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Paul Auster no Fronteiras Porto Alegre: "A beleza do esforço humano é continuar fazendo perguntas"

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Paul Auster participa de videoconferência no Fronteiras POA
Paul Auster participa de videoconferência no Fronteiras POA

A distância não foi empecilho para Paul Auster cativar a plateia do Fronteiras do Pensamento, nesta segunda-feira (17), em Porto Alegre. Por conta de uma emergência familiar, o escritor não pôde viajar ao Brasil, mas participou do evento por meio de videoconferência ao vivo.

De um hotel em Nova York, Paul Auster respondeu perguntas do mediador e do público gaúcho sobre variados tópicos, como política, literatura, tecnologia e os Sentidos da Vida, tema do Fronteiras nesta temporada.

Sobre tecnologia, o escritor contou que não possui computador ou telefone celular e que prefere escrever seus livros com papel e caneta, passando o trabalho a limpo em uma máquina de datilografar que tem há 50 anos. Ele pontuou como a internet tem reunido pessoas em torno de ideias estapafúrdias e perigosas.

"Se alguém, por exemplo, há alguns anos, acreditasse que a Terra é plana, seria apenas uma pessoa isolada, refutada pelas pessoas do seu entorno. Hoje, esse indivíduo solitário pode entrar na internet e encontrar mais gente com a mesma crença. Eles podem se organizar e fazer ideias absurdas crescerem", argumentou.

Mas, a fala foi centrada sobre o poder da literatura, é claro. O autor de A trilogia de Nova York ressaltou que é possível não ser um ávido leitor, mas das histórias ninguém consegue escapar.


"Há pessoas imunes ao poder dos livros, e eu as respeito. No entanto, todos os seres humanos têm necessidade de histórias, mesmo quem não tem hábito de leitura. As histórias se tornam importantes assim que as crianças começam a falar. A violência e o terror dos contos de fada, por exemplo, permitem que as crianças convivam com seus medos e inquietações em um ambiente seguro", defendeu o escritor.

Estas inquietações vão ao encontro de como Paul Auster percebe o sentido da vida: a capacidade de questionar. Para ele, aprender a viver é compreender que perguntas não levam a respostas, mas sim ao aprimoramento das questões que formulamos sobre nós mesmos e sobre o mundo ao redor de nós.

"Quando somos muito jovens, começamos a nos fazer perguntas. O mundo é real? Estou imaginando o mundo? Quando eu era menininho, tinha estes pensamentos o tempo todo. Somos apenas um mundo ao lado de muitos outros mundos. Todas as possibilidades da vida, que achávamos que nos levariam a respostas, nos levam a mais perguntas."


Paul Auster: perguntas e respostas

Paul Auster


Em meio a tantos questionamentos, estava a pergunta Braskem, enviada para Paul Auster por nossos leitores e seguidores nas mídias sociais, patrocinados pela Braskem. Leia abaixo esta e outras respostas do escritor.

Lembre-se: o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento é Roger Scruton. Prepare seus questionamentos para o filósofo britânico, que chega aos palcos do projeto logo mais, já no início de julho.

Pergunta Braskem: Na obra 4321, Archie, o protagonista, vive quatro diferentes histórias, mas muitos aspectos se mantêm. Fiquei intrigada com a permanência dos elementos. Isto foi proposital? O senhor quis passar alguma ideia de que existe algo no ser humano que permanecerá apesar das circunstâncias?

Paul Auster: Sim e não. Acho que todas as pessoas, ao longo de suas vidas, imaginam de novo e de novo: “e se?” E se eu tivesse me tornado outra coisa em vez de ser escritora? E se eu tivesse tomado aquela decisão e não essa? E se eu não tivesse encontrado essa pessoa ou aquela pessoa? E se eu tivesse perdido o ônibus e tivesse que esperar o próximo ônibus e, enquanto estivesse esperando, aquela mulher linda sentasse do meu lado, nós começássemos a conversar e ela se tornasse minha esposa dois anos depois? E se eu nunca tivesse conhecido essa mulher? Todas essas permutações possíveis de uma vida.

Então, eu queria explorar isso nesse romance, que é um romance bem grande, claro, mas porque são quatro romances em um. O que vocês precisam pensar do Archie é que cada uma das quatro versões dele é o mesmo ser genético, tem os mesmos pais, o mesmo corpo, a mesma capacidade cerebral, mesmo tudo para começar.

Portanto, em nenhum dos quatro casos, essa criança tem algum tipo de privação física, ele não sofre fome, ele consegue se desenvolver normalmente, ele não sofre nenhuma das forças externas que podem destruir ou prejudicar uma criança.

Então, naturalmente, eles têm o mesmo corpo, são todos atléticos, têm o mesmo vício, todos interessados em música e todos gravitam sob alguma forma de escrita.

Acho que essas coisas, nós podemos chamar de fatos genéticos, mas o que os faz diferentes, e conforme eles envelhecem as histórias ficam mais e mais diferentes, são as circunstâncias dos pais, as famílias.

