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Fernando Savater responde a Pergunta Braskem: a diferença entre educação familiar e educação escolar

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Fernando Savater (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Fernando Savater (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

A educação do cidadão no século XXI foi o tema da conferência do filósofo espanhol Fernando Savater para o Fronteiras do Pensamento 2015 (POA, 26/10; SP, 28/10).

Conhecido por tratar do tema em seu livro Ética para meu filho, o Professor Savater relacionou três temas em sua fala: educação, ética e a sociedade democrática contemporânea. Savater foi categórico sobre o que define a sociedade democrática, em sua opinião: criar cidadãos aptos para transformar a própria democracia, sendo que tais cidadãos são caracterizados por uma grande virtude, segundo ele, a capacidade de persuadir e de ser persuadido. “Numa democracia, o ignorante é aquele incapaz de persuadir e de ser persuadido. Democracia é um sistema de persuasão mútua, afirmou o convidado.

Logo após sua fala, Fernando Savater respondeu as perguntas do público presente e a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nos canais digitais. Desta vez, a questão selecionada veio de Roberto Machado Lopez. Confira abaixo:

Roberto Machado Lopez: Trabalhamos 12 horas por dia e sete dias da semana para dar conta das despesas – não esqueçamos que professores também são pais e sabem bem o que é levar serviço para casa. Cada pessoa tem seu ritmo e seu tempo de aprendizagem, como educar num tempo onde se acelera tudo e o apelo ao consumo está acima dos valores humanos?

Fernando Savater: De maneira provocativa, durante minha conferência, eu disse que educação é dar aos filhos a possibilidade de se livrarem da influência permanente de seus pais. Todos os educadores têm um aspecto suicida, porque nós educamos para que os demais possam prescindir dos educadores.

O bom educador é aquele que espera que seu aluno se vá e que possa viver livre, que possa decidir por si mesmo. Inclusive, que possa ser mais inteligente que seu professor. Os professores não podem querer que os alunos fiquem eternamente com eles. Para os pais é a mesma coisa. Os pais que prendem os filhos até os 45 anos não são bons educadores. A boa educação está justamente quando nós professores ensinamos os demais a viver sem a gente.

Então, evidentemente, a educação familiar é imprescindível, mas o que acontece é que ela é aleatória, ou seja, quem teve a sorte de ter pais que eram educadores – minha mãe era professora, vivi num ambiente educativo já na minha própria casa, e isso é uma sorte extraordinária, é muito melhor do que ganhar na loteria, mas é uma sorte.

Os pais, os adultos que cuidam de uma criança, educam essa criança por identificação, por seu exemplo, pelo interesse afetivo que os une ao filho. Dentro de uma família, há identificações afetivas que são muito poderosas e que duram muito tempo, muito além de quando saímos dessa família e que nos fazem aderir a certos costumes, sabores e coisas. E isso é muito importante na educação.

O professor não pode esperar criar essa identificação que um pai e uma mãe criam com seu filho. Ele não pode, mas, por outro lado, o professor, justamente por não ter essa identificação sentimental, pode ensinar a viver com pessoas que o aluno não tem que amar obrigatoriamente. Tudo bem que gostemos uns dos outros, mas não amamos todo mundo. Então, alguém tem que ensinar a respeitar todo mundo. Esse respeito se aprende na escola, não em casa.

Em casa, o que se tem é amor e, às vezes, certos conflitos e invejas, mas tudo muito passional. Na escola, o que há são relações cívicas. Estamos rodeados de pessoas com as quais nós não temos nenhuma relação, mas com as quais temos que compartilhar idade, estudos etc. Desse modo, a escola, em si mesma, é mais educadora do que o conhecimento ensinado dentro dela.

Sou contra as pessoas que dizem 'educarei meus filhos em minha casa'. Isso é o contrário de educação, porque a escola é educadora em si mesma. Ir à escola, que não é a sua família, um lugar onde você vai ver pessoas que não são da sua família, pessoas que você não ama, mas com as quais você tem que conviver e respeitar: isso é o fundamento da educação.

Eu não desprezo a educação paterna e materna, mas tampouco vamos pensar que todos os pais têm ideias que devem ser perpetuadas. Se os pais ensinam coisas boas é ótimo, senão, a sociedade tem que ensinar, porque os valores que devem ser transmitidos não são apenas valores familiares, são valores sociais. E a sociedade deve ser parte disso.


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