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A fragilidade do bem e o vigor do humanismo

Filósofa norte-americana, Martha Nussbaum é uma influente intelectual da atualidade nos Estados Unidos. Seu trabalho é reconhecido por reunir estudos dos clássicos, da antropologia, da psicanálise e da sociologia, na busca por eudaimonia, palavra originada do grego que representa uma vida plena e próspera.

Entre as consagrações recebidas estão o Prêmio Kyoto e a Dotação Nacional para as Humanidades, honra concedida pelo governo dos Estados Unidos. Em 2004, juntamente com o Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, fundou a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade Humanos.

MARTHA NUSSBAUM está confirmada na temporada 2017 do Fronteiras do Pensamento. Garanta sua presença nas conferências deste ano em Porto Alegre ou São Paulo. Dúvidas? Ligue para nossa Central de Relacionamento diariamente, das 10h às 17h, inclusive feriados e fins de semana.

Em artigo exclusivo, escrito para a Revista Fronteiras do Pensamento, o historiador e professor da UFRGS Francisco Marshall fala sobre Martha Nussbaum, sobre como "a coragem e lucidez de seus posicionamentos éticos e a atualidade de sua autoria humanista" fazem da filósofa uma pensadora-chave para as humanidades na contemporaneidade. Veja abaixo:

A fragilidade do bem e o vigor do humanismo | Francisco Marshall

A filósofa e classicista norte-americana Martha Craven Nussbaum despontou para a consagração internacional em 1986, com o livro The fragility of goodness. Nas mais de 500 páginas deste tratado, Nussbaum examina tragédias gregas de Ésquilo (Os 7 contra Tebas e Agamemnon), Sófocles (Antígona) e Eurípides (Hécuba), e obras de Platão (Protágoras, República, Banquete e Fedro) e Aristóteles (Ética a Nicômaco, Política, Poética e Retórica), em busca de argumentos para examinar ética, razão, destino e felicidade. É obra de grande fôlego, que Camille Paglia apontou como uma das mais altas realizações acadêmicas do século 20.

Publicado no Brasil como A fragilidade da bondade, o tratado examina respostas gregas para os desafios éticos de se construir uma boa vida por meio de boas escolhas, diante de ameaças do destino que ultrapassam nossa capacidade de controle e provocam crises angustiantes. Os impasses da tragédia grega, aponta, levam a dilemas em que os imperativos da práxis se impõem e exigem o cumprimento de deveres éticos na esfera pública, com o que o leitor/espectador encontra um amparo para compreender as difíceis escolhas que a vida impõe, e a eventual falta de soluções positivas.

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Após examinar tragédias, a vencedora do prêmio Kyoto em 2016 (a mais alta honraria japonesa) vale-se do idealismo racionalista de Platão para contrastar o otimismo da filosofia diante do peso da fortuna. Ao final, a filósofa, hoje professora de Lei e Ética na Escola de Direito da Universidade de Chicago, segue os passos de Aristóteles para reconhecer o poder do destino trágico, ameaçando a vida mesmo que esta possa guiar-se pela busca prudente da felicidade (eudaimonia), mediante boas escolhas – a grande meta da filosofia grega em sua era de maturidade.

Este livro é referência preciosa nos estudos clássicos e oferece muitas questões tremendamente provocativas com altíssima densidade de leitura de obras gregas fundamentais. A autora é humanista de vanguarda, e posiciona-se com reflexão erudita diante de problemas contemporâneos como a justiça social em situações críticas (Fronteiras da justiça, 2013) e do papel da educação no fortalecimento do regime democrático (Sem fins lucrativos, 2015). Igualmente, questões de gênero que marcam a geração acadêmica que floresceu nos anos 1980 a caracterizam como filósofa feminista, o que aparece em Sexo e justiça social (1999, sem tradução), em que examina as ainda muito atuais questões advindas dos preconceitos de gênero e opção sexual.

A altíssima qualidade acadêmica de sua obra, a elegância de sua escrita, a coragem e lucidez de seus posicionamentos éticos e a atualidade de sua autoria humanista justificam a imensa admiração que Martha C. Nussbaum colhe em todos os círculos do pensamento educado. Teremos com ela uma chave de ouro para o excelente Fronteiras do Pensamento 2017.