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"A Cidade e os Cachorros", o primeiro romance de Mario Vargas Llosa

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Confira um excerto do primeiro romance de Mario Vargas Llosa: "A Cidade e os Cachorros". Publicado em 1963, o livro narra o cotidiano dos alunos do Colégio Militar Leoncio Prado, de Lima. 

O Escravo estava só e descia a escadaria do rancho para o descampado quando duas tenazes seguraram seus braços e
uma voz murmurou junto a seu ouvido: “Venha com a gente, cachorro.” Ele sorriu e os seguiu docilmente. Ao redor, muitos dos companheiros que havia conhecido pela manhã eram abordados e arrastados pelo gramado rumo aos alojamentos de quarto ano. Nesse dia não houve aula. Os cachorros ficaram nas mãos dos cadetes do quarto ano do almoço até o jantar, umas oito horas. O Escravo não lembra a que seção foi levado, nem por quem. Mas o alojamento estava tomado de fumaça e uniformes, ouviam-se risadas e gritos. Mal cruzou a soleira, ainda com o sorriso nos lábios, sentiu um golpe nas costas. Caiu no chão, girou sobre si mesmo, ficou estendido ali, de boca para cima. Tratou de se levantar, mas não conseguiu: um pé se instalara sobre seu estômago. Dez rostos indiferentes contemplavam-no como um inseto; não deixavam que visse o teto. Uma voz disse: 

— Para começar, cante cem vezes “eu sou um cachorro” em ritmo de corrido mexicano. 

Não conseguiu; estava atônito, os olhos fora das órbitas. A garganta ardia. O pé pressionou ligeiramente seu estômago. 

— Não quer — disse a voz. — O cachorro não quer cantar.

E então os rostos abriram as bocas e cuspiram nele, não uma, mas muitas vezes, até que teve de fechar os olhos. Quando terminou a saraivada, a mesma voz anônima, que girava como um torno, repetiu: 

— Cante cem vezes “eu sou um cachorro” em ritmo decorrido mexicano. 

Dessa vez, obedeceu, e sua garganta entoou roucamente a frase sobre a melodia de Allá en el rancho grande; era difícil: despojada da letra original, a música por vezes se transformava em guinchos. Mas isso não parecia incomodá-los; escutavam atentamente.

— Basta — disse a voz. — Agora em ritmo de bolero.

Depois cantou com melodias de mambo e de valsa criolla. Por fim, ordenaram:

— Em pé. Levantou-se e passou a mão no rosto. Limpou-a no fundilho. A voz perguntou:

— Alguém mandou limpar o focinho? Não, ninguém mandou.

As bocas voltaram a se abrir e ele fechou os olhos automaticamente, até que aquilo terminou. A voz disse:

— Esses dois ao seu lado são dois cadetes, cachorro. Sentido! Assim, muito bem. Esses dois cadetes fizeram uma aposta e você vai ser o juiz.

O da direita bateu primeiro e o Escravo sentiu queimar o antebraço. O da esquerda bateu quase ao mesmo tempo.

— Muito bem — disse a voz. — Qual bateu mais forte? 

— O da esquerda.

— Ah, é? — replicou outra voz. — Quer dizer que eu sou um fracote? Vamos ver, vamos repetir, repare bem.

O Escravo cambaleou com o impacto, mas não chegou a cair: as mãos dos cadetes que o rodeavam seguraram-no e devolveram-no a seu lugar.

— E agora, o que achou? Quem bate mais forte?

— Os dois batem igual.

— Quer dizer que ficaram na mesma — precisou a voz.

— Vão ter que desempatar.

Um momento depois, a voz incansável perguntou:

— A propósito, cachorro. Os braços estão doendo?

— Não — disse o Escravo.

Era verdade; perdera a noção do corpo e do tempo. Seu espírito contemplava embriagado o mar sem ondas de Puerto Eten e escutava sua mãe, que lhe dizia: “Cuidado com as arraias, Ricardito”, e estendia para ele seus longos braços protetores sob o sol implacável.

— Mentira — disse a voz. — Se não doem, está chorando por quê, cachorro?

Ele pensou: “Já terminaram.” Mas eles mal tinham começado.

— Você é um cachorro ou um ser humano?

— Um cachorro, meu cadete.

