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Anne Applebaum e o legado Iluminista

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Crédito da Imagem: Unseen Stories - Unsplash
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Por que devemos resistir às mentiras e nos apegar aos fatos, aos dados e à verdade?

Mentiras – as pequenas e as grandes – têm um poder assombroso de deteriorar e até mesmo destruir as democracias liberais. Por isso mesmo, regimes totalitários, populistas e demagogos em geral costumam rezar por uma peculiar cartilha relativista: a verdade não existe, apenas a “versão” do Partido, do líder ou da narrativa vencedora junto ao “povo” conta. Pouco a pouco, a lógica da mentira deita raízes, e quando se tenta mudar o degradante rumo que as sociedades livres tomam quando seguem por esse caminho, pode ser tarde demais. 

Este é apenas um dos importantes alertas da historiadora e jornalista Anne Applebaum, conferencista da temporada 2021 do Fronteiras do Pensamento: Era da Reconexão. Vencedora do Prêmio Pulitzer, autora de sólidas e impactantes obras de investigação sobre o horror dos campos de concentração na União Soviética (Gulag, sem tradução no Brasil), sobre o terrível impacto das ditaduras comunistas no leste europeu durante a Guerra Fria (Cortina de Ferro, editora Três Estrelas) e sobre o genocídio comandado por Stálin e pela URSS na Ucrânia, conhecido como holodomor (Fome Vermelha, editora Record), Applebaum está bem posicionada intelectualmente para fazer com profundidade analítica e rigor histórico e conceitual a preocupante avaliação que faz sobre o estado das democracias liberais nas últimas décadas. E a mentira, é claro, ocupa um papel de destaque na onda que avança destrutivamente sobre as instituições democráticas de países tão distintos quanto os Estados Unidos da era Trump e a Hungria de Viktor Orbán. 

Temporada 2021

Em recente entrevista para O Estado de S. Paulo, a experiente intelectual com passagens pelo jornal americano Washington Post e pelas revistas inglesas The Spectator e The Economist resumiu com clareza o desafio que pequenas e grandes mentiras, servindo aos interesses de políticos autoritários, fazem da manipulação um passo decisivo na escalada antidemocrática e iliberal: elas ganham a dimensão de teorias da conspiração, frequentemente vizinhas de discursos negacionistas de diversos tipos. Segundo Appelbaum, "Estamos cheios de exemplos disso. Uma das razões para Donald Trump se tornar visível politicamente foi sua defesa da tese de que Barack Obama não poderia ser presidente dos EUA porque nascera fora do país. Isso não era verdade, mas serviu perfeitamente ao seu propósito de minar a confiança das pessoas na legitimidade do processo. Afinal, se Barack Obama não podia ser presidente, muitas pessoas estavam mentindo: o Congresso, a Suprema Corte, o FBI, a CIA. E o uso dessa mentira ajudou a diminuir a confiança das pessoas no sistema político. Ele continuou a fazer isso, promovendo a ideia que ganhou a eleição e propagando essa mentira para convencer as pessoas a não acreditar no sistema político". 

O crepúsculo da democracia

Essas mentiras, alçadas a teorias conspiratórias, têm sido uma marca permanente dos diversos tipos de governos e regimes populistas, autoritários e iliberais que podemos acompanhar. A teoria conspiratória da fraude eleitoral, é claro, é a ponta mais visível desse tipo de mentira que destrói a democracia. Um caso importante citado por Applebaum em seu mais recente livro, O Crepúsculo da Democracia (editora Record), diz respeito a um país que a autora conhece muito bem: a Polônia. Em 2006, 96 pessoas morreram em um desastre de avião, entre eles o presidente Lech Kaczynski. Mentiras variadas e teorias conspiratórias de toda sorte contribuíram para atacar, em bases falsas, líderes da oposição. Outra modalidade mundialmente famosa de mentira tornada teoria conspiratória geral são os ataques antissemitas a George Soros e sua atuação liberal e progressista através de instituições como a Open Society, ou a Universidade Central Europeia – esta recentemente expulsa da Hungria de Viktor Orbán. 

Applebaum chama atenção para o preocupante descrédito em que caem os principais pilares da democracia liberal quando mentiras desse tipo granjeiam popularidade suficiente. As mentiras de Donald Trump sobre fraude eleitoral nos Estados Unidos, por exemplo, alegando falsamente que ele teria sido vitorioso nas eleições de 2020, resultaram em algumas das consequências mais graves da história daquela que é a mais longeva democracia do mundo: "O grande perigo é que muitos dos apoiadores desses líderes que se apegam a alegações de fraude eleitoral vão acreditar neles e vão ter cada vez menos fé nos processos eleitorais no futuro. É aí que a democracia é atacada. Essa é a parte mais fundamental de todo o processo democrático: que as pessoas tenham fé na sua legalidade e veracidade. Porque a democracia é um sistema político altamente improvável e frágil: quando você ganha, precisa preservar todos os elementos do sistema: a imprensa, os tribunais independentes, os processos eleitorais para permitir que seu opositor tenha as mesmas chances na próxima eleição e possa te derrotar". 

Se em uma democracia estável e forte como a americana, as mentiras e os delírios de um líder populista iliberal resultaram em um ataque – com mortes! – ao Capitólio, em uma incrível rejeição dos fatos e dos dados por parte de uma imensa parcela do eleitorado republicano e até mesmo na necessidade do Comando Maior das Forças Armadas americanas prepararem-se para evitar um golpe de Trump, podemos imaginar facilmente como esse mesmo discurso pode afetar democracias menos robustas. 

O recado de Anne Applebaum, contudo, é claro: a fragilidade da democracia é inerente ao seu próprio desenho, é de sua natureza. E por isso mesmo, requer um cuidado muito especial – um cuidado que envolve o respeito aos fatos, aos dados e à verdade. Um legado perfeitamente iluminista, aliás, como salienta a autora. 

Por Eduardo Wolf

>>> Leia um excerto do livro O crepúsculo da democracia: Como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política

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