras do Pensamento

A meritocracia é um tema que divide opiniões e gera polêmicas. Michael Sandel, um dos nomes de destaque da filosofia contemporânea, enfatiza que as oportunidades para vencer não são iguais para todos. Não se trata apenas de recursos financeiros, mas também educacionais, os ganhos culturais que se iniciam nos primeiros anos de vida.  

Autor do livro “A Tirania do Mérito”, Sandel analisa e rejeita a ideia da meritocracia, que envolve falácias e injustiças. Afirma ser uma cultura equivocada que resulta em uma divisão das pessoas entre vencedores e perdedores. Em entrevista à BBC Brasil, o filósofo sugere tributar especulação e fala sobre como a pandemia baliza a importância de trabalhadores que não costumamos notar.   

Filósofo político norte-americano, Michael Sandel se tornou mundialmente conhecido como professor do curso Justiça, de Harvard. Suas aulas já somaram mais de 15 mil estudantes de todas as partes do mundo, e discutem dilemas morais e éticos para analisar a justificativa das pessoas sobre suas posições e atitudes cotidianas. 

O que há de errado com a meritocracia?

Michael Sandel: De certa forma, a meritocracia é uma ideia atraente porque promete que, se todos tiverem oportunidades iguais, os vencedores merecem vencer. Mas a meritocracia tem um lado obscuro.

Existem dois problemas com a meritocracia. Um é que realmente não vivemos de acordo com os ideais meritocráticos que professamos ou proclamamos, porque as oportunidades não são realmente as mesmas.

Os pais ricos podem passar seus privilégios aos filhos, não (necessariamente) deixando grandes propriedades, mas dando-lhes vantagens educacionais e culturais para serem admitidos nas universidades.

Em seu livro, você conta, por exemplo, que a grande maioria dos alunos de universidades de prestígio como Princeton ou Yale, nos EUA, pertencem a famílias muito ricas.

Michael Sandel: É assim. Na verdade, nas universidades da chamada Ivy League (que inclui as universidades de Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth College, Harvard, Pensilvânia, Princeton e Yale, algumas das mais prestigiadas dos Estados Unidos), há mais alunos que pertencem ao 1% das famílias com maior rendimento do país do que aos 60% com menor renda.

Portanto, o primeiro problema com a meritocracia é que as oportunidades não são realmente iguais.

E o segundo problema?

Michael Sandel: O segundo problema com a meritocracia tem a ver com a atitude em relação ao sucesso. A meritocracia incentiva aqueles que são bem-sucedidos a acreditar que isso se deve a seus próprios méritos e que, portanto, merecem todas as recompensas que as sociedades de mercado concedem aos vencedores.

Mas se aqueles que são bem-sucedidos acreditam que o conquistaram com suas próprias realizações, também tendem a pensar que aqueles que foram deixados para trás são responsáveis por viverem assim.

É um problema de atitude em relação ao sucesso que leva a uma divisão das pessoas em vencedores e perdedores. A meritocracia cria arrogância entre os vencedores e humilhação para os que ficaram para trás.



E se a meritocracia é realmente uma coisa tão perversa, por que nas últimas décadas muitos políticos a abraçaram?

Michael Sandel: É uma pergunta muito interessante. Durante as últimas décadas, os partidos de centro, esquerda e direita adotaram uma versão neoliberal da globalização que causou um aumento nas desigualdades.

E os partidos de centro-esquerda responderam a essas desigualdades não procurando reduzi-las diretamente por meio de políticas econômicas, mas oferecendo a promessa de que era possível ascender socialmente, o que em meu livro chamo de "retórica da ascensão".

A ideia é que, se criarmos oportunidades iguais, não precisaremos nos preocupar muito com a desigualdade porque a mobilidade pode permitir que as pessoas passem de empregos com remuneração estagnada para empregos melhores.

Os partidos de centro-esquerda ofereceram a retórica da ascensão em vez de responder diretamente à desigualdade.

Colocando de outra forma: em vez de abordar diretamente a desigualdade, ofereceram a mensagem de que a mobilidade individual pode ser alcançada por meio do ensino superior; eles disseram que para vencer na economia global você tinha que ir para a faculdade e obter um diploma universitário, porque o dinheiro que você ganharia dependia do que você aprendeu e estudou, e se você se esforçasse, poderia alcançá-lo.

Todas essas ideias fazem parte da retórica da ascensão, e os partidos de centro-esquerda pensaram que era uma forma inspiradora de encorajar as pessoas a melhorarem suas próprias condições de indivíduos, obtendo um diploma universitário.

E, de certa forma, essa mensagem é inspiradora. Todos querem acreditar que se você trabalhar duro, pode melhorar sua condição.

Mas embora possa ser uma mensagem inspiradora de alguma forma, por outro lado é um insulto, porque implica que se você não foi para a universidade e está passando por momentos difíceis na nova economia, a culpa do seu fracasso é só sua. E isso, insisto, é um insulto para muitos trabalhadores.

O que as elites políticas e meritocráticas esquecem é que a maioria das pessoas não possui um diploma universitário. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, quase 2 em cada 3 pessoas não têm diploma universitário.

É um erro criar uma economia em que a condição para o sucesso seja um diploma universitário, que a maioria das pessoas não possui. E isso também se aplica à Europa.

E assim os partidos de centro-esquerda perderam muitos dos eleitores da classe trabalhadora que tradicionalmente eram sua base de apoio. Vimos isso com o Partido Democrata nos Estados Unidos, com o Partido Trabalhista na Grã-Bretanha, com os partidos social-democratas na Europa...

