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A fragilidade do bem e o vigor do humanismo

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Filósofa norte-americana, Martha Nussbaum é uma influente intelectual da atualidade nos Estados Unidos. Seu trabalho é reconhecido por reunir estudos dos clássicos, da antropologia, da psicanálise e da sociologia, na busca por eudaimonia, palavra originada do grego que representa uma vida plena e próspera.

Entre as consagrações recebidas estão o Prêmio Kyoto e a Dotação Nacional para as Humanidades, honra concedida pelo governo dos Estados Unidos. Em 2004, juntamente com o Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, fundou a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade Humanos.

Em artigo exclusivo, escrito para a Revista Fronteiras do Pensamento, o historiador e professor da UFRGS Francisco Marshall fala sobre Martha Nussbaum, sobre como "a coragem e lucidez de seus posicionamentos éticos e a atualidade de sua autoria humanista" fazem da filósofa uma pensadora-chave para as humanidades na contemporaneidade. Veja abaixo:

A fragilidade do bem e o vigor do humanismo | Francisco Marshall

A filósofa e classicista norte-americana Martha Craven Nussbaum despontou para a consagração internacional em 1986, com o livro The fragility of goodness. Nas mais de 500 páginas deste tratado, Nussbaum examina tragédias gregas de Ésquilo (Os 7 contra Tebas e Agamemnon), Sófocles (Antígona) e Eurípides (Hécuba), e obras de Platão (Protágoras, República, Banquete e Fedro) e Aristóteles (Ética a Nicômaco, Política, Poética e Retórica), em busca de argumentos para examinar ética, razão, destino e felicidade. É obra de grande fôlego, que Camille Paglia apontou como uma das mais altas realizações acadêmicas do século 20.

Publicado no Brasil como A fragilidade da bondade, o tratado examina respostas gregas para os desafios éticos de se construir uma boa vida por meio de boas escolhas, diante de ameaças do destino que ultrapassam nossa capacidade de controle e provocam crises angustiantes. Os impasses da tragédia grega, aponta, levam a dilemas em que os imperativos da práxis se impõem e exigem o cumprimento de deveres éticos na esfera pública, com o que o leitor/espectador encontra um amparo para compreender as difíceis escolhas que a vida impõe, e a eventual falta de soluções positivas.

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Após examinar tragédias, a vencedora do prêmio Kyoto em 2016 (a mais alta honraria japonesa) vale-se do idealismo racionalista de Platão para contrastar o otimismo da filosofia diante do peso da fortuna. Ao final, a filósofa, hoje professora de Lei e Ética na Escola de Direito da Universidade de Chicago, segue os passos de Aristóteles para reconhecer o poder do destino trágico, ameaçando a vida mesmo que esta possa guiar-se pela busca prudente da felicidade (eudaimonia), mediante boas escolhas – a grande meta da filosofia grega em sua era de maturidade.

Este livro é referência preciosa nos estudos clássicos e oferece muitas questões tremendamente provocativas com altíssima densidade de leitura de obras gregas fundamentais. A autora é humanista de vanguarda, e posiciona-se com reflexão erudita diante de problemas contemporâneos como a justiça social em situações críticas (Fronteiras da justiça, 2013) e do papel da educação no fortalecimento do regime democrático (Sem fins lucrativos, 2015). Igualmente, questões de gênero que marcam a geração acadêmica que floresceu nos anos 1980 a caracterizam como filósofa feminista, o que aparece em Sexo e justiça social (1999, sem tradução), em que examina as ainda muito atuais questões advindas dos preconceitos de gênero e opção sexual.

A altíssima qualidade acadêmica de sua obra, a elegância de sua escrita, a coragem e lucidez de seus posicionamentos éticos e a atualidade de sua autoria humanista justificam a imensa admiração que Martha C. Nussbaum colhe em todos os círculos do pensamento educado.