— Então o que está fazendo em pé? Os cachorros andam sobre as quatro patas. 

Ele se inclinou; ao firmar as mãos no chão, surgiu a ardência nos braços, muito intensa. Seus olhos descobriram junto a ele outro menino, também de quatro.

— Muito bem — disse a voz. — E o que os cachorros fazem quando se encontram na rua? Responda, cadete, estou falando com você.

O Escravo levou um pontapé no traseiro e respondeu na hora: 

— Não sei, meu cadete.

— Eles brigam — disse a voz. — Latem e se enroscam. E se mordem. 

O Escravo não lembra a cara do menino que foi batizado junto com ele. Devia ser de uma das últimas seções, porque era
baixinho. Estava com o rosto desfigurado pelo medo e, assim que a voz se calou, avançou contra ele, latindo e babando; o Escravo sentiu no ombro uma mordida de cachorro enraivecido; todo seu corpo reagiu, e enquanto latia e mordia, tinha certeza de que sua pele se cobrira de um pelo duro, que sua boca era um focinho pontiagudo e que, sobre o dorso, seu rabo estalava como um chicote.

— Basta — disse a voz. — Você ganhou. Mas o nanico trapaceou. Não é cachorro, é cadela. E sabem o que acontece quando um cachorro e uma cadela se encontram na rua?

— Não, meu cadete.

— Eles se lambem. Primeiro se cheiram com carinho, depois se lambem.

E então o tiraram do alojamento e o levaram para o estádio, e não conseguia lembrar se ainda era dia ou se já caíra a noite. Ali o despiram, e a voz mandou que nadassem de costas pela pista de atletismo ao redor do campo de futebol. Depois, trouxeram-no de volta para um alojamento de quarto ano, e fez muitas camas e cantou e dançou em cima de um armário, imitou artistas de cinema, lustrou vários pares de coturnos, varreu uma lajota com a língua, fornicou com uma almofada, bebeu urina, mas tudo isso era uma vertigem febril e logo ele estava em sua seção, largado na cama, pensando: “Juro que vou fugir. Amanhã mesmo.” O alojamento estava silencioso. Os meninos se olhavam uns aos outros e, apesar de terem sido surrados, cuspidos, pintados e mijados, mostravam-se graves e cerimoniosos. Nessa mesma noite, depois do toque de recolher, nasceu o Círculo. 

Estavam deitados, mas ninguém dormia. O corneteiro acabara de sair do pátio. Imediatamente, uma silhueta se destacou de uma das camas, cruzou o alojamento e entrou no banheiro: os batentes ficaram oscilando. Pouco depois ressoavam os estertores e o vômito ruidoso, espetacular. Quase todos pularam das camas e correram para o banheiro, descalços: alto e esquálido, Vallano estava no meio do recinto amarelento, passando a mão sobre o estômago. Não se aproximaram, ficaram examinando o negro de rosto congestionado enquanto botava fora. Por fim, Vallano se aproximou da pia e enxaguou a boca. Então começaram a falar com uma agitação extraordinária e desordenada, maldizendo os cadetes de quarto ano com os piores palavrões.

— Não pode ficar assim. Temos que fazer alguma coisa — disse Arróspide. O rosto branco destacava-se entre os meninos de rostos angulosos, cor de cobre. Estava furioso e vibrava o punho fechado no ar.

— Vamos chamar esse tal de Jaguar — propôs Cava.

Era a primeira vez que ouviam o nome. “Quem?”, perguntaram alguns; “é da seção?”

— É, sim — disse Cava. — Ficou na cama. É a primeira, perto do banheiro. 

— E por que esse Jaguar? — disse Arróspide. — Nós não damos conta?

— Não — disse Cava. — Não é isso. Ele é diferente. 

Não conseguiram batizar. Eu vi. Nem deu tempo para eles. Foi para o estádio comigo, ali atrás dos alojamentos. E ele ria na cara deles e dizia: “Quer dizer que vão me batizar? Vamos ver, vamos ver.” Ria na cara deles, e eram uns dez. 

— E aí? — disse Arróspide. 

— Eles olhavam meio espantados — disse Cava. 

— E olhe que eram uns dez. Mas só até a gente chegar no estádio, aí vieram mais, uns vinte, até mais, um montão de cadetes do quarto ano. E ele ria na cara deles: “Quer dizer que vão me batizar? Muito bem, muito bem.”

