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Testemunho de um leitor

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Por Felipe Pimentel

Quando o Fronteiras do Pensamento me convidou para escrever sobre Contardo Calligaris, supus mais adequado que um de seus pares diretos prestasse testemunho do seu legado. Sou de uma (ou duas?) geração posterior à geração de Contardo, e a geração que o acolheu (e que ele acolheu em retorno) possui uma trajetória com ele, que, além de muito bonita, é muito relevante (e eu diria mais: determinante) para um certo jeito de pensar, estudar, compartilhar e transmitir a psicanálise no Rio Grande do Sul e no Brasil. Esta geração construiu com Contardo a Associação Psicanalítica de Porto Alegre, a APPOA. Construída a várias mãos, sim, mas com o visível toque sensível e aberto com o qual o psicanalista italiano sempre tratou o saber. 

Eis que fico sabendo que dois colegas e amigos desta geração de Contardo, a Lúcia Serrano e o Robson Pereira, prestariam este depoimento em entrevista ao Fronteiras. Deste modo, “aceitei” o convite, pois eu poderia trazer um outro viés: o testemunho de alguém (talvez a maior parte dos seus leitores?) que chegou ao Contardo através dos seus textos, sejam as crônicas, sejam os livros teóricos e todos os outros que se seguiram.

Quando entrei na faculdade de Psicologia, Contardo recém começara a publicar as suas crônicas, ou melhor, análises, chamemos assim, na Folha de S.Paulo. Era uma época diferente. Lembro que no início dos anos 2000, eu tinha um peculiar hábito para um porto-alegrense: assinava a Folha de S.Paulo (impressa, claro), especialmente para ler os textos dele, às quintas. O atendimento da Folha sofreu na minha mão, pois eu queria a assinatura de quinta a domingo por causa disso (eles só tinham de sexta a domingo). Consegui, não lembro como. Quando o jornal chegava, eu corria para a sua seção, pois, em meio aos estudos profundos de Psicanálise lacaniana na faculdade e em grupos de estudo, eu lia nas suas crônicas, quase uma iluminação, uma forma de lançar mão daquelas abstrações tão inacessíveis para interpretar o mundo real e o cotidiano mais simples. Certamente, tanto quanto os mais pernósticos e imperscrutáveis livros de teoria psicanalítica, Contardo Calligaris me ensinou, com suas crônicas, que aquele ferramental todo podia ser usado para ler o mundo, seja o novo volume de Harry Potter, o terrorismo islâmico, o novo filme de Eduardo Coutinho ou o uso do cartão de crédito. À medida que eu compreendia os fundamentos da Psicanálise, em vez de me afastar das crônicas de Contardo (que aos olhos do jovem arrogante de então poderiam passar a soar simplificadas), aconteceu o contrário. Quanto mais me aprofundava na teoria, mais me admirava a sua capacidade de exemplificação daquela teoria nas suas análises, sua clareza e precisão ao instanciá-la nas questões corriqueiras. E isso sem jamais baratear os conceitos – e como era preciso o modo como os aplicava! Hoje, relendo os livros de coletâneas de crônicas que ele publicou na Folha, o assombro não é menor. Elas parecem ainda mais profundas e eu diria até difíceis, ainda que nunca inacessíveis. 



Essa foi uma de suas grandes heranças. Contardo foi um tradutor. E um tradutor de coisas complexas. Estudou diretamente com autores renomadamente barrocos, peculiares, áridos intelectualmente - Lacan, Barthes, Foucault. E ele não só os compreendia em profundidade, mas também com leveza. E jamais demonstrou afetação. Talvez efeito desta mesma compreensão. Os leitores de Freud e Lacan, os psicanalistas, víamos a esperteza e correção com a qual interpretava o mundo, mas quem não tivesse lido esses autores ou traçado esse caminho profissional podia saborear do mesmo jeito. Traduziu também sentimentos sociais, ao tratar de temas complexos, pessoais, subjetivos; ao botar o dedo na ferida dos nossos impasses e das nossas angústias; ao apontar o dedo para todos nós, enquanto nós apontávamos para outros. Mas o fazia com a licença e o cuidado que nos provocava sem nos irritar. Quando Contardo escrevia em suas crônicas e nos instigava, nos retirando nosso último argumento para odiar ou reclamar de algo ou alguém, ele nos deixava mais leves, mas também mais profundos. Talvez a sagacidade de seus insights, a criatividade de suas ideias nos desse maior prazer por isso, e antes de reagirmos negativamente, ficássemos agradecidos. 

No campo da clínica e da teoria psicanalítica, foi criador. Seu livro Introdução a uma clínica diferencial das psicoses é preciso, pontual e original. A teoria lacaniana das psicoses é tema difícil e, do mesmo modo, a sua clínica; e seu livro oferece a todo psicanalista uma interpretação preciosa da relação da psicose com a “errância”. Na época de faculdade, existiam algumas “fitas" (tapes) com palestras que ele proferira sobre determinados temas da clínica, todos com ideias autorais, porém humildemente tributadas e compartilhadas com seus mestres e colegas. Aqui, Contardo se alçou de modo definitivo para a teoria e clínica psicanalítica como um teórico com pelo menos duas obras fundamentais e singulares que trazem uma contribuição autoral e relevante para a literatura especializada da área. 

