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Tzvetan Todorov: em nome da queda de todos os muros

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Tzvetan Todorov veio ao Fronteiras do Pensamento para abordar As três ondas do messianismo político: colonialismo, comunismo e guerras humanitárias. Em agosto, a Companhia das Letras lançou a versão brasileira de sua mais recente obra, Os inimigos íntimos da democracia, em que Todorov alerta: "a autêntica ameaça do mundo ocidental está em uma série de tendências crescentes em nosso seio".

Para o linguista, o risco de uma regressão global a modos de agir e pensar típicos do totalitarismo é a consequência mais alarmante das vertiginosas transformações socioeconômicas das últimas décadas. Crítico dos totalitarismos, ele vê com apreensão os conflitos nacionais, que ganharam maior importância depois do colapso do império soviético nos anos 1980. "A xenofobia substituiu o anticomunismo (na Europa ocidental) e o anti-imperialismo (na Europa oriental)". Confira a entrevista de Tzvetan Todorov para o Estadão:

Estadão: Por que diversos escritores do nosso tempo aparentemente se perderam numa espécie de anti-humanismo e de antiliberalismo?
Tzvetan Todorov
: Como eu entendo por "antiliberalismo" um quase sinônimo de "anti-humanismo", diria que é uma reação compreensível (embora lamentável) às grandes catástrofes que marcaram a história europeia no século 20 e ao colapso dos projetos utopistas de trazer o bem. Refiro-me a este respeito às guerras mundiais com a destruição de seres humanos e de bens materiais por elas provocada, ao fascismo e principalmente ao comunismo. A escolha humanista é menos sublime, menos heroica, não promete a salvação das nossas almas, nem o estabelecimento do paraíso na Terra, portanto, não convém aos espíritos amantes do absoluto. Os artistas e os intelectuais pertencem frequentemente a esta última categoria.

Estadão: A coexistência das culturas é difícil na sociedade de hoje. Até quando isto persistirá?
Tzvetan Todorov
: A coexistência das culturas não é difícil, na realidade. Para nos convencermos disto basta lembrar que a cultura é o código comum de um grupo humano - o que significa não apenas de uma nação, mas também de uma região, de um bairro, de um sexo, de uma faixa etária, de uma profissão, de um ambiente social, e assim por diante. No decorrer do dia, mudamos várias vezes de código cultural em função das pessoas que encontramos. É por isso que cada um de nós é portador de várias culturas, e esta pluralidade não representa nenhum problema sério para nós.

Entretanto, esses diferentes grupos existentes no seio de uma sociedade rivalizam entre si, competem e, às vezes, entram em conflito. Os conflitos ideológicos se reduziram na Europa depois do colapso do império soviético; portanto, os conflitos nacionais adquiriram uma importância maior. A xenofobia substituiu o anticomunismo (na Europa ocidental) e o anti-imperialismo (na Europa oriental). Não ganhamos nada com a mudança; a distinção entre "nós" e "os outros" corresponde a um nível muito elementar da inteligência.

Estadão: Como o senhor vê o medo do Islã na nossa sociedade?
Tzvetan Todorov
: Só posso falar das reações na Europa. O medo está provavelmente relacionado ao fato de que, em sua maior parte, os violentos atos terroristas dos últimos anos foram perpetrados em nome do Islã, como os atentados de Londres, de Madri, de Istambul ou, na França, de Paris e, recentemente, de Montauban e de Toulouse. Esses atos são extremamente minoritários, de um indivíduo em um milhão, mas como são supostamente uma expressão do Islã, a confusão é inevitável.

Deste modo, os que execram o Islã como um todo tornam-se os aliados dos terroristas, que gostariam de se apresentar como a autêntica encarnação do Islã. Não é nada disso, esses terroristas são indivíduos revoltados que, em geral, têm um conhecimento muito superficial da religião muçulmana.

Estadão: O senhor fala da negação da humanidade no livro O Medo dos Bárbaros (Editora Vozes). Será algo estrutural?
Tzvetan Todorov
: A barbárie consiste em negar a humanidade plena dos outros, dos que não se parecem conosco. Observamos suas manifestações em todas as épocas, em todas as partes do globo, portanto é uma possibilidade oferecida à espécie humana. Mas, evidentemente, não é uma necessidade - é inclusive o sentido profundo da palavra "civilização": a capacidade de reconhecer a plena humanidade dos outros. Todo ser humano pode alcançar a civilização.

Estadão: Estará a humanidade condenada a erguer muros simbólicos?
Tzvetan Todorov
: O próprio conceito de poder político implica a ideia de fronteira: este poder diz respeito a uma comunidade e não às comunidades vizinhas, portanto, é preciso traçar separações entre elas. Mas será que essas fronteiras devem ser muros? Ou, como na minha infância, "cortinas de ferro"? Sua presença me parece sempre constituir um mau sinal, a prova de que é preciso esconder-se atrás do muro de uma fortaleza ou trancar os outros atrás do muro, como numa prisão, como os muros erguidos recentemente entre os Estados Unidos e o México ou entre Israel e a Palestina. Espero assistir à sua derrubada, como assisti à do Muro de Berlim.