— E aí? — disse Alberto.

— Eles perguntavam: “Então você acha que é valente, hein, cachorro?” E então, olhe só, ele partiu para cima deles. E rindo. Sei lá quantos eram, dez ou vinte ou mais ainda. E não conseguiam segurar. Alguns tiraram os cintos e chicoteavam de longe, mas não chegavam perto, juro. Estavam todos com medo, juro pela Santa Virgem, e vi não sei quantos caindo no chão, segurando os bagos ou com a cara amassada, imagine. E ele ria e gritava: “Quer dizer que vão me batizar? Muito bem, muito bem.”

— E por que isso de Jaguar?

— Não fui eu que inventei — disse Cava. — É ele que se chama assim. Ele estava cercado, tinham se esquecido de mim. Ameaçavam com os cintos e ele começou a xingar todos, a mãe, todo mundo. E então um deles disse: “Vamos chamar o Gambarina para cuidar desse animal.” E foram atrás de um cadete grandalhão, com cara de bruto, disseram que ele puxa ferro.

— E trouxeram para quê? — perguntou Alberto.

— E por que o chamam de Jaguar? — insistiu Arróspide.

— Para brigar com ele — disse Cava. — Disseram para ele: “Escute, cachorro, já que é tão valente, bata num do seu tamanho.” E ele respondeu: “Eu me chamo Jaguar. Cuidado com isso de me chamar de cachorro.”

— Eles riram?

— Não — disse Cava. — Abriram uma roda. E ele sempre rindo. Até no meio da briga, imagine.

— E aí? — disse Arróspide.

— Não brigaram muito — disse Cava. — Foi aí que eu vi por que o chamam de Jaguar. É muito ágil, uma barbaridade de ágil. Nem é tão forte, mas parece gelatina, o Gambarina esbugalhava os olhos de puro desespero, não conseguia agarrar. E o outro batia com a cabeça e os pés, dava que dava, e nada de ele tomar porrada. Até que o Gambarina disse: “Basta de brincadeira, cansei”, mas todo mundo viu que estava acabado.

— E aí? — disse Alberto.

— Foi só isso — disse Cava. — Largaram dele e começaram a me batizar.

— Vamos chamar — disse Arróspide.

Estavam de cócoras e formavam um círculo. Alguns tinham acendido um cigarro, que passavam de mão em mão. O recinto começou a se encher de fumaça. Quando o Jaguar entrou no banheiro, precedido por Cava, todos compreenderam que este havia mentido: o rosto e o queixo tinham sido golpeados, o nariz largo de buldogue também. Plantou-se no meio do círculo e os fitava por trás de suas pestanas ruivas, com uns olhos estranhamente azuis e violentos. O trejeito da boca era forçado, assim como a postura insolente e a lentidão calculada com que os observava, um a um. Também era forçada a risada cáustica e súbita que trovejou no recinto. Mas ninguém o interrompeu. Esperaram, imóveis, que terminasse de examiná-los e de rir.

— Dizem que o batizado dura um mês — afirmou Cava.

— Não podemos aceitar que aconteça todo dia o que aconteceu hoje.

O Jaguar concordou.

— É verdade — disse. — Temos que nos defender. Vamos nos vingar do quarto ano, vão pagar caro pelas gracinhas. O principal é lembrar as caras e, se der, a seção e os nomes. Temos que andar sempre em grupos. Vamos nos reunir à noite, depois do toque de recolher. E precisamos de um nome para o grupo.

— Os Falcões? — insinuou alguém, timidamente.

— Não — disse o Jaguar. — Parece brincadeira. Vamos chamar de Círculo.

