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Peter Sloterdijk é o convidado do Fronteiras São Paulo desta quarta

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Peter Sloterdijk (foto: Fronteiras do Pensamento | Luiz Munhoz)
Peter Sloterdijk (foto: Fronteiras do Pensamento | Luiz Munhoz)

"Não há choque de civilizações, mas uma colisão dos sistemas simbólicos de imunização que nós chamamos de 'culturas'. Trata-se, então, da necessidade de civilizar culturas que já não se entendem como 'civilizações'."

Assim, Peter Sloterdijk define o tema de sua conferência desta quarta (5) no Fronteiras São Paulo, intitulada Sobre a Fúria de Titãs do século XXI.

A "imunização" a que se refere o filósofo alemão é um dos conceitos basilares de Esferas, sua monumental obra em três volumes. O primeiro traz o subtítulo Bolhas e acaba de ser lançado no Brasil pela Estação Liberdade; os volumes seguintes são Globos e Espumas.

Em conjunto, as três partes descrevem o processo pelo qual o ser humano parte da "bolha", da redoma protetora representada por sua simbiose com a mãe, para aos poucos estabelecer múltiplas relações intersubjetivas em esferas amplificadas, "globais": a sociedade e, sobretudo, o Estado-Nação – mas também a religião, as teorias metafísicas e a tecnologia.

Tais construções (psíquicas e sociopolíticas) constituem escudos imunológicos contra as agressões do ambiente e do Real (no sentido psicanalítico daquilo que eclode como um Outro ainda não simbolizado, ameaçador). Na era da globalização, ironicamente, a própria ideia do "globo" explodiu num mar de espumas onde "onde tudo se tornou centro", varrendo as grandes narrativas imunizadoras.

"A quebra das cosmologias clássicas leva a formas de vida individualistas. O individualismo é o reino dos seguros privados, no lugar dos seguros divinos que compartilhávamos no passado. O cosmos não é mais nossa casa. Nossa casa se tornou nosso microcosmos", diz Sloterdijk.

A contrapartida coletiva desse desamparo individual é a eclosão dos fundamentalismos e o retorno a valores tradicionais em meio às massas lançadas ao relento pela exclusão globalizante:

"Os movimentos fundamentalistas mostram que a construção de 'casas' e seguros privados, como sistemas de solidariedade indireta, ainda não é capaz de atender às necessidades daqueles que são simbolicamente e materialmente 'sem teto'."

Diante disso, qual seria a tarefa do filósofo? "Tenho dificuldade com a ideia de que os filósofos devam ter tarefas. Em nosso mundo, o principal problema é a reformatação dos sistemas imunitários coletivos. Eu diria que pensar o formato real das estruturas imunitárias –anteriormente conhecidas como 'culturas'– é a política do filósofo".

Com uma obra que se alimenta não só da tradição filosófica mas também da psicologia, da antropologia, da teologia e das teorias evolucionistas, Sloterdijk diz que Esferas pode ser lido como um "romance monstruoso":

"Seus heróis não são pessoas, mas as formas que construímos, nas quais respiramos e pensamos. Pode soar meio 'heideggeriano', mas o objetivo é ir além da fórmula básica [de Heidegger]: ser-no-mundo. Nunca estamos realmente 'no mundo', mas quase sempre em contêineres artificiais. Para mim, 'ser' significa produzir esferas como invólucros nos quais os seres humanos levam suas vidas."

(via Folha)