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José Eduardo Agualusa responde: a união perdida em nome das brigas políticas

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Expoente da literatura lusófona, José Eduardo Agualusa foi o conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre desta quarta-feira (06), no Salão de Atos da UFRGS. Em sua fala “A leitura como utopia – literatura, democracia e justiça social, o caso angolano”, o escritor trouxe toda a sua poesia para contar ao público da capital gaúcha como o otimismo e a capacidade de sonhar podem nos ajudar a enfrentar momentos de crise política e social como o que estamos vivendo hoje no Brasil.

Ao defender que a literatura tem o poder de nos tornar pessoas melhores, colocando-nos na pele do outro, o autor afirma que os livros podem contribuir para o diálogo em países como Angola, cuja democracia está constantemente ameaçada:  “Em países como Angola, que estão emergindo agora de longas guerras civis ou de outros conflitos semelhantes, a pacificação passa pela redescoberta do próximo. O livros podem e devem ter um papel fundamental em todo este processo.”

Após sua fala, José Eduardo Agualusa respondeu perguntas do público. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Confira abaixo esta e outras respostas:

O início das campanhas eleitorais trouxe de volta os ânimos acirrados e as brigas nas redes sociais. Ainda temos no Brasil a democracia, mas pagamos o preço alto da corrupção. Será que os brasileiros ainda sonham? Como sonhar e concretizar melhor o futuro do nosso país? O que a história de Angola pode nos ensinar a respeito disso?

José Eduardo Agualusa: Com a queda do muro de Berlim, foi como se o sonho também tivesse sido roubado. Acho que é preciso recuperar o sonho. É preciso voltar a sonhar. Quanto a esse clima que se estabeleceu no Brasil - que não surgiu agora no período eleitoral, começou bem antes -, isso me assustou um pouco, porque é semelhante ao que eu vivi em Angola no início da guerra civil. Na época, eu tinha 15 ou 16 anos e era um tempo de grande euforia, onde tudo parecia possível, mas, ao mesmo tempo, grandes tragédias aconteciam. Antes da guerra se instalar realmente, começou a acontecer essa divisão na sociedade.

No natal, quando a família se juntava, minha mãe proibia que se falasse de política, porque sempre acabava em guerra. De fato, acabou em guerra e acabou com a família dividida.

Essa divisão que acontecia dentro de casa também aconteceu na escala do país. Algumas pessoas foram fazer a guerra de um lado, os irmãos foram fazer a guerra de outro, e só se reencontraram 30 anos depois. Refletindo sobre isso, a pergunta que sempre me faço é a seguinte: justificava-se, por aqueles políticos que a gente tinha, que isso acontecesse?



A “Sociedade dos sonhadores involuntários” se assenta sobre alguns eixos extremamente importantes e recorrentes na sua obra: o sonho e a memória, referenciados sempre pela história. Você trouxe a história na sua fala e um dos aspectos que aparece muito forte na no livro é essa reação dos jovens. É muito interessante a forma como isso aparece, porque eles são e reação efetiva sem medo, mas, ao mesmo tempo, você mostra um certo distanciamento deles da geração anterior, onde a gente já enxerga o medo, o receio. O próprio Daniel seria um desses exemplos. Eu gostaria que você falasse sobre isso. 

José Eduardo Agualusa: É preciso explicar, primeiro, que esse livro surge de duas situações: de um lado a minha relação com o sonho e, de outro, uma situação que se desencadeou a partir da prisão de um jovem rapper angolano, Luaty Beirão. Eu sempre sonhei muito e sonho com enredos completos, com títulos dos livros, com personagens. No caso daquele personagem Félix, de “O vendedor de passados”, ele apareceu em um sonho me mostrando um cartão de visitas em que ele dizia às pessoas: “ofereça aos seus filhos um passado melhor”.

A sua tese era de que os novos ricos já tinham um futuro assegurado, porque já tinham muito dinheiro, mas não tinham um passado que explicasse esse dinheiro. Há muito tempo eu queria escrever um romance que tivesse a ver com os sonhos, por outro lado, eu queria escrever um livro que tivesse a ver com os sonhos nesse sentido de diálogo coletivo que moveu esses jovens.