As aulas começaram na manhã seguinte. Nos intervalos, os do quarto ano precipitavam-se sobre os cachorros e organizam corridas de pato: a um comando, dez ou 15 meninos, formados em linha reta, as mãos nos quadris e as pernas flexionadas, avançavam grasnando e imitando os movimentos de um palmípede. Os perdedores levavam ângulos retos. Além de revistar e confiscar o dinheiro e os cigarros dos cachorros, os do quarto ano preparavam aperitivos de graxa de fuzil, azeite e sabão, e as vítimas tinham que bebê-los de um só gole, segurando o copo com os dentes. O Círculo começou a funcionar dois dias depois, pouco depois do café da manhã. Os três anos saíam do rancho num tumulto e se espalhavam como uma mancha sobre o descampado. De repente, uma nuvem de pedras passou sobre as cabeças descobertas e um cadete de quarto ano caiu no chão aos berros. Já em formação, viram que o ferido era levado para a enfermaria no ombro de seus companheiros. Na noite seguinte, uma sentinela do quarto ano que dormia no gramado foi assaltada por sombras mascaradas: ao amanhecer, o corneteiro encontrou-o nu, amarrado e com grandes equimoses no corpo transido de frio. Outros mais foram apedrejados, surrados; o golpe mais audacioso, uma incursão na cozinha para derramar sacos de excrementos nas panelas de sopa do quarto ano, mandou muita gente com cólicas para a enfermaria. Exasperados pelas represálias anônimas, os do quarto ano prosseguiam o batizado com mais sanha. O Círculo se reunia toda noite, examinava os vários planos, o Jaguar escolhia um, aperfeiçoava-o e dava instruções. O mês de reclusão forçada transcorria rapidamente, em meio a uma exaltação sem limites. À tensão do batizado e das ações do Círculo veio logo se somar uma nova agitação: a primeira saída estava perto, já haviam começado a fazer para eles os uniformes azul-anil. Todos os dias, os oficiais davam uma hora de aula sobre o comportamento de um cadete uniformizado na rua.

— O uniforme — dizia Vallano, revolvendo com avidez os olhos nas órbitas — atrai as pombinhas como se fosse mel. 

“Nem foi tão grave quanto diziam, nem quanto me pareceu na hora, sem contar o que aconteceu quando Gamboa entrou no banheiro depois do toque de recolher, nem se pode comparar esse mês aos outros domingos de detenção, não mesmo.” Nesses domingos, o terceiro ano era dono do colégio. Projetavam um filme ao meio-dia, e à tarde vinham as famílias: os cachorros passeavam pela pista de desfile, pelo descampado, pelo estádio e pelos pátios, rodeados de gente solícita. Uma semana antes da primeira saída, provaram os uniformes de lona: calças cor de anil e túnica preta, com botões dourados; quepe branco. O cabelo crescia lentamente sobre os crânios, bem como a vontade de ir para a rua. Na seção, depois das reuniões do Círculo, os cadetes contavam seus planos para a primeira saída. “E como foi que soube, por puro acaso ou foi um dedo-duro, e se o Huarina estivesse de serviço, ou o tenente Cobos? Pois é, pelo menos não tão rápido, se ele não tivesse descoberto o Círculo, a seção não teria degringolado, não tão rápido, estaríamos no bem-bom.” O Jaguar estava de pé e descrevia um cadete de quarto ano, um chefe de turma. Os outros escutavam de cócoras, como de costume; as baganas passavam de mão em mão. A fumaça subia, chegava ao teto, descia até o chão e continuava circulando como um monstro translúcido e cambiante. “Mas o que foi que ele fez, Jaguar, também não precisamos carregar um morto nas costas”, dizia Vallano, “vingança, tudo bem, mas aí já é demais”, dizia Urioste, “o que fede nessa história é que ele pode acabar vesgo”, dizia Pallasta, “pediu, levou”, dizia o Jaguar, “se ele se machucar, melhor”, e o que veio primeiro, a pancada, o grito? O tenente Gamboa deve ter empurrado a porta com as duas mãos ou então ele a abriu a pontapés; mas os cadetes foram surpreendidos não com o barulho da porta nem com o grito de Arróspide, mas pela fumaça estancada que fugia pela bocarra escura do alojamento, quase tomada pelo tenente Gamboa, que segurava a porta com as duas mãos. As baganas caíram no chão, em brasas. Estavam descalços e não se atreviam a apagá-las. Todos olhavam para a frente e exageravam a atitude marcial. Gamboa pisou nas pontas de cigarro. Em seguida, contou os cadetes.

— Trinta e dois — disse. — A seção completa. Quem é o chefe de turma?

Arróspide deu um passo adiante.

— Explique essa brincadeira com todos os detalhes — disse Gamboa, tranquilamente. — Do começo. E não esqueça nada.