Esses partidos têm se tornado cada vez mais partidos das classes profissionais, das elites com formação universitária, e vêm perdendo apoio entre os trabalhadores sem formação universitária.

A pandemia do coronavírus revelou a importância fundamental de muitos empregos que, no entanto, são mal pagos para a sociedade. Você acha que isso pode ajudar a mudar mentalidades?

Michael Sandel: Potencialmente, sim. Pode nos ajudar a entender que o dinheiro que muitas pessoas recebem por seu trabalho não é a verdadeira medida de sua contribuição para o bem comum, um equívoco e que devemos mudar.

A experiência da pandemia oferece uma possível abertura para um debate público sobre o que realmente é uma valiosa contribuição para o bem comum, para além do veredito do mercado de trabalho.

Aqueles de nós que podem se dar ao luxo de trabalhar em casa perceberam o quanto dependemos de alguns trabalhadores que muitas vezes esquecemos. Não se trata apenas de quem trabalha heroicamente em hospitais cuidando de pacientes da covid, mas também de entregadores, balconistas, funcionários de supermercados, motoristas de caminhão, prestadores de cuidados de saúde ao domicílio, babás... Nenhum desses empregos está entre os que têm salários mais altos.

E ainda assim reconhecemos que são trabalhadores essenciais. Portanto, a experiência da pandemia pode ser o início de um amplo debate público sobre como reconhecer a importância do trabalho e das contribuições que essas pessoas fazem à sociedade.

Depende de nós, é uma questão em aberto. Mas acredito que a experiência da pandemia evidenciou as desigualdades existentes em nossas sociedades e a importante contribuição daqueles que, no entanto, não obtêm as maiores recompensas do mercado.

Então você acha que esses trabalhadores essenciais deveriam ter melhores remunerações?

Michael Sandel: Sim. Eu acho que eles deveriam receber mais como medida de emergência durante esta pandemia. Mas também acho que eles deveriam receber um salário melhor, mesmo quando superarmos a pandemia.

O reconhecimento do papel importante dos trabalhadores essenciais durante esta pandemia deve nos levar a estabelecer um salário digno para todos os trabalhadores.

E também devemos conceder licença médica remunerada a todos os trabalhadores durante a pandemia, porque muitos deles estão colocando sua saúde em risco ao fazer o trabalho que fazem, enquanto o resto de nós podemos proteger nossa saúde ficando em casa.

Eles devem receber um salário digno, licença médica remunerada e outras medidas para mostrar o reconhecimento da sociedade sobre a importância de sua contribuição.



Um estudo da New Economic Foundation de 2009 revela que alguns dos empregos mais bem pagos são socialmente muito destrutivos, que em nada contribuem para o bem comum...

Michael Sandel:  É isso mesmo, e é disso que trato no capítulo 7 de A Tirania do Mérito. Por que, por exemplo, os executivos altamente pagos do setor financeiro de Wall Street ganham tanto dinheiro?

Às vezes, presumimos que as transações financeiras especulativas são de vital importância para a economia e a sociedade. Mas estudos têm mostrado, e cito alguns desses estudos no livro, que além de um certo ponto, engenharia financeira complexa e especulação não só não contribuem para a produtividade da economia, mas são na verdade um entrave à produtividade, algo que fere economia real.

E se for assim, recompensar esses executivos financeiros pagando-lhes generosamente não é consistente com a forma como se pagam as contribuições verdadeiramente valiosas para a economia e o bem comum.

E o que você propõe?

Michael Sandel: Proponho uma mudança na estrutura tributária. Sugiro que consideremos a introdução de um imposto sobre transações financeiras especulativas e atividade financeira especulativa: tributar essa atividade e usar o dinheiro arrecadado para reduzir o imposto sobre o trabalho pago por trabalhadores comuns nos EUA.

A mensagem do meu livro é abrir um amplo debate público sobre o que é considerado uma contribuição verdadeiramente valiosa para a economia e o bem comum, e revisar nossa política fiscal e outras políticas do mercado de trabalho para que deem maior reconhecimento e respeito àqueles que eles fazem contribuições valiosas que atualmente são mal pagas e pouco reconhecidas.

Muitos pais, sejam eles ricos ou pobres, ensinam aos filhos que se eles se esforçarem e trabalharem, eles atingirão seus objetivos, uma mensagem muito meritocrática. É perigoso dizer isso a eles?

Michael Sandel: Sim e não, depende. Obviamente, os pais incentivarem os filhos a estudar e trabalhar muito é algo bom, que dá aos jovens a inspiração e a motivação para se esforçarem.

Isso é bom, mas até certo ponto. Os pais devem ser cuidadosos e combinar essa mensagem com outra. Eles devem encorajar seus filhos a trabalharem duro, mas não apenas para que eles consigam um emprego que lhes permita ganhar muito dinheiro. Devemos também promover em nossos filhos o amor pela aprendizagem em si mesma.

Não devemos fazer da educação apenas um instrumento de progresso econômico, porque isso privará nossos filhos do amor de aprender pelo prazer de aprender.

E outro aspecto importante que devemos incutir neles é que se eles tiverem sucesso amanhã será em parte graças aos seus próprios esforços, mas também em parte graças aos seus professores, à sua comunidade, ao seu país, aos tempos em que vivem, às circunstâncias, as vantagens de que puderam usufruir…

Ensinar nossos filhos que seu sucesso é apenas o resultado de seus próprios esforços pode fazê-los esquecer que estão em dívida com os outros, incluindo sua comunidade. Devemos criar filhos que tenham um senso de gratidão e humildade quando são bem-sucedidos.


(Via BBC Mundo)