Nessa época, eu estava muito impressionado com o surgimento desse movimento que tinha a ver com a Primavera Árabe. Pouco depois da Primavera Árabe ter eclodido na Tunísia e no Egito, apareceu em Angola um jovem rapper em um palco de um festival de música lotado de gente. No meio do show, ele interrompeu a música para fazer uma declaração defendendo a democratização do país e o filho do presidente esteva na plateia.

Luaty se dirigiu diretamente ao filho do presidente, dizendo: “Vai dizer ao teu pai que 33 anos é demais. Acabou.” Aquilo nunca tinha acontecido antes em Angola. E quando vi aquilo nas redes sociais, foi uma emoção muito grande. Todos nós sentimos isso.  Sentimos que o regime ia cair no dia seguinte. Acho que o próprio regime teve esse medo nos dias seguintes.

Apareciam figuras do regime na televisão completamente assustadas e sem saber como reagir diante do que estava acontecendo. A verdade é que esses jovens marcaram uma manifestação para poucos dias depois e nessa manifestação estavam meia dúzia de pessoas e foram todos presos. Após a primeira prisão ele não desistiram, foram sistematicamente marcando manifestações, foram sendo presos e gravemente espancados. Num certo dia, foram presos lendo e discutindo um livro, acusados de tentativa de golpe de estado.

A prisão deles gerou muita repercussão. Eu participei dessas passeatas a favor da libertação do Luaty e de seus companheiros e aquilo tudo me marcou muito. Foi sob a influência desses acontecimentos que escrevi o livro. Eu queria falar um pouco sobre como as diferentes gerações enfrentaram essa situação, em como os jovens enfrentaram e em como a geração anterior estava paralisada pelo medo e não reagiu. É curioso que esse movimento de solidariedade que surgiu alcançou os mais importantes nomes da cultura angolana entre os jovens, mas, os mais velhos não se manifestaram. Não houve uma voz dos escritores mais velhos em favor dos jovens. 

O sonho tem um papel fundamental no livro. Onde entra exatamente o neurocientista brasileiro?

José Eduardo Agualusa: O Sidarta Ribeiro é um amigo meu e foi importantíssimo. Eu não o conhecia e quando li uma entrevista dele, fiquei maravilhado, porque aquilo que ele dizia ia ao encontro daquilo que eu pensava. Então, falei com um amigo meu que conhece muita gente, que é médico em Recife, e ele me conseguiu o contato do Sidarta.

Eu peguei um avião para estar com ele em Natal, e quando cheguei em Recife, o voo foi cancelado e eu perdi a possibilidade de me encontrar com ele. Enquanto estava ali desesperado, por incrível que pareça, recebi uma ligação da prefeitura de Natal para ficar um tempo lá com uma bolsa de criação literária, que aceitei imediatamente. Em vez de ir apenas visitar o Sidarta, acabei ficando um mês em Natal, estabeleci uma relação de amizade com ele e conversamos muito. Este livro é dedicado ao Sidarta e aos 13 +2, a todos esses meninos e meninas que foram presos em Angola.

Mas você conseguiu descobrir algumas coisas importantes sobre o sonho? Eu pergunto isso, por que no livro a gente tem um personagem que não sonha, mas, transita pelos sonhos dos outros. A gente tem a artista que encena e fotografa os próprios sonhos, e o Daniel, que sonha com quem ele não conhece. Temos as várias possibilidades mágicas do tratamento com o próprio sonho e mais o neurocientista. O que você descobriu do sonho com ele?

José Eduardo Agualusa: O Sidarta tem essa ideia de que é preciso recuperar o sonho, porque durante milênios o sonho tinha uma utilidade prática. Se o sujeito sonhasse que havia um leão próximo a um rio, tomaria mais cuidado da próxima vez que fosse até um rio. O sonho é uma criação de modelos de realidade. As pessoas se reuniam para discutir os sonhos e isso ainda se faz nas regiões rurais. Antigamente, havia a figura mais velha da casa, geralmente a avó, que era quem interpretava os sonhos. 