Arróspide olhava de esguelha para os companheiros, e o tenente Gamboa esperava, quieto como uma árvore. “E o jeito como chorava? E depois éramos todos seus filhos quando começamos a choramingar, e que vergonha, meu tenente, nem imagina como nos batizaram, homem não se defende?, e que vergonha, batiam, meu tenente, machucavam, xingavam a mãe, olhe o fundilho do Montesinos de tanto ângulo reto que tomou, meu tenente, e ele não passava recibo, que vergonha, não dizia nada, que mais, fatos concretos, sem comentários, falem um por um, não façam barulho, não incomodem as outras seções, e que vergonha para o regulamento, começou a recitar, devia expulsar todo mundo, mas o Exército é tolerante e compreende que os cachorros ainda ignoram a vida militar, o respeito ao superior e a camaradagem, e basta de brincadeira, sim, meu tenente, e como é a primeira e a última vez não vou dar parte, sim, meu tenente, vamos ver se viram homenzinhos, sim, meu tenente, fiquem sabendo que basta uma reincidência e só paro no Conselho de Oficiais, sim, meu tenente, e decorem o regulamento se quiserem sair no sábado que vem, e agora vão dormir, sentinelas a postos, relatório em cinco minutos, sim, meu tenente.”

O Círculo não voltou a se reunir, embora mais tarde o Jaguar pusesse o mesmo nome no seu grupo. Nesse primeiro sábado de junho, os cadetes da seção, espalhados ao longo da grade enferrujada, viram os cachorros das outras seções, soberbos e arrogantes como uma torrente, precipitando-se pela avenida Costanera, tingindo-a com seus uniformes reluzentes, o branco imaculado dos quepes e as malas lustrosas de couro; viram-nos aglomerando-se na parada maltratada, o mar crepitante às costas, à espera do ônibus Miraflores-Callao, ou avançando pelo meio da pista até a avenida de las Palmeras, para pegar a avenida Progreso (que corta os sítios e entra em Lima por Breña ou, na direção oposta, continua baixando em curva suave e amplíssima até chegar a Bellavista e Callao); viram-nos desaparecendo e, quando o asfalto ficou novamente solitário e umedecido pela neblina, continuavam com os narizes metidos no arame; em seguida, escutaram a corneta que chamava para o almoço e foram caminhando devagar e em silêncio para seus lugares, distanciando-se do herói que havia contemplado com as pupilas cegas a explosão de júbilo dos ausentes e a angústia dos detidos, que desapareciam entre os prédios cor de chumbo.

Nessa tarde, quando saíam do rancho diante do olhar lânguido da vicunha, surgiu a primeira briga na seção. “Eu deixava, o Vallano deixava, o Cava, o Arróspide? Não, ninguém deixava, só mesmo ele, o Jaguar não é Deus, se ele respondesse, aí era tudo diferente, se aguentasse o tranco ou pegasse um pau, uma pedra, aí era tudo diferente, até se corresse dali, mas tremer, homem, isso não se faz.” Ainda estavam na escadaria, amontoados, e de repente começou uma confusão e dois caíram na grama, dando pontapés. Os dois se levantaram; trinta pares de olhos contemplavam-nos dos degraus, como se estivessem num palanque. Não chegaram a intervir, nem compreenderam logo o que aconteceu, porque o Jaguar se lançou como um felino atacado e bateu bem na cara do outro, sem aviso, e caiu em cima dele e continuou batendo na cabeça, na cara, nas costas; os cadetes observavam os dois punhos constantes e nem escutavam os gritos do outro, “desculpe, Jaguar, empurrei sem querer, juro que foi sem querer”. “Só não devia ter se ajoelhado, isso não. E juntar as mãos, parecia a minha mãe nas novenas, um coroinha recebendo a primeira comunhão, parecia que o Jaguar era o bispo e o outro estava se confessando, lembro direitinho”, dizia Rospigliosi, “e fico de pelo em pé, homem.” O Jaguar estava em pé, olhava com desprezo para o menino ajoelhado e ainda estava com a mão levantada, como se fosse bater de novo no rosto lívido do outro. Os demais nem se mexiam. “Você me dá nojo”, disse o Jaguar. “Não tem dignidade nem nada. Você é um escravo.”