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Werner Herzog: "Não estou interessado em descobrir meus próprios limites, mas sim os limites do cinema"

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Herzog no Fronteiras 2019
Herzog no Fronteiras 2019

Werner Herzog foi um dos destaques da temporada de conferências Fronteiras do Pensamento 2019. Em Porto Alegre e São Paulo, o cineasta alemão tocou no tema proposto pelo projeto este ano, os Sentidos da Vida.

Em uma emocionante fala, ele tocou na pobreza que enfrentou na infância, as dificuldades que cruzou ao longo de sua carreira e criticou a juventude atual, refém do formalismo na carreira e das facilidades tecnológicas que, claro, possuem dois lados fundamentais para compreender a contemporaneidade:

“Se você não encontrar ninguém para distribuir o seu filme, talvez através da internet, do YouTube, você encontra a sua plataforma. Logo, você alcança 50 milhões de visualizações. Se espalha como fogo na floresta. Claro, a internet não é apenas uma glória dos nossos tempos. Ela não é só luz ou coisas positivas. Precisamos ter ciência de que, quanto mais estamos conectados, quanto mais nos conectamos através do Facebook, do Twitter, da internet, mais profunda a solidão se torna. Nós estamos vivendo um século de solidões.”


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Para Herzog, a ligação com o real é o sentido de seu trabalho.

“Eu sempre fui um cineasta que fez questão de estar fisicamente presente. De pés no chão, a gente pode dizer. E não em grandes produções hollywoodianas. Consegui fazer filmes com pouco dinheiro. Hoje em dia, se você é jovem cineasta, não reclame que Hollywood ou que o governo não está financiando os seus filmes. Não fique reclamando. Arregace as mangas e faça um longa ou um documentário que vai lhe custar menos do que US$ 5 mil.”

E é justamente a realidade, a vida diretamente vivida, que faz do homem que domina a técnica um verdadeiro artista.

“Enquanto cineasta, você precisa compreender isso: o momento certo, o humor certo, as pessoas certas. Você precisa pegar isso, identificar isso. E é isso que o torna um cineasta. E isso você não consegue aprender na universidade de cinema. Você aprende isso em coisas fundamentais que acontecem na sua vida. Sabem, eu fui feito prisioneiro na área central da África, o que não foi muito agradável. Mas, me levou a compreender o coração do homem. Se você não consegue compreender o coração dos homens, você não pode ser um grande cineasta. São qualidades que você não pode aprender na escola, ou com professores, ou sendo um assistente.”

Ainda no Brasil, o diretor alemão concedeu uma entrevista exclusiva à patrocinadora do Fronteiras.com e das mídias digitais do projeto, a Braskem. Na conversa, ele revela que seu coração pertence à Amazônia e sua vida à sétima arte.

Você confere este conteúdo inédito abaixo, logo após o vídeo extraído da conferência de Werner Herzog no Fronteiras do Pensamento 2019.


Braskem entrevista Werner Herzog

Qual o papel da Amazônia em sua vida e sua obra?

Werner Herzog: Bem, a Amazônia é uma espécie de lar da minha alma. Claro, eu venho da Alemanha, das montanhas da Bavária, mas uma parte de mim pertence à floresta tropical. E certamente eu voltarei lá.

Aqui, em São Paulo, não estamos tão longe. Voltarei lá e, provavelmente, trabalharei em uma minissérie, mas ainda não está definido se ela será produzida.

De qualquer forma, independentemente disso, trata-se de uma paisagem de sonhos febris, e é uma passagem muito cara ao meu coração, de modo que em algum sentido eu pertenço àquele lugar.

Descobrir os seus limites para então desafiá-los é uma questão recorrente em sua obra. Ainda existem limites esperando para serem conquistados?

Werner Herzog: Mergulhei muito fundo no que faço. Ninguém levou um navio para a Amazônia por conta própria. Hoje, todo mundo faz isso através de efeitos especiais.

Mas, o fato é que não estou interessado em descobrir meus próprios limites, mas sim os limites do cinema, como ele pode evoluir, como ele pode tocar fundo em nossas almas e até que ponto a poesia pode ser transposta para o cinema.

Portanto, os limites e as fronteiras são distintos para cada diretor de cinema. É provável que, no meu caso, eles estejam bem longe, em lugares aos quais quase ninguém vai, mas isso não quer dizer que eu viva minha vida com o objetivo de descobrir minhas fronteiras.

Isso é o que fazem os alpinistas que escalam sozinhos a montanha El Capitan, no Parque Yosemite. Eles querem explorar seus limites. Mas, isso não me atrai.

Seu filme Family Romance discute as relações sociais no mundo atual. Até que ponto ainda somos humanos? O que significa ser humano?

Werner Herzog: O que significa ser humano? Essa é uma pergunta muito profunda para uma resposta curta, mas fiz um filme no Japão, Family Romance, que trata de um negócio.

Você pode alugar um amigo se estiver se sentindo solitário ou pode alugar um pai se o seu não estiver presente, como ocorre em um dos casos mostrados em meu filme, de uma garota de 12 anos. E isso é bom para ela, ela se sente mais segura por ter um pai ali, mas é tudo armação, tudo mentira, é tudo uma performance do pai. Ele finge ser o pai dela. É uma história muito fascinante, onde tudo é armado, tudo é mentira.

A única coisa que não é mentira são nossas emoções. As emoções são sempre verdadeiras.

Qual é a sua relação com a internet e como você acredita que ela afetou e afetará a indústria do cinema?

Werner Herzog: A internet surgiu muito depressa e sem dúvidas teve um efeito massivo sobre as pessoas que a utilizam, que hoje são maioria no mundo. Ela já nos trouxe sites incríveis, mas também há coisas que exigem o nosso cuidado. Quando mandamos muitas mensagens de texto... Vi o caso de uma garota de 15 anos que envia duas mil mensagens por dia e ela é muito, muito solitária, porque todos os seus amigos são virtuais, ela nunca os viu.

Por isso, é claro que devemos utilizá-la da forma certa. No caso do cinema, o impacto foi muito grande, sobretudo no que diz respeito à distribuição dos filmes.

A tendência de hoje, e que já está entre nós, é o streaming. As pessoas estão indo menos ao cinema e vendo filmes em casa, nas suas TVs de plasma com som de qualidade.

É possível que surja uma nova cultura de cinema, em que você convida cinco, seis ou sete amigos à sua casa, prepara uma refeição e assiste ao filme em streaming.

Não sou nostálgico, mas no fim a maior de todas as batalhas para mim é garantir que meus filmes passem no cinema. Em um cinema de verdade, repleto de gente, em que todos partilham da mesma experiência.

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Não deixe de conferir o debate entre o escritor e jornalista Eduardo Bueno, vencedor do Jabuti e responsável pelo canal no YouTube Buenas Ideias, e o cineasta Fernando Mantelli, diretor de obras como Limbo (2010), Quiropterofobia (2009) e Mar Inquieto (2016).