Você disse que não há nenhum caso perdido em relação às pessoas. Você já conseguiu vencer algum desses casos em que não há empatia ou diálogo aparente? Como foi?

José Eduardo Agualusa: Eu acredito realmente nisso. Não podemos pensar que há alguém realmente descartável na humanidade. Somos sempre o outro. O outro que viveu circunstâncias diferentes de nós. Somos todos humanos, todos parte de um mesmo organismo que é a humanidade, por isso não podemos descartar uma parte de nós. Quando estamos descartando alguém, estamos descartando sempre uma parte de nós.

É preciso, às vezes, tentar fazer um esforço grande para tentarmos compreender o outro, mas, não podemos desistir. Eu vejo com alguma tristeza as redes sociais que vão incentivando as pessoas a ficarem em bolhas, que vão excluindo as pessoas que pensam diferente delas. No meu Facebook, faço esse esforço de manter pessoas que não pensam como eu, e de ler a opinião delas e tentar perceber se ali há alguma razão, porque eu posso estar errado. É bom sempre lembrar que a democracia não é simplesmente aceitar a ideia do outro, mas, que de duas ideias em confronto, possa surgir uma ideia melhor. Este é o fundamento da democracia. 

Na “Teoria geral do esquecimento” você mostra uma personagem que se reconstrói na solidão do apartamento. Você acredita que a solidão seja uma reconstrução do nosso personagem, ou ela é um encontro com a melancolia?

José Eduardo Agualusa: Acho que esse livro é um exemplo do que estamos falando. Ele é muito mais atual hoje, do que na época em que foi publicado. Talvez por isso tenha feito sucesso internacionalmente. Para quem não leu, o livro conta a história de uma senhora portuguesa que vai para Angola pouco antes da independência e é uma pessoa carregada de preconceitos, que odeia Angola e odeia os angolanos.

Um dia, a irmã dela sai para uma festa e não volta mais. Então, aquela senhora fica sozinha no apartamento e aterrorizada de tal forma, que constrói um muro separando o apartamento dela do resto do edifício, do resto da cidade, do resto do mundo. Ela vai viver isolada durante quase 30 anos e vai ser salva por uma criança que lhe devolve a visão e lhe mostra aquilo que é evidente: que o outro não é nada além de nós próprios.  Quando ela percebe isso, é que ela se salva.

É um livro em que quase todos os personagens têm uma segunda oportunidade e alguns deles se salvam. Outros, aparentemente não conseguem se salvar, pois eram pessoas torturadas e doentes, ou aquilo que a gente diria: eram pessoas más. O livro mostra como essa pessoa vai se transformando. Não sei se é a solidão, talvez seja o contrário, porque ela não está totalmente sozinha, ela está cercada de livros e esses livros vão abrindo janelas dentro dela. Finalmente, há essa criança que entra no apartamento e que a salva. Portanto, ela é salva também da solidão.

Tem uma outra questão que está muito presente na sua obra, que é memória. Em “A sociedade dos sonhadores involuntários” tem uma cena muito interessante em que falam o Jean e o Daniel, e a ideia do Daniel é de que passado não muda, entretanto, para o Jean, o passado muda através da imaginação. Essa possibilidade de mudança do passado através da imaginação é o papel da arte e da literatura?

José Eduardo Agualusa: Memória e identidade estão sempre ligadas. Talvez o passado não mude, mas a forma como nós olhamos o passado muda. A nossa interpretação do passado vai mudando e isso se faz em grande medida através da arte e, em particular, da literatura.

O que você acha sobre a difusão da literatura africana lusófona nos países africanos e nos outros países lusófonos?

José Eduardo Agualusa: Nos últimos anos, tem havido uma maior divulgação e uma maior afirmação da literatura africana no mundo e aqui no Brasil também. Eu vivi aqui no Brasil há 18 anos atrás, no Rio de Janeiro, e naquela época não havia escritores africanos nas livrarias do Brasil. A gente entrava em qualquer livraria e não encontrava um único escritor africano, e agora há muitos.

