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Luc Ferry: "O melhor meio de dominar o povo é pelo medo"

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Luc Ferry no Fronteiras POA 2019 (foto: Luiz Munhoz / Fronteiras do Pensamento)
Luc Ferry no Fronteiras POA 2019 (foto: Luiz Munhoz / Fronteiras do Pensamento)

12 anos após realizar a primeira conferência do Fronteiras do Pensamento, em 2007, o filósofo francês Luc Ferry voltou ao ciclo de conferências na noite desta segunda-feira (11), no Salão de Atos da UFRGS. Desta vez, fechou a temporada de 2019, que convidou oito personalidades para discutir os Sentidos da Vida.

O autor de Aprender a Viver (2006) falou sobre como o amor e a sabedoria podem levar a uma vida melhor e defendeu a busca pela longevidade, abrindo portas para abordar as ideias apresentadas em sua obra A Revolução Transumanista (2018).

Segundo ele, se o recorde de pessoa mais idosa pertence a uma mulher francesa que viveu até os 122 anos, o transumanismo mira na possibilidade de estender a vida até os 130 ou 150 anos, utilizando tecnologias avançadas para isso.

O filósofo defendeu sua posição afirmando que a natureza não deve ser considerada um modelo moral e que a tecnologia pode ser usada para corrigir as desigualdades.

"A natureza é Darwin, é a eliminação dos fracos e dos velhos. O transumanismo diz que a natureza deve ser modificada. A natureza não é sagrada. Se modificar um gene defeituoso pode salvar uma criança, por que não fazê-lo? Se alguém possui uma anomalia genética, a natureza falhou e deve ser corrigida", argumentou.

A consequência de viver mais tempo, para Ferry, seria uma humanidade mais experiente e, portanto, mais sábia: "Envelhecer permite se tornar melhor, aperfeiçoar-se e ter mais experiências, especialmente no amor."

Leia também | Entrevista com Luc Ferry: "A natureza pode ser tudo, menos um padrão para nossa moral e política"

Questionado pelo apresentador do evento, o jornalista Daniel Scola, pelo psicanalista Felipe Pimentel e também pela plateia, Ferry abordou rapidamente outros assuntos, sem desviar de questões polêmicas. Criticou o veganismo e defendeu o casamento homossexual. Afirmou também que sua atitude mais polêmica, a de proibir o uso de símbolos religiosos nas escolas  quando foi Ministro da Educação da França, entre 2002 a 2004, funcionou muito bem.

O filósofo também respondeu a pergunta enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem. Confira as principais respostas de Luc Ferry logo abaixo.


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Pergunta Braskem: O senhor afirma que o medo precisa ser enfrentado. Como fazer quando o medo é usado para manobrar a grande massa da população? Como lidar com o medo manipulador?

Luc Ferry: O medo é um instrumento de manipulação muito eficaz. Na filosofia grega, encontramos essa ideia, particularmente na Odisseia de Homero, de que o sábio é aquele que venceu os medos. Por quê? Quando somos tomados por uma fobia - esses medos absurdos de um inseto, de um rato ou do escuro - a gente se torna bobo, malvado e egoísta.

Se você tem medo de um camundongo, por exemplo, sabemos que ele mata muito pouco a cada ano. O camundongo não é um animal feroz, então ter medo de um camundongo é uma bobagem. Ao mesmo tempo, você se torna um egoísta, porque só consegue pensar em si mesmo.

O sábio é aquele que venceu os medos e é capaz de amar, de sorrir e de olhar para os outros. Isso é a sabedoria.

Todos os ditadores compreenderam que o melhor meio de dominar o povo é pelo medo e é extremamente difícil, hoje, lutar contra isso. É preciso retirar os medos que estão ancorados em nós, porque isso acaba com a vida da gente, mas é extremamente difícil lutar contra o medo suscitado pelas verdadeiras ditaduras.

A única maneira é aceitar ou se revoltar até mesmo arriscando a própria vida, mas reconheço que é necessário ter uma coragem muito grande para isso.

Em todo caso, a primeira coisa a fazer é: torne-se um sábio grego. Vença os seus próprios medos (claro que com a ajuda de um psicanalista é mais fácil).

Felipe Pimentel: Essa sabedoria dos antigos, de vencer os medos, de habitar o presente, você acha isso possível no nosso mundo atual?

Luc Ferry: Como diria Woody Allen, em uma entrevista recente na França: “Minha posição em relação à morte não mudou. Eu sou absolutamente contra a morte.”

É por isso que eu gosto do transumanismo, porque o cristianismo me promete a imortalidade no céu e eu preferia que fosse aqui na terra. Eu não acredito na imortalidade, mas morrer com 120 anos me parece uma morte precoce, pois temos tantos homens e mulheres para amar, livros para ler, países para visitar.

Na filosofia do amor, o sagrado não é apenas as pessoas que a gente ama, mas as pessoas que a gente poderia amar, que a gente poderia conhecer no Camboja, no Brasil, na Rússia. Enfim, são pessoas que são para nós como irmãos, amigos muito próximos, como se conhecêssemos elas a vida toda, e é isso que dá sentido à vida.

O que importa, hoje, não é a busca da imortalidade, mas sim a busca da longevidade. O que é sagrado para nós não é Deus, não é a pátria, não é revolução, é o humano.

Daniel Scola: Em sua obra A Nova Ordem Ecológica, de 1992, você se referiu ao animal como o “ser equívoco”, nem homem, nem pedra. Na atualidade, considerando a evolução da sociedade e do direito, o senhor mantém essa classificação?

