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Valter Hugo Mãe responde a Pergunta Braskem: a beleza, o grotesco e as virtudes humanas

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Valter Hugo Mãe e Edney Silvestre no Fronteiras (foto: Danilo Ribeiro / Ag: BAPRESS)
Valter Hugo Mãe e Edney Silvestre no Fronteiras (foto: Danilo Ribeiro / Ag: BAPRESS)

"Após a tristeza de terminar um livro, vem uma animação estranha, como se estivéssemos solteiros a começar uma nova sedução."

A frase de Valter Hugo Mãe traduz a essência de sua fala ao público de Salvador, na noite desta segunda-feira (05), na conferência especial que celebrou os 10 anos de Fronteiras. A literatura, a felicidade e a complexa gama de desejos e sentimentos que envolvem estes eixos da vida humana foram o tema da conferência intitulada Eu ainda estou procurando acreditar que existo.

Para um Teatro Castro Alves repleto de soteropolitanos encantados por ouvir a vida convertida em poesia, o escritor português, em conversa com o jornalista Edney Silvestre, definiu e enalteceu a felicidade: “A natureza, por mais esplendorosa que seja, não designou o homem para ser feliz. A felicidade pra mim é uma construção cultural. Nossos pais não podem garantir o que nos dá a felicidade, porque a felicidade é uma construção de consciência. É algo muito individual. A felicidade é um sentimento que se coloca na nossa vida como uma estrutura em cima da qual construímos tudo, inclusive a tristeza."

Após sua fala, Hugo Mãe respondeu as perguntas do público presente no TCA. Dentre elas, a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais. Confira abaixo a questão selecionada, sobre a nova obra de Hugo Mãe, que será lançada nas livrarias portuguesas em outubro (em novembro no Brasil), e leia a resposta do convidado. Veja também os principais tweets do público presente sobre o evento. Agradecemos a todos pela participação e pelo carinho.

Pergunta: O título de sua nova obra é Homens Imprudentemente Poéticos. Pode nos explicar o título? Por que “imprudentemente", sendo a prudência uma das mais valiosas virtudes na filosofia?

Valter Hugo Mãe: As primeiras pessoas para quem falei sobre o título entraram em pânico, porque acharam que "imprudentemente" é uma palavra que ninguém saberia dizer, que ninguém lembraria exatamente. Mas, daí, cada um pode dizer o que quiser. Acho que “homens" e “poéticos" ficam. E, no meio, cada um vai lembrar o que lhe parecer. Não tenho problema.

Mas, nesse livro, eu conto a história de dois vizinhos. O Itaro, que é um artesão, e o Saburo, que é um oleiro. Os vizinhos têm tudo para comungarem, porque vivem em uma espécie de igual miséria. Mas, eles desenvolvem uma inimizade profunda e, cada gesto que eles têm um para com o outro se passa no mais poético dos ambientes. Tudo na vida deles, naquele Japão antigo, é uma proposta de um lirismo, de uma beleza. A forma como eles agem, porém, é imprudente. Então, eles, de algum modo, perderam a prudência poética e são grotescos.

Eu não posso dizer mais, porque (risos)... Há uma coisa que eu vou admitir: quando meus livros acabam tão recentemente, eu não sei falar sobre eles. Eu fico muito confuso, eu não sei ainda. Eu escrevo um livro e tenho medo de que ele seja uma porcaria. Quando ligo para alguém para saber o que achou da obra, pergunto "gostou ou não gostou?", a pessoa diz "gostei" e eu já desligo, antes da pessoa dizer um "mas".

Um amigo que leu a obra não gostava do Japão. Isso nunca me passou pela cabeça, como é possível alguém não gostar do Japão? Ao ponto de ler o livro inteiro pensando mais no favor que me fazia do que propriamente explorando as possibilidades do livro... Ou porque o Japão o aborrece? (risos)