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Contardo Calligaris no Fronteiras: "A sociedade atual tem o dever de dar a todos a chance de viver na Beleza"

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Contardo Calligaris foi o conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo desta quarta-feira (23). O psicanalista foi o penúltimo convidado da temporada, que propõe a temática Os Sentidos da Vida.

A temática surgiu do próprio Calligaris, em uma entrevista em que defendia que, mais importante do que buscar a felicidade, seria construir uma vida simplesmente interessante. Esta vida acolheria momentos de tristeza, luto, dor e, também, alegria e prazer.

Foi sobre esta vida que o psicanalista falou ao público do projeto, no evento que ocorreu no Teatro Santander, com mediação da jornalista Mara Luquet.

No evento, Calligaris explicou que o sentido da vida contemporânea é a fruição da vida concreta, uma capacidade de observar o cotidiano com atenção e presença.

"Na vida concreta, não é necessário ser o cara que primeiro subiu o Everest sem oxigênio para que a vida seja interessante e bonita.  A vida concreta é interessante e bonita indo à esquina de casa mais um dia, mais uma vez encontrando as mesmas pessoas, ou vindo para a faculdade", argumentou o convidado.

Para ele, "a capacidade de olhar e aproveitar, no melhor sentido, de sentir a vida concreta ao redor da gente, isso é um fato crucial na possibilidade de viver".  

Logo abaixo, você confere as principais ideias apresentadas por Contardo Calligaris no palco do Fronteiras do Pensamento. São as respostas do psicanalista às perguntas do público e à questão* enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem.

Lembre-se: o próximo conferencista do projeto é o filósofo francês Luc Ferry, que encerra a temporada trazendo os ensinamentos da filosofia sobre os sentidos da vida na contemporaneidade. Garanta sua presença no evento.

Luc Ferry sobe ao palco do Fronteiras nos dias 11/11 (POA) e 13/11 (SP)

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Calligaris no Fronteiras São Paulo (foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian)


Pergunta Braskem: A internet nos convenceu de que tudo é fácil e grátis. As redes sociais não nos contrariam. Os shoppings são climatizados e agradáveis. Já as praças são quentes, o mundo do trabalho paga pouco e as ruas estão violentas. O imaginário nos embala e é amigável, enquanto que o real nos frustra e contraria. Somos hoje os Quixotes contemporâneos ansiando habitar apenas o imaginário e fugir do real?  

Contardo Calligaris: Eu concordo com grande parte da leitura em questão. Umberto Eco escreveu um livro que se chama Apocalípticos e Integrados. Os apocalípticos são os intelectuais que veem que estamos sempre à beira do fim do mundo e os integrados seriam os que acham que estamos sempre indo muito bem.

Não sou apocalíptico nem integrado, mas tenho uma certa desconfiança cada vez que a gente enxerga só o negativo nas transformações que acontecem.

Eu estava contando outro dia que, no começo dos anos 1980, quando apareceram os primeiro Macintosh, eu tive um e joguei durante um verão inteiro um joguinho que se chamava Kabul Spy, que era ótimo.

Foi naquela época que conheci Seymour Papert, um aluno de Piaget que inventou a linguagem de programação Logo, um sistema que permitia que as crianças pequenas pudessem programar.

Eu e alguns amigos criamos um grupo de pesquisa e fomos entrevistar um psicanalista francês de crianças que se chamava André Bourguignon. Um excelente psicanalista de crianças, mas, como vocês vão ver em seguida, muito francês. A tecnologia realmente não era com ele.

A gente começou a falar que daqui a não sei quantos anos Seymour Papert disse que todas as crianças terão um computador e André Bourguignon respondeu com absoluta certeza: “Serão todos esquizofrênicos!” 

Vocês podem constatar que, em alguma medida, ele errou.

Sobre a crítica do que a tecnologia traz, estou muito dividido.

Vou dar como exemplo o que escrevi na minha coluna sobre uma pesquisa recentíssima da Axios, uma empresa de pesquisa americana, sobre o fato de que a geração dos millennials e a geração z (que votará nas eleições americanas pela primeira vez no ano que vem) têm pontos de vistas que grande parte da população considera esquerdistas.

Metade dessa geração não considera que “socialista” seja um insulto, mas nos Estados Unidos é um insulto. Mais da metade dessa geração gostaria que a agência americana que cuida da imigração deveria ser dissolvida. Por que será que pensam assim? Não foi o marxismo cultural. Ninguém está lendo Gramsci, infelizmente.

Eles pensam assim, porque cresceram num mundo com informação constante para eles desde sempre. Para eles, falar que em Ruanda estão matando três milhões de pessoas não é uma notícia que vem de fora, é uma notícia que vem de dentro, que está lá a cada dia.

São pessoas diferentes da gente. Eles aprendem isso com informação e estão em contato com uma presença da realidade que talvez faça com que sejam um pouco diferentes de nós. Não são só filhos do ar condicionado do shopping.  