Nestes festivais literários, que são tantos no Brasil - e isso é maravilhoso -, costuma ter vários escritores africanos. Na FLIP deste ano tinha um amigo meu, Alain Mabanckou, e a Slimani. É como se o Brasil tivesse redescoberto a África da melhor forma: na vitalidade da sua cultura contemporânea, e não através da África arcaica que o Brasil cultivou durante muito tempo.

A literatura africana tem passado por uma expansão nos últimos tempos e acho que isso vai se potencializar, porque as possibilidades são muito grandes e nós temos várias histórias para contar, devido à história turbulenta do continente e à sua riqueza em termos humanos. À medida que conseguirmos levar mais livros às pessoas, acho que vamos assistir a um maior desenvolvimento da cultura africana.


Quando os portugueses saíram das colônias, eles deixaram um número muito grande de analfabetismo. Como isso está agora em Angola?

José Eduardo Agualusa: Apesar dos maus governos, muita coisa foi feita. Hoje, ainda temos uma porcentagem muito grande de analfabetos, mas essa porcentagem diminuiu muito. De qualquer forma, há muito ainda a fazer. Há pessoas que sabem ler e escrever, só que se elas não tiverem acesso aos livros, não adianta muito. O maior problema em Angola hoje é que o livro é muito caro. Quando eu lancei meu primeiro livro, ainda no tempo do Partido Único, foi um período terrível de muita repressão. Uma das poucas coisas boas daquele tempo era o preço dos livros.

Lembro que no meu primeiro romance eu não era uma pessoa conhecida e, mesmo assim, a primeira tiragem foi de 15 mil exemplares, que é muito em qualquer país do mundo para um autor desconhecido. Naquele tempo, o Pepetela chegou a ter edições de 100 mil exemplares que esgotavam rapidamente. Trabalhei como repórter de guerra e via que os soldados compravam os livros e liam. Liam boa literatura, porque tinha que ser. Eles não tinham o Paulo Coelho. Os livros eram editados pela União dos Escritores, então, tinham bons escritores e eles eram lidos pela população. Hoje, as pessoas não leem, porque o livro é muito caro. Em primeiro lugar, temos que criar redes de bibliotecas públicas para levar os livros até as pessoas. 

E o contrário? Os escritores brasileiros novos são conhecidos em Angola? Aqueles da geração de 1930 nós sabemos que foram conhecidos em Angola. E os novos?

José Eduardo Agualusa: Todos os escritores da geração de 1930 tiveram muita importância na construção da própria literatura angolana. Com a independência há uma ruptura, porque o livro deixa de circular. Há o problema da circulação do livro e passam a ser os africanos vindos de visitas ao Brasil que levam os livros para lá. Mas, isso fica restrito a essa classe de pessoas que têm a possibilidade financeira de poder viajar. O grande público não tem acesso a esses autores jovens. Esses autores jovens não estão à venda no país por um problema de circulação. Acho que muitos deles teriam leitores em Angola, sem dúvidas.

José Eduardo Agualusa: Também temos muito poucas editoras em Angola, infelizmente. É muito caro produzir livros lá, então fica mais fácil e barato comprar os livros em Portugal ou no Brasil e vender em Angola, do que produzir esses livros no país. Ser editor em Angola é muito difícil. Eu posso contar a história da editora que me publica em Angola, porque é muito curiosa. Eles começaram com um grupo de pessoas que organizava festas e bailes e a uma certa altura resolveram reativar o carnaval de Luanda, que foi muito importante na época colonial. Eles tiveram muito sucesso e com o que ganharam ocuparam um antigo cinema muito bonito. Nesse cinema construíram uma livraria, e depois construíram a editora. A minha editora deve ser a única no mundo que é um bloco de carnaval e, na verdade, é o carnaval que sustenta a editora. 

Durante muito tempo, quando se falava de romance histórico, se falava da busca pela identidade africana, como se a questão fosse sempre essa: a busca pela identidade. Ouvi você dizer em uma entrevista que não é a busca pela identidade. É o reconhecimento da identidade por uma perspectiva africana. Como isso está colocado na cultura angolana?

