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Luc Ferry responde a Pergunta Braskem: amor e educação, relações poliamorosas e o impacto da tecnologia na humanidade

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Luc Ferry no Fronteiras Salvador (foto: Danilo Ribeiro/BAPRESS)
Luc Ferry no Fronteiras Salvador (foto: Danilo Ribeiro/BAPRESS)

Luc Ferry foi o conferencista da edição especial do Fronteiras do Pensamento, em Salvador, na noite de ontem, quarta (16). O filósofo francês tem cruzado o Fronteiras em território e cronologia. O filósofo esteve na primeira edição do projeto, em Porto Alegre, no ano de 2007, quando falou sobre os novos significados da educação. Em São Paulo, em 2011, abordou temas clássicos da filosofia como amor, filosofia, sabedoria e felicidade.

Desta vez, na capital baiana, na noite de quarta-feira (16), proferiu a conferência As duas eras do Humanismo: do ideal democrático à revolução do amor.

Fazendo jus ao título da fala, Ferry traçou um panorama histórico, dividindo o humanismo em duas fases: a primeira, no fim do século 18, foi marcada pelos direitos do homem e pela defesa da ideia de que o ser humano merece ser respeitado e protegido independentemente de quem seja, mas que, mesmo assim, existiu em um contexto de exploração e colonização. A segunda fase do humanismo, apontou o filósofo, surgiu em meados do século 20, originada pelo movimento da descolonização, que levou a um humanismo bastante diferente do primeiro, esclareceu: “É o humanismo do amor, embasado por esta impressionante revolução que é a da família moderna, da invenção do casamento por amor."

Após a conferência, Luc Ferry respondeu as perguntas do público presente, no auditório do Teatro Castro Alves. Dentre as questões, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nos canais digitais através do e-mail digital@fronteiras.com. Desta vez, a pergunta escolhida foi a de Verônica Domingues Almeida. Confira abaixo:

Verônica Domingues Almeida: No cenário atual da profissão docente no mundo, especialmente no Brasil, o amor pode ser concebido como construto de formação de professores? Que ressonâncias os discursos de amor podem reverberar na ação profissional do professor?
Luc Ferry:
A revolução da família moderna, a revolução do amor, ela tem impactos em todos os setores da sociedade. Penso que os professores amam seus alunos, existe uma relação afetiva com nossos alunos. Lecionei durante 40 anos e mantive amigos da minha primeira turma. Alguma coisa afetiva acontece, mas também na fábrica, entre um patrão arrogante e um patrão mais humanista , existe u m abismo. Não se esqueçam de que o reverso do amor é o ódio, os gregos tinham duas palavras muito próximas: Eros, amor, e Éris, a deusa da discórdia. Elas são bastante próximas, as duas faces da mesma medalha. Digo isso para que vocês possam entender que essa revolução do amor não é a paz. É a guerra também, representa também o ódio.

Em nosso trabalho, em meio aos nossos colegas de escritório, encontramos o nosso marido, a nossa esposa, encontramos também o amante e a amante, nosso amigos e nossos inimigos. É como no casamento, há divórcios, separações. Há também o ódio, o amor não é fácil.

Luc Ferry também foi questionado sobre as novas formas de amor, as relações compostas por diversas pessoas – o poliamor. Leia abaixo:

O que o senhor tem a dizer sobre as famílias poliamorosas, casamento entre mais de duas pessoas, relações consensuais entre todas as partes?
Luc Ferry
: É formidável, mas tem apenas um pequeno defeito: nunca funciona. É uma catástrofe. Porque, quando a gente se apaixona e a paixão é saborosa, toma conta de nós, o ciúme vem junto. Esses casais plurais funcionam desde que não haja paixão. Que seja apenas o sexo, daí está tudo bem. Mas, quando há paixão, o ciúme se instala. Por que temos ciúmes? Por que essa vontade de exclusividade com a mulher que a gente ama, com o homem que nós amamos? Por que se, quando temos filhos, podemos amar dois, três ou quatro filhos igualmente?

Na vida amorosa, a vida amorosa apaixonada, quando a paixão está realmente presente, quando sexo e paixão estão juntos, quando Eros e Ágape estão reunidos, acontecem coisas que são da ordem da singularidade absoluta. Quando fazemos amor, fazemos coisas estranhas, bastante privadas e íntimas. Quando o amor se junta ao sexo, é algo tão particular, que a possibilidade de ser a mesma coisa com a outra pessoa é insuportável. Assim, o ciúme se instala.

Do ponto de vista moral, não tenho nada contra relações formadas por muitos. Se está funcionando, muito bem. Mas, nunca acreditei que funcionaria. Em 1968, todos tentamos isso. Muitas pessoas viveram em comunidades, mas era um desastre total.

Luc Ferry também falou sobre o amor e a tecnologia:

O amor é o sagrado da vida contemporânea. Como o senhor vê o amor no mundo digital. Não está o amor cada vez mais fragilizado e descartável?
Luc Ferry:
É uma questão grandiosa, que vai além de mídias sociais. Vamos viver, nos próximos 20 anos, uma revolução digital no mundo da medicina que vai nos transformar totalmente. A medicina vai mudar mais nos próximos 30 anos do que nos 3.000 anos precedentes. Em razão da nanotecnologia, em razão da informática, do big data, que vai nos permitir resolver diversas questões. Ainda, em razão da inteligência artificial e da robótica. Por exemplo, se os senhores, os homens, tiverem um câncer de próstata, sobretudo, sejam operados em um hospital onde existem robôs. Os robôs são mil vezes melhores do que os cirurgiões humanos hoje em dia. Isso muda tudo.

E o que isso vai mudar com relação ao amor? É o transumanismo, muito importante nos Estados Unidos. Os Google também está engajado nisso e, quando o Google se engaja em algo, não é por acaso.

Nós vamos mudar a visão da medicina. Até hoje, a medicina era feita para curar. O modelo da medicina era terapêutico. Havia uma doença e a gente curava. Agora, vamos entrar em uma nova idade da medicina, aquela que tenta melhorar o ser humano. Vamos tentar aumentar a inteligência. Melhorar as emoções. A sensibilidade. A força.

Atrás do transumanismo, há um projeto. É o projeto de tentar resolver, através da fraternidade, a maior parte dos problemas do mundo. É uma preocupação de melhorar a espécie humana, melhorar não mais apenas a saúde, mas a inteligência e a fraternidade.

A tecnologia vai mudar as nossas vidas – mais nos próximos 30 anos do que nos 3.000 anos anteriores. As pessoas não sabem disso ainda, mas não é ficção científica. Convido vocês a já irem pra internet e pesquisarem o transumanismo para verem como, os americanos especialmente, com Google, Amazon, Facebook e Apple, estão mudando completamente o mundo. Sendo contra ou a favor, se interessem pelo tema, porque vai ser simplesmente inacreditável.


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