Luc Ferry: Acho que o sofrimento animal nos coloca uma questão que não é negligenciável. Eu tenho um gatinho. Ele tem uma afetividade tão grande e uma inteligência que não é negligenciável. Ele não é uma pedra, não é uma árvore, não é um objeto.

Eu não vou confundir o direito do homem com o do animal, mas eu sou muito anticartesiano. Eu acho que o animal não é uma máquina. Não se pode fazer qualquer coisa com os animais.

Eu não sou vegano, visto que se a gente os ouvisse, cometeríamos o maior genocídio animal de todos os tempos. Os animais de criação doméstica, como os porcos, as vacas, as galinhas e os coelhos só existem porque nós os comemos. Se nós pararmos de comê-los, eles não existiriam mais e milhões de animais seriam riscados do mapa.

O problema não é comer animais, é normal comê-los. A questão é não fazê-los sofrer. Evitar o sofrimento animal é um objetivo que não tem nada de ridículo, é um objetivo razoável.

No fundo, há duas coisas na natureza que nós temos que respeitar: a beleza e o sofrimento dos animais.

Felipe Pimentel: A sua ideia de casamento por amor parece trazer a possibilidade de diferentes configurações familiares, uma vez que a nossa grande conquista moderna foi o casamento por amor e não pela tradição. O que você tem a dizer sobre esse tema?

Luc Ferry: O casamento homossexual é o fim do casamento por tradição. Ele separou o casamento dos aspectos principais que eram a filiação, a biologia e a economia. Hoje, a gente só se casa por amor. Os homossexuais podem muito bem dizer: nós nos amamos e nós temos o direito de casar, porque o único princípio do casamento hoje é o amor.

Todos os países ocidentais estão caminhando para o casamento homossexual. Isso é inevitável e não é um problema para mim. Eu não sou homossexual e acredito que a democracia é a coexistência pacífica de modos diferentes de vida.

Eu entendo que os religiosos sejam hostis a isso, porque eles acham que existe uma lei natural, que vem do cristianismo de São Tomás de Aquino, segundo a qual a homossexualidade é chamada por eles de desordem.

Eu não sou crente, não sou católico, não sou cristão. Sou um laico democrata, então não sou hostil ao casamento homossexual. Deixemos o casamento homossexual de lado, posto que o mais relevante nessa discussão é que a filiação não é importante no amor. 

Eu adotei uma filha na Colômbia quando ela tinha quinze dias e eu tive outras duas filhas pelas vias habituais com uma mulher maravilhosa. Eu tenho três filhas, uma adotada e duas por relações biológicas e eu posso dizer a vocês que eu daria a minha vida por qualquer uma delas. Eu amo as três igualmente.

A educação dos filhos é constituída por três elementos: o amor, a lei e as grandes obras.

Se você não ama uma criança, você não lhe dá capacidade de resiliência, de reagir diante dos grandes acidentes da vida. Quando fomos amados por nossos pais, sempre se pode encarar as grandes tragédias.

O segundo elemento é a lei. Se você não transmite a autoridade da lei aos seus filhos, você vai fazer com que eles se tornem bárbaros. Mesmo sendo revolucionário, primeiro você tem que dar a lei: que o seu “sim” seja um “sim”, que seu “não” seja um “não”. Nunca negocie com as crianças.

O terceiro elemento é o saber, são as grandes obras. É preciso transmitir essas grandes obras às crianças. O que é um grande professor? É alguém que te faz amar mesmo a matemática, mesmo a geografia. É alguém que te faz descobrir saberes pelos quais você não tinha nenhum amor, nenhuma paixão.

A educação não tem nada a ver com a filiação biológica. Você pode transmitir tudo isso sem qualquer ligação sanguínea. Eu tenho amigos homossexuais casados cujos filhos são exatamente tão malcriados quanto os meus.

Daniel Scola: Quando o senhor foi Ministro na França enfrentou uma questão polêmica importante que foi a questão dos símbolos religiosos nas escolas. Passados 15 anos desse acontecimento, isso deu certo? Quais foram os benefícios dessa ação para a educação na França?

Luc Ferry: Funcionou muito bem. Não tem mais nenhuma polêmica sobre isso hoje. Você precisa entender que a França é um país muito ímpar, muito singular, que não parece com nenhum outro nesse aspecto.

Nós temos, na França, uma comunidade judaica de cerca de 1 milhão de pessoas e temos cerca de 8 milhões de pessoas que vieram da cultura muçulmana.

A França é o único país do mundo, com exceção de Israel, que tem, em um pequeno território, uma enorme comunidade judaica e uma enorme comunidade muçulmana.

Nas escolas, os árabes achavam que eram palestinos e os judeus achavam que era israelenses. Em 2002, houve um enorme aumento de atos racistas nas escolas. Então, eu disse basta a tudo isso: os cristãos tirem as cruzes, os muçulmanos tirem o véu, e os judeus tirem as estrelas de Davi e as quipás. Durante as aulas, não haveria mais sinais políticos e religiosos.

Nos anos que seguiram, eu recebi centenas de meninas me agradecendo, porque elas eram obrigadas a usar esse véu e elas queriam usar uma calça jeans como todo mundo. Elas não queriam ser obrigadas pelos pais, pelos irmãos e pelos homens em geral de exibir a sua submissão -  é disso que se trata o véu islâmico.

Eu acho que fiz um bom trabalho, mas isso fez com que eu tivesse de andar com proteção policial durante dois anos e eu posso garantir a vocês que não é nada divertido.  

(Com informações de Gaúcha ZH)