Mara Luquet: Várias perguntas convergem sobre a angústia em relação à situação atual do nosso País. Pensando que o Brasil está deitado em seu divã, que é olhar para o passado e investigar as crises do presente, para quais pontos olhar e como superá-los?

Contardo Calligaris: Isso é uma consulta que dura anos e o paciente não sai de cima do divã. Eu acho que o paciente não está bem. O passado dele é difícil e complicado, mas o passado de todo mundo é difícil.

Eu acho que existe a sensação de uma espécie de pano de fundo melancólico de uma promessa que não se realiza nunca, e isso vale para os brasileiros que eu vejo que se consultam comigo.

Há a presença das perdas. Não estou só pensando em perdas econômicas. Um monte de gente teve perdas nesse sentido e regrediu na vida, mas há também uma perda da dimensão de esperança.

Tenho a sensação de que há quase uma psicopatia generalizada que anda junto com uma tremenda feiura. Eu realmente acho o Brasil de hoje muito vulgar, no mesmo sentido que meu pai teria dado a essa palavra.

Tem um parlamentar que fala: “Eu sou que nem mulher traída, que apanha, mas volta.” O que acontece para que isso possa ser falado? Eu não tenho críticas à política econômica, mas à vulgaridade e à feiura, porque elas me parecem ter consequências mais graves.

Mara Luquet: Como sobreviver a um Governo que desvaloriza o pensamento estético e ignora a ética universal para criar sua própria ética, construindo sua própria narrativa?

Contardo Calligaris: Eu espero que entre os boçais e os psicoterapeutas, os psicoterapeutas ganhem.

O que torna o momento tão dramático é ter alguém diz que o Golpe de 1964 foi para prevenir uma Cuba no Brasil. Esta é uma leitura errada da história. Não tinha chance alguma que aquilo se transformasse numa Cuba. Mas eu posso realmente imaginar que militares daquela época, em plena Guerra Fria, tinham esse dever.

Agora, um elogio da tortura é uma vergonha de qualquer forma, de quem quer que seja, em qualquer circunstância. Isso é a lama da vulgaridade.

Mara Luquet: Você fala que nunca devemos rir de perguntas idiotas. Como fazemos quando seu chefe só faz piadas idiotas?

Contardo Calligaris: Bem, um chefe que só faz perguntas idiotas é um caso de assédio moral. Não é brincadeira. Fazer piadas idiotas e supor que o outro vai ser forçado a rir, porque eu sou seu chefe e agora você vai rir, isso é a perfeita definição do assédio moral.

Eu acho que se isso está acontecendo na sua empresa, você tem que ver a pessoa de compliance e denunciar.

Mara Luquet: Você falou sobre família e eu acho que a questão do que é a família tem sido muito distorcida e muitos conceitos ruins têm sido usados em nome da família. Qual é sua perspectiva sobre o conceito de família dentro da cultura brasileira e italiana?

Contardo Calligaris: Uma coisa foi demonstrada nos anos 1960 e 1970, pelo menos minha geração fez essa demonstração: até agora não encontramos nenhum outro caminho para a reprodução social básica. As tentativas de fazer isso foram fracassos miseráveis, tanto na Califórnia em 1966, quanto na União Soviética nos anos 1930.

A família é um pouco como a democracia: é a coisa 'menos pior' que encontramos para criar filhos. Agora, é preciso entender que é um lugar de altíssima patogenia e os psicoterapeutas são favoráveis a isso, porque a família é o que garante a continuação da neurose. 

Nós enriquecemos graças à família, então seria dramático para a categoria encontrar uma solução para a família. Bem, encontraríamos outra forma de sobreviver.

Uma família é um lugar em que nós criamos nossos filhos para eles nos desobedecerem, não para nos obedecerem. Uma família que tenha filhos que pensam igual ao pai é patológico.

Eu acho isso bizarro, porque idealmente uma família é um lugar em que os filhos não concordam com os pais. A família é um lugar onde nós criamos autonomia, não clones. Clone é outra coisa.

Mara Luquet: Se o sentido da vida é a vida concreta, o que traz também a morte como face inseparável da vida, qual seria a referência para conduzir nossas vidas para além do boçal?

Contardo Calligaris: Acho que o século XIX fracassou na sua grande missão histórica - se é que tinha uma missão histórica - e agora eu falo como um hegeliano que em alguma época da minha vida eu fui.

Por que falhou? Porque, quando você tem uma explosão da razão e uma explosão da liberdade individual, uma explosão em que cada um pode inventar a sua vida, a sociedade atual tem o dever de dar a todos a chance de viver na Beleza.

Não viver na feiura é ler Shakespeare, mas também ter saneamento básico, porque ler Shakespeare na merda não é bom.

Nós criamos uma enorme quantidade de gente forçada a viver na feiura e esperar que agora eles se comportem de maneira bonita e elegante não funciona. O critério estético da vida deles é muito difícil de ser construído.  

*As perguntas enviadas pelo público podem ser editadas, pois questionamentos muitos longos tendem a não ser compreendidos pelo conferencista no processo de tradução (que acontece ao vivo, durante o evento, feito pelo tradutor direto nos fones de ouvido).