Cada um cresce em uma cidade diferente, tem um grupo de amigos diferente, o casamento dos pais é diferente em cada uma das histórias.

Em uma versão o pai tem muita dificuldade no trabalho. Na outra versão, o pai é muito rico. Na outra, o pai é morto em um acidente quando o menino tem apenas sete anos, então o menino se desenvolve de uma maneira completamente diferente. No outro caso, os pais se divorciam, o que não é o caso nas outras versões. Isso afeta aquele Archie de uma forma particular.

O que eu estou tentando dizer é que nós somos todos. Em inglês, nós temos essa expressão interessante que é natureza e cuidado [nature e nurture]. A natureza, porque a gente nasce, e o cuidado, como somos nutridos, como nos desenvolvemos, o que nos é alimentado, e essas coisas se sobrepõem.

Como você cuida de uma criança vai afetar não apenas o seu lado psicológico, mas também os lados físico e químico no seu cérebro. Então, somos ambos: o ambiente e as capacidades inatas de qualquer indivíduo.

Como romancista, como você percebe a maneira como as pessoas consomem a literatura? Por exemplo, com o Twitter, como você acredita que os romances podem se adaptar a esse mundo, esses tempos que estão mudando, e ainda chamar a atenção das pessoas, que têm um espaço de atenção tão menor?

Paul Auster: Primeiro, precisamos compreender que, na história do mundo, o romance é um formato relativamente novo. O romance floresceu há aproximadamente 300 anos. Antes disso, quando as pessoas contavam uma história longa, seria na forma de poesia. A prosa era muito rara.

A maioria das pessoas não leem livros, não leem romances. Mas, eu acho que, ainda assim, a leitura de romances é de alguma forma consistente, constante, nessa porcentagem do público que quer ler coisas mais longas, que não se satisfaz com o Twitter, ou com uma história de uma página, querem mais do que isso.

Um livro pode te carregar, pode te levar a tantos mundos diferentes, de uma forma como nos filmes. Os livros transportam, mas você precisa estar à altura deles.

Eu acho muito interessante que, nesse mundo tecnológico, em constante transformação, os e-books estão agora no mercado e as pessoas podem ler os livros nas suas telas se quiserem.

Nos Estados Unidos, no início, as pessoas estavam fascinadas por aquilo. As vendas estavam bem fortes, cada vez mais fortes no decorrer do tempo. Mas, agora, a novidade já passou e as vendas dos e-books estão caindo e as vendas dos livros físicos estão aumentando de novo.

Há mais pessoas lendo livros em papel do que nas telas. Acho que é um experimento interessante. A leitura na tela é boa para o avião, para uma viagem. Você pode colocar 50 livros no seu computador se você quiser, então sua mala fica bem mais leve.

Mas, você quer ler Shakespeare na tela de um computador? Creio que as pessoas compreendem mal. A tecnologia dos livros antigos, na verdade, é muito boa, porque é portável, é leve. As páginas têm a vantagem de você poder ir para trás e para frente de maneira mais rápida, muito mais rápida que no computador.

Se você quiser voltar para a página 17, você pode voltar de maneira muito rápida. Em um computador, às vezes você nem tem o número das páginas, ele apenas diz “agora você leu 43% do livro”. Você não pode colocar o seu marcador onde quiser, você não pode assinalar, fazer marcas, rabiscar na sua página.... Eu não acho que os livros em papel irão sumir, porque são bons e funcionam.

Você se sente assombrado por fantasmas de seus trabalhos passados ou por trabalhos de outros autores ao escrever novos livros?

Paul Auster: Não. É algo engraçado. Eu os coloco para trás. Eu os deixo no passado. Aquele impulso daquele livro termina quando eu concluo o livro.

Penso nos personagens dos livros passados de vez em quando, com um carinho, talvez até um certo desejo.

Às vezes, tento imaginar o que eles estão fazendo agora, porque todos são meus filhos. Tenho esse sentimento paternal em relação a eles, me sinto responsável por eles.

Mas, isso é minha vida emocional, que não tem nada a ver com minha vida de escritor. Minha vida de escritor, ela está sempre no adiante, no próximo projeto.

Qual é a ideia mais poderosa que um livro pode conter após a invenção da internet e de outras plataformas virtuais? Os livros ainda têm algum tipo de poder hoje em dia?

Paul Auster: Eu acredito que sim. Aqueles de nós que amam ler, claro que para nós os livros ainda têm muito poder, como tentei explicar mais cedo.

Muitas pessoas são imunes ao poder dos livros. Elas não querem ler livros, não gostam de ler livros, e eu as respeito. Mas, algo mais profundo do que isso, que é que todos os seres humanos precisam de histórias.

As histórias se tornam importantes para nós assim que nós começamos a falar e a compreender a linguagem.

As crianças são famintas por histórias e você se pergunta qual interesse elas podem ter quando o mundo é tão interessante. O mundo está ali, na frente do seu nariz. Por que você tem que ficar ali no escuro com seu pai, sua mãe, sua irmã ali lhe contando uma história? Por que isso é tão empolgante para uma criança?

