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Por que a democracia precisa das humanidades?

Humanidades e Artes são cruciais para a democracia, diz Nussbaum
Humanidades e Artes são cruciais para a democracia, diz Nussbaum

Em Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades (Martins Fontes, 2015), a filósofa norte-americana Martha Nussbaum defende que a educação precisa resistir às tentativas de reduzir o ensino a uma ferramenta do Produto Interno Bruto.

Lançada após a crise de 2008, em que diversos países do mundo cortaram verbas da cultura e das artes, a obra foi escrita como um manifesto de alerta sobre os objetivos mais profundos da educação.

Nussbaum afirma que priorizar aplicações técnicas, em detrimento das humanidades, as democracias ocidentais solapam os próprios fundamentos e aproximam-se do modelo cultural de regimes autoritários como China e Cingapura.

A principal advertência de Nussbaum, professora da Universidade de Chicago conhecida pelos trabalhos sobre ética e identidade, é que os sistemas democráticos não sobrevivem sem o estímulo à imaginação e ao pensamento crítico, faculdades que, segundo ela, são desenvolvidas de modo crucial (ainda que não exclusivo) pela arte e pela filosofia.

No centro desse argumento está a noção de imaginação empática, a capacidade de colocar-se no lugar do outro que, para Nussbaum, é uma condição para a construção de sociedades solidárias.

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Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades | Martha Nussbaum

Atravessamos uma crise de grande amplitude e de grande envergadura internacional. Não falo da crise econômica mundial iniciada em 2008; falo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da democracia: a crise planetária da educação.

Profundas alterações estão sendo produzidas naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos jovens e ainda não lhe aferimos o alcance. Ávidos de sucesso econômico, os países e os seus sistemas educativos renunciam imprudentemente a competências que são indispensáveis à sobrevivência das democracias.

Se esta tendência persistir, em breve, haverá pelo mundo inteiro gerações de máquinas úteis, dóceis e tecnicamente qualificadas, em vez de cidadãos realizados, capazes de pensar por si próprios, de pôr em causa a tradição e de compreender o sentido do sofrimento e das realizações dos outros.

De que alterações estamos falando? As Humanidades e as Artes perdem terreno sem cessar, tanto no ensino primário e secundário como na universidade, em quase todos os países do mundo. Consideradas pelos políticos acessórios inúteis, em uma época em que os países precisam se desfazer do supérfluo para continuarem a ser competitivos no mercado mundial, estas disciplinas desaparecem em grande velocidade dos programas letivos, mas também do espírito e do coração dos pais e das crianças.

Aquilo que poderíamos chamar de aspectos humanistas da ciência e das ciências sociais está igualmente em retrocesso, já que os países preferem o lucro de curto prazo, através de competências úteis e altamente aplicadas, adaptadas a esse objetivo.

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Procuramos bens que nos protegem, satisfazem e consolam — aquilo que Rabindranath Tagore chamava de nosso «invólucro» material. Mas, parecemos esquecer as faculdades do pensamento e da imaginação, que fazem de nós humanos, e das nossas interações — as relações empáticas que não são simplesmente utilitárias.

Quando estabelecemos contatos sociais, se não aprendermos a ver no outro um outro nós, imaginando-lhe faculdades internas de pensamento e emoção, então a democracia é deixada à má sorte, porque ela assenta precisamente no respeito e na atenção dedicados ao outro, sentimentos que pressupõem que os encaremos como seres humanos e não como simples objetos.

Hoje, mais que nunca, dependemos todos de pessoas que nunca vimos. Os problemas que temos de resolver – sejam de ordem econômica, ecológica, religiosa ou política – têm envergadura planetária. Nenhum de nós escapa à interdependência mundial.

As escolas e as universidades do mundo inteiro têm, por conseguinte, uma tarefa imensa e urgente: cultivar nos estudantes a capacidade de se considerarem membros de uma nação heterogênea (todas as nações modernas o são) e de um mundo ainda mais heterogêneo, bem como uma noção da história dos diferentes grupos que o povoam.

Capacidade de referenciar culturas

Se o saber não é a uma garantia de boa conduta, a ignorância é quase infalivelmente uma garantia de maus procedimentos. A cidadania mundial implica realmente o conhecimento das humanidades? O indivíduo necessita certamente de muitos conhecimentos factuais que os estudantes podem adquirir sem formação humanista – memorizando, nomeadamente, os fatos em manuais padronizados (supondo que não contêm erros).

Contudo, para ser um cidadão responsável, necessita de algo mais: de ser capaz de avaliar os dados históricos, de manipular os princípios econômicos e de exercer o seu espírito crítico, de comparar diferentes concepções de justiça social, de falar pelo menos uma língua estrangeira, de avaliar os mistérios das grandes religiões do mundo.

Dispor de uma série de fatos sem ser capaz de os avaliar, é pouco mais do que ignorância. Ser capaz de se referenciar em relação a um vasto leque de culturas, de grupos e de nações e à história das suas interações, isso é que permite às democracias abordar, de forma responsável, os problemas com os quais se deparam atualmente.

A capacidade – que quase todos os seres humanos têm, em maior ou menor grau – de imaginar as vivências e as necessidades dos outros deve ser amplamente desenvolvida e estimulada, se queremos ter alguma esperança de conservar instituições satisfatórias, ultrapassando as múltiplas clivagens que existem em todas as sociedades modernas.

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«Uma vida que não se questiona não vale a pena ser vivida», afirmava Sócrates. Cético em relação à argumentação sofista e aos discursos inflamados, pagou com a vida a sua fixação neste ideal de questionamento crítico.

Hoje, o seu exemplo é a base do ensino da cultura geral da tradição ocidental e ideias similares estão na base do mesmo ensino na Índia e noutras culturas. Se insistirmos em prover aos alunos uma série de ensinamentos da área das Humanidades, é porque cremos que essas matérias os estimularão a pensar e a argumentar por eles mesmos, em vez de se resumirem simplesmente à tradição e à autoridade; e porque consideramos que, como proclamava Sócrates, a capacidade de raciocinar é importante em qualquer sociedade democrática, assim como nas sociedades multiétnicas e multiconfessionais.

A ideia de que cada um possa pensar por si próprio e relacio­nar-se com os outros num espírito de respeito mútuo é essencial à resolução pacífica das diferenças, tanto no seio de uma nação como num mundo cada vez mais dividido por conflitos étnicos e religiosos.

Para compreenderem efetivamente o mundo complexo que os cerca, os cidadãos não têm suficientes conhecimentos factuais ou de lógica. É preciso um terceiro elemento, estritamente ligado a esses dois, a que poderia chamar-se imaginação empática. Noutros termos, a capacidade de se pôr no lugar do outro, de ser um leitor inteligente da história dessa pessoa, de compreender as emoções, os desejos e os sentimentos que ela pode sentir.

Essa cultura da empatia está no centro das melhores concepções modernas de educação democrática, tanto nos países ocidentais como nos demais. Isso deve fazer-se em grande parte no seio familiar, nas escolas, e mesmo as universidades desempenham também um papel importante. Para preenchê-lo corretamente, devemos atribuir um espaço nos programas educacionais para as Humanidades e para as Artes, visto que melhoram a capacidade de ver o mundo através dos olhos do outro.

*Excerto da versão condensada do primeiro capítulo da obra, extraído da edição portuguesa da Courrier International #175, via Estrolabio.