José Eduardo Agualusa: O romance histórico tem tido um rejuvenescimento, um renascimento. Surgiram vários escritores novos que trabalham com o romance histórico, que buscam olhar para a história da África de uma perspectiva africana, porque o que tínhamos até então era a perspectiva europeia sobre a África. A questão da identidade não uma identidade coletiva. Acho que muitas vezes é uma busca da identidade pelo próprio escritor. É o escritor que vai procurar na história como ele se situa dentro do próprio país. Então, não sei se é uma busca de identidade ou um questionamento de identidade. O que de uma forma mais vasta, tem a ver com essa necessidade de olhar para a história da África por uma perspectiva africana.

Para mim, com a “Rainha Ginga”, que é esse meu romance histórico passado no século XVII, isso é muito claro. A gente tinha aquela história contada muitas vezes por europeus, porque a rainha Ginga impressionou muita gente da própria época dela e durante séculos impressionou os europeus.

Há várias histórias dela, mas sempre por olhares europeus. O que eu tentei fazer e o que outros escritores tentam, é mostrar a história pelo olhar africano. Mia Couto tem uma trilogia publicada agora no Brasil sobre o Ngungunyane, que se passa no final do século XIX. É uma história muito triste de um rei que é capturado, levado para Portugal, e acaba morrendo no exílio. Acho que o Mia está tentando contar essa história recente de Moçambique numa perspectiva africana. 

Gostaria que você falasse sobre como surgiu “Nação crioula.

José Eduardo Agualusa: O “Nação crioula” surgiu da criação de um outro livro, do meu primeiro romance “A Conjura”, em que conto a história de uma insurreição nacionalista que aconteceu em Angola no final do século XIX. Escrevi esse livro depois de ler muitos jornais angolanos do século XIX, e talvez as pessoas não tenham muita noção, mas, aquele foi um período muito vivo e muito ativo no jornalismo em Angola.

Como Luanda era uma cidade pequena, lendo aqueles títulos todos que representavam interesses diferentes, representavam correntes diferentes, é como assistir a uma novela. Rapidamente, você conhece toda a gente de Luanda e entra dentro daquela realidade. Depois de ler aqueles jornais, fiquei muito impressionado e resolvi começar a escrever o romance. Não foi difícil, porque eu já tinha o principal, que era o tom e a linguagem daquela época, e tinha também a novela pronta e todos aqueles personagens que eram figuras reais de Angola.

Depois que eu publiquei o livro, as pessoas foram trazendo mais coisas e contando histórias, e foi aí que descobri essa história autêntica de uma senhora angolana que chegou em Luanda como escrava e depois chegou a ser uma das escravocratas mais ricas do país. Aquela personagem me fascinou.

O livro é uma fusão da história dessa senhora e de uma personagem um pouco mais conhecida, que é Dona Ana Joaquina, uma senhora mestiça riquíssima e muito poderosa que tinha um palacete em Luanda que foi destruído. Como as pessoas protestaram muito após a destruição, o governo ergueu uma cópia do prédio que existe até hoje. Essas histórias de famílias mestiças que enriqueceram prodigiosamente com o tráfico de escravos sempre me fascinaram e foi assim que surgiu a ideia deste livro. 

Como é hoje ser um escritor em Angola? As pessoas te reconhecem na rua como escritor e te abordam?

José Eduardo Agualusa: Uma coisa é ser eu, e outra coisa é ser escritor. É mais fácil para mim do que para alguém que esteja começando agora. Provavelmente, para um escritor angolano que está começando agora não é muito fácil, por tudo aquilo que já falamos: não é fácil publicar livros, não é fácil vender os livros e não é fácil você se afirmar como escritor. No meu caso, eu tenho uma situação facilitadora hoje, porque as pessoas compram os livros, me conhecem e me contam suas histórias. Mas, também não é preciso ser escritor para isso. Uma das boas coisas que Angola tem é essa capacidade de contar histórias, essa paixão por contar histórias. A facilidade com que as pessoas falam e contam suas histórias nas ruas é algo maravilhoso.

José Eduardo Agualusa

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