Bom, é porque lá você está no seu corpinho de cinco anos e você está viajando para outros lugares. A sua imaginação é de repente ativada, você está vendo coisas na sua mente.

Você também consegue viver aventuras que podem ser muito aterrorizantes, na verdade. Coisas que, se acontecessem a você no mundo real, você provavelmente ia cair morto. Monstros, cobras e tudo isso.

Mas, aquela violência dos contos de fadas é algo que as crianças gostam, porque permite que elas vivam e passem pelos seus próprios medos, medos profundos em um ambiente seguro, porque os livros e as histórias não podem te machucar, não podem te ferir, não podem te matar.

Uma vez que nos acostumamos a isso, começamos a querer histórias, temos essa fome por histórias. As pessoas lerem romances ou não é secundário ao fato de que as pessoas estarão lendo histórias em quadrinhos, lerão todos os tipos de coisas que não são romances. Elas assistirão a histórias na TV, na tela de cinema.

Todo mundo precisa das histórias e eu acredito que a maneira mais interessante de se observar isso é tentar imaginar um mundo sem histórias. Você não consegue, porque cada cultura, desde o início da sociedade mais primitiva da humanidade, contou histórias sobre o nascimento do mundo, sobre o nascimento do seu povo, histórias explanatórias, tentando fazer sentido no mundo.

Isso acontece porque o mundo é um lugar muito misterioso, confuso e assustador. Nós escrevemos histórias para nos guiar, para uma compreensão mais profunda do que está à nossa volta.

As histórias trazem coerência quando lá fora tudo é caos. Essa claridade da contação de histórias nos ajuda a compreender o caos.

Por fim, não importa para mim se as pessoas estão lendo na tela ou ouvindo um audiolivro ou o que for. O que importa são as histórias. As histórias são o que interessam. Quanto melhor forem as histórias, melhor para todos nós.

Quando você decide que uma ideia é boa o suficiente para te levar a escrever um livro?

Paul Auster: Excelente pergunta. Normalmente, alguma coisa vai acontecer: eu vou escutar alguma coisa, vou escutar um ritmo e eu vou dizer: ah, isso é interessante? E que tal isso? E daí eu penso um pouquinho mais e deixo, não forço, deixo que as coisas venham para mim.

Aos pouquinhos, no decorrer de semanas, meses, ou até mesmo anos – às vezes, preciso de 15 anos para conseguir escrever um livro sobre o qual eu comecei a pensar décadas atrás.

O fato é que normalmente eu não quero fazer isso, mas aí a ideia se torna tão forte, tão poderosa, que me coloca em um canto e me diz: você tem que me escrever, tem que fazer isso agora. Daí, eu faço.

Escrevo tão forte e rápido e profundamente quanto eu posso. Não consigo lhe falar o quão exaustivo é escrever. Todos os dias, passo 8h na minha sala. Escrevo por 8h. Se eu conseguir tirar uma página dessas 8h, não preciso nem ter finalizado, eu já digo que foi um dia bom de trabalho, porque o trabalho da escrita é fazer parecer fácil para o leitor, certo?

Quando você está escrevendo, o seu cérebro está indo para cinco direções diferentes ao mesmo tempo. Escrever um romance é como correr uma maratona: você precisa ir devagar e sempre. Se nós corrermos muito, se eu ficar acordado até muito tarde, se eu não parar às 17h ou às 18h da tarde, se eu continuar indo, eu estou arruinado para o próximo dia.

Preciso parar e parar de pensar nisso para o resto da noite. Preciso fazer outra coisa, conversar com a minha esposa, sair com meus amigos.

Não posso prosseguir, porque acredito no poder do inconsciente. O inconsciente pode te ajudar se você descansar bem à noite e acordar de manhã.  De repente, o que era um problema ontem está resolvido, você sabe como fazer hoje.

É um mistério a escrita de um livro. Eu tenho feito isso por todos esses anos e eu ainda não entendo completamente. Você sofre quando está escrevendo. Às vezes, é muito difícil. Às vezes, é um pouco melhor.

Me sinto tão perdido no trabalho que eu não fico pensando no quão difícil é escrever. A grande diferença entre ser um jovem escritor e um velho escritor é isso. É o mesmo nível de dificuldade.

Tenho as mesmas dificuldades que sempre tive, nunca muda. Mas, quando eu era mais novo e entrava em um beco sem saída, pensava ‘meu deus, o livro não é bom, nunca vou terminar’. Ficava duas ou três semanas sem saber o que fazer, mas depois continuava.

Agora, que estou velho, quando isso acontece, eu penso ‘bem, fiquei emperrado, já me aconteceu, mas se esse livro vale a pena ser escrito, se é algo que eu preciso fazer, a resposta já está lá e virá para mim. Sempre vem. Em todos esses anos, eu só deixei de lado dois livros.