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A literatura como ato de coragem, a história colonial da África, a restauração do patrimônio cultural africano e seus significados: como localizar o papel do romancista diante desses temas? O escritor franco-congolês Alain Mabanckou será nosso conferencista na próxima quarta-feira (04), às 20h30, para debater a Reinvenção do humano no Fronteiras do Pensamento.  

Assunto fundamental nas discussões atuais, o reconhecimento da África enquanto potência artística é uma lacuna no imaginário mundial. Para Mabanckou, “os africanos simplesmente querem que nós reconheçamos que a imaginação do mundo também inclui aqueles elementos da cultura africana que foram saqueados – e que não teria havido um movimento surrealista, por exemplo, se esses pintores não tivessem sido expostos à arte africana”.

Envie suas perguntas para Alain Mabanckou pelo e-mail digital@fronteiras.com ou por mensagem via Facebook ou Instagram. O pensador responderá as questões selecionadas durante a transmissão ao vivo na conferência desta quarta-feira (04/11). Divulgaremos as respostas nos dias posteriores ao evento, em nossos canais digitais, oferecidos pela Braskem.

Escritor, jornalista, poeta e professor, Alain Mabanckou é um dos mais reconhecidos nomes da literatura francesa contemporânea. Sua obra “Memórias de porco-espinho” lhe rendeu o Prêmio Renaudot. É autor, também, de livros como “Black Bazar”, “As cegonhas são imortais”, “Petit Piment” e “Luzes de Ponta-Negra”.

A seguir, você confere alguns destaques de uma entrevista que Mabanckou concedeu à UNESCO:

“Os belgas estão tentando recontar sua história colonial”, o senhor comentou em uma publicação sua no Instagram depois de visitar o AfricaMuseum, na Bélgica. Por que o senhor disse isso? 

Alain Mabanckou: Um museu é como um indivíduo, que envia uma mensagem pela escolha de suas roupas, o que pode ser honesto ou tendencioso. Alguns usam peruca. Você pode se apaixonar por esse lindo cabelo e se decepcionar profundamente quando descobrir que ele é falso! De modo similar, quando você entra nesse museu, diz a si mesmo que é muito bonito e, finalmente... nada. Eu andei em círculos, mas não vi os braços que foram cortados durante a época de Leopoldo II.

Reconhecidamente, esse [recentemente renovado] museu deu a alguns descendentes de africanos uma oportunidade de contar as suas histórias – é bom se pensar sobre isso. Esse não é necessariamente o caso da França, onde, sempre que há qualquer menção à história colonial, todos se levantam e se refugiam atrás de Jules Ferry, que aparentemente nos trouxe o alfabeto!

No entanto, se você desse esse mesmo museu para que os africanos o construíssem – na verdade, da porta da frente até a porta dos fundos, eles teriam mostrado o homem branco chicoteando o homem negro, colocando-o em porões, saqueando o continente, construindo uma ferrovia onde pessoas morrem. Saiba que eu também teria escrito sobre eles no Instagram, que “estão tentando escrever sua história colonial”.

Os colonizados apresentarão a versão apocalíptica da colonização, a ocidental, sua versão supostamente civilizadora. Tudo isso deve ser sintetizado. Por ora, temos apenas interpretações subjetivas.

 

O senhor acredita ser importante que os países comecem a devolver o patrimônio cultural aos países africanos, como a França está fazendo atualmente?

Alain Mabanckou: Eu gosto do relatório de Felwine Sarr e Bénédicte Savoy sobre a restituição do patrimônio cultural africano [apresentado ao Palácio do Eliseu, a residência oficial do presidente francês, em 23 de novembro de 2018], mas vamos aguardar para ver o que acontecerá na prática.

A devolução suscita a mesma questão – como nós iremos reler a nossa história colonial? Por que esses objetos saqueados nunca são mencionados nos livros de história franceses e europeus? 

"O colonizador cometeu um grande erro ao pensar que o que produzíamos artisticamente era lixo. Atualmente, esses são os elementos que faltam na explicação da imaginação mundial."

Os africanos simplesmente querem que nós reconheçamos que a imaginação do mundo também inclui aqueles elementos da cultura africana que foram saqueados – e que não teria havido um movimento surrealista, por exemplo, se esses pintores não tivessem sido expostos à arte africana. Indo além da devolução, existe a questão do reconhecimento da África como uma potência artística.

 

Houve um dia em que o sr. disse a si mesmo: “Eu quero escrever”?

Alain Mabanckou: Comecei a escrever poemas no ensino médio e, basicamente, eu queria escrever apenas poesia. Não sabia que escrever poderia ser uma atividade principal. Para mim, serviu para acalmar minhas ansiedades, controlar minha solidão. Tornou-se uma confissão para mim, como filho único – uma forma de recusar o mundo como era escrito, no presente, para que eu pudesse inventar a minha própria versão do mundo.

Talvez seja aí que a escrita começou, mesmo que eu não seja capaz de colocar uma data no momento em que tomei consciência de que isso era o que eu tinha que fazer. Continuei a escrever, dizendo a mim mesmo que eu trabalharia e, paralelamente, de tempos em tempos, escreveria. Fazendo isso de forma periódica, eu estava juntando minhas forças para o que se tornaria minha principal atividade – e uma obsessão.

 

Antes de publicar o seu primeiro romance, Bleu blanc rouge (Azul branco vermelho, em tradução livre) em 1998, o senhor havia publicado quatro coleções de poemas. De que forma os romances e a poesia trabalham juntos?

Alain Mabanckou: A poesia corresponde à alma romântica dos adolescentes – é o lugar dos primeiros amores, o momento em que se descreve as decepções, ou se apaixona por Lamartine, Hugo, Vigny, ou algum outro poeta romântico. Além disso, a poesia era muito respeitada em meu país, com grandes autores nacionais como Tchicaya U Tam’si. 

Nós realmente só descobrimos o romance em 1979, com a publicação de La vie et demie (Vida e meia, em tradução livre), de Sony Lab’ou Tansi, que eu considero o maior escritor do Congo. Ali, percebemos que também poderíamos narrar algo que não era necessariamente sobre a dor pessoal. No romance, o estado de espírito não mais pertence ao romancista – pertence ao personagem.

 

Seu amigo, o escritor haitiano Dany Laferrière, diz que, quando se trata de criação, “o talento é importante, mas o mais importante é a coragem”. É preciso ousar, para criar?

Alain Mabanckou: "A coragem é tudo o que você não vê em uma obra literária. Um romance ou uma coleção de poemas é o produto finalizado. Nós não enxergamos nele todo o sofrimento do autor, sua angústia, suas condições de vida, suas falhas. Se você não tem coragem, se não tem obstinação, se não tem obsessão, então o talento não vale nada!"

Escrever um romance significa polir cada frase e voltar a ela quantas vezes for necessário, para realmente expressar o sentimento a que se destina. A coragem de que fala Dany Laferrière é sinônimo de obsessão e força. O escritor é obcecado com o projeto estético que carrega, e usa toda a sua força para defendê-lo em seu universo imaginário.