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Gilles Lipovetsky: A busca pela leveza se tornou uma pesada obsessão

Lipovetsky visita o Pop Center,
Lipovetsky visita o Pop Center, "Camelódromo", em Porto Alegre (foto: Sérgio Moraes)

"Gadgets, propagandas divertidas, reality shows e games, música popular e de programas de auditório, espetáculos e animações contínuas: a oposição entre o econômico e o frívolo se embaralhou; nosso princípio de realidade se confunde agora com o princípio de superficialidade.

Universo da necessidade e universo fútil se entrelaçam, se cruzam, se hibridam: a lógica da leveza não é mais o 'outro' da realidade econômica; ela é seu coração." - Gilles Lipovetsky, Da leveza - rumo a uma civilização sem peso (Ed. Amarilys, 2016)

Considerado um dos principais e mais originais pensadores sobre a sociedade de hoje, Lipovetsky é um teórico da hipermodernidade cujas ideias refletem mais sobre a alimentação, a moda, a tecnologia, as dietas e o lazer do que as macroestruturas econômicas, políticas ou sociais.

Gilles Lipovetsky está confirmado no Fronteiras do Pensamento 2017. O francês sobe ao palco do projeto no mês de junho, para debate especial com o economista Eduardo Giannetti (POA, 05; SP, 07). Conheça a programação completa deste ano em Porto Alegre e em São Paulo.

VENDAS ABERTAS | SÃO PAULO / PORTO ALEGRE

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Este amplo e "inusitado" campo de pesquisa (ao menos para um filósofo com tamanho respeito do mundo acadêmico), resultou em outra obra inovadora, que apresenta as transformações do mundo nos mais diversos aspectos como um caminho em direção à civilização da leveza.

Na análise de Lipovetsky, o leve invadiu nossa rotina e transformou nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal. Na sociedade pós-moderna, o mundo virtual, os dispositivos móveis, os nanomateriais estão mudando nosso cotidiano. Por todos os lados, a ordem é conectar, miniaturizar, desmaterializar.

Na contramão dessa tendência, contudo, ele defende que a vida parece cada vez mais pesada e difícil de suportar; ironicamente, diz ele, seria essa leveza que alimenta a sensação de peso. Os imperativos de uma vida mais leve – dietas, desintoxicações, desaceleração, alívio do estresse, meditação e outras práticas – vêm acompanhados por demandas exigentes.

Às utopias do desejo, sucederam as expectativas de leveza do corpo e do espírito, de uma vida cotidiana menos estressante, de um presente menos pesado de carregar: viver melhor não se separa mais da leveza de ser. Em entrevista, Lipovetsky fala mais sobre a obra. Leia abaixo:

No seu livro, o senhor avalia que a busca pela leveza se tornou uma pesada obsessão. Esse é um círculo vicioso?
Todo o universo da leveza é, para as pessoas, cada vez menos leve. Por isso eu falo em civilização do leve, que tem só uma aparência de leveza. Nas nossas democracias, vemos a multiplicação dos pós-materialismos, como o budismo, o zen, a meditação. Tudo para nos ajudar a respirar um pouco.

Pagamos o preço do individualismo, do estresse, da ansiedade. Ao mesmo tempo, as pessoas veem vídeos, ouvem música, saem de férias, viajam. É um paradoxo.

Eu acredito que nós estamos vivendo uma nova cultura democrática. Eu pertenço à geração da década de 1960 que tinha uma retórica revolucionária, que não era leve. Não é mais esse o espírito do tempo.

As pessoas não sonham mais com revolução, elas sonham com uma existência mais leve, mais equilibrada, menos conflituosa. Isso é infinitamente mais difícil porque se trata da busca eterna pela felicidade. E a solução para a felicidade nós não temos.

A obsessão pela leveza é um desdobramento do hiperconsumismo e do hiperindividualismo, que o senhor já abordou em livros anteriores?
A obsessão pela leveza é uma manifestação desses fenômenos, mas traz uma dimensão nova. Nós vivemos em um mundo tecnologicamente leve.

Nos últimos 50 anos, desenvolvemos uma série de técnicas que fizeram com que a leveza não fosse mais um sonho. Hoje, você tem a possibilidade de viajar o mundo inteiro em um celular que cabe no bolso, muito mais potente do que os primeiros computadores que pesavam uma tonelada. É inacreditável!

A civilização do leve conjuga três lógicas: a tecnocientífica, a capitalista e a individualista. E estamos apenas no início. O poder hoje está em dominar os menores elementos: a inteligência artificial, a engenharia genética, isso é o ultraleve. Antes, o poder era pesado. Castelos, ouro, canhões. Hoje, as maiores potências vendem bytes.

A civilização do leve valoriza o prazer, o consumo, o lazer e o entretenimento. Precisamos dessa leveza, mas ela precisa ter limites. É preciso dar às pessoas ferramentas para que elas construam uma leveza rica, não uma leveza pobre. Passar três horas no shopping é leve, mas é pobre. Uma hora, a leveza vira vazio.

É possível estabelecer uma relação entre a civilização do leve e o que você chama de “capitalismo artista"?
O capitalismo industrial tem na produção o seu motor. Nessa época, a produção é separada de outras manifestações, como a arte e a moda. A fábrica é a fábrica, a arte é a arte. Cada universo é bem separado.

A partir dos anos 1950, o consumo passa a ser o elemento mais dinâmico. Assistimos, então, à hibridação desses universos antes separados, o que dá uma leveza ao que antes era pesado. Produção e criatividade se misturam, criando o que chamo de capitalismo artista. A Apple é o exemplo perfeito desse capitalismo. É a hibridação entre o produto utilitário e o produto criativo.