Uma determinada leitura do mundo que ele tinha era visível nas suas crônicas, a saber, o impacto do esfacelamento da sociedade tradicional (o tal desencantamento do mundo) na vida íntima de todos nós, e o nosso jogo constante entre a ausência de valores e a tirania da experiência; entre a quebra da tradição e a rebeldia; entre a busca pelo reconhecimento do próximo e a autenticidade; entre o jogo da idealização, da frustração e da projeção; por fim, nosso labirinto entre a liberdade e a solidão. Essa leitura era capaz de analisar os conflitos geracionais, os impasses nos relacionamentos amorosos, a xenofobia e a homofobia, as guerras, as contradições da esquerda e da direita, os sentimentos ocultos, as projeções e interdições que levam ao nosso mal-estar, a determinadas escolhas e a determinadas agressões. Contardo soube ver os nossos erros como sociedade, sem fazer com que odiássemos uns aos outros ou repudiássemos nossa cultura. Soube nos fazer olhar para nossos vícios sem descolá-los de nossas virtudes. 

Para falar de tudo isso, teve coragem de falar sobre os grupos, sobre o social como um todo, identificando mecanismos psicológicos por detrás de violências, decisões e impasses da sociedade, mas nunca deslizou para uma generalização forçada. Falou de natal, Frodo bolseiro, Cuba, 11 de Setembro, guerra na Itália, Brasil. Falou muito de Brasil. O seu livro Hello Brasil  tem insights saborosos sobre o nosso estranho pacto social: nossos desperdícios e nossos desgastes, nossos jeitos e identificações e nossas violências. Lembro-me especialmente de sua primeira percepção perplexa sobre o desperdício de alimentos nos restaurantes e casas no Brasil. Contardo foi um etnógrafo do nosso país. 

Toda essa autoria foi mobilizada para os romances, para o teatro, para a televisão, para palestras, para entrevistas, como entrevistado e até mesmo entrevistador. Há uma primorosa entrevista com Oliviero Toscani em que Contardo é o entrevistador, lançada pela Folha como uma das 100 melhores entrevistas de seu extinto caderno Mais! Há algo de constrangedor naquela conversa, que ainda assim revela muito sobre Contardo. Toscani, o famoso publicitário do United Colors of Benneton desfila alguns simplismos contra a sociedade ocidental e termina eriçando o psicanalista, pois, ainda que a sociedade ocidental seja desencantada, ela ainda possui, para Contardo, o encanto da liberdade. Não parecem ter terminado muito amigos ao fim da entrevista.

Em alguns momentos de sua vida, Contardo parece ter estado no lugar certo na hora certa. Vivenciou momentos relevantes da história político-social francesa e americana, estudou com Piaget na Suíça, com Starobinski e Steiner, com Lacan e Barthes em Paris, participou da dissolução da escola de Lacan, mudou-se para o Brasil, fundou uma instituição psicanalítica, lecionou em Berkeley, morou na Nova York do início do milênio e em uma São Paulo vertiginosa. Para lançar um clichê psicológico, coincidências não existem. Contardo sempre esteve com os olhos e ouvidos abertos, era esta a sua disposição com o mundo, ele estava atento (talvez flutuante?) ao que ocorria de novo, não pela mera novidade, mas por sua curiosidade, por seu interesse.

E não foi exatamente uma frase sua sobre o interesse que mais se divulgou agora no momento em que o perdemos? "Não quero ser feliz, quero ter uma vida interessante". Fiquei intrigado. Por que as pessoas ficaram tão interessadas nessa frase? Será que depois de anos de leitura contardiana posso me dar o luxo de usar de suas ferramentas para interpretar esse evento?

Talvez em primeiro lugar tenha esse tapa na cara de não querer ser feliz. Contardo sempre achou que o dogma da felicidade banal (e eufórica) do mundo contemporâneo era uma bela de uma cilada. Mas ao mesmo tempo sabia que nos seduzia. E contestá-la assim era uma boa provocação. Porém, bem a sua cara, por generosidade, o fazia como uma provocação sobre si mesmo, mas que nos convidava a pensar sobre nossas próprias escolhas: abandonem essa ideia de ser felizes! Uma vida interessante é uma vida bela porque ela é boa de ser vivida e contada. E, se me dão licença, creio que para Contardo uma vida interessante era uma vida sem ortodoxias, nem dogmatismos, uma vida com andanças, aberta, experimentada. 

A última vez que o vi foi exatamente no Fronteiras do Pensamento, em 2019. Foi curioso. Lembro que saí com a impressão de ser uma prestação de contas consigo mesmo, com o próprio pai, com o seu país de origem, a Itália, mas também com nosso tempo e nosso país. Contardo falou da ação do seu pai na luta contra o fascismo e em especial naquilo que o intrigara a vida inteira sobre isso: seu pai não era um socialista (no esquematismo infantil só isso faria sentido?), era um liberal, um social-democrata talvez, porque arriscara a vida dele e da família para lutar contra os fascistas? Seu pai lhe respondera (cito de cabeça): porque os fascistas eram vulgares. Contardo contou da sua perplexidade diante dessa resposta. Como um pai coloca a vida da família em risco por razões estéticas? E agora, mais velho, ele constata que o pai estava certo. Apresentando uma foto de um fascista rindo em uma cena de desgraça, Contardo parecia, ali, diante de nossos olhos, demonstrar que agora compreendia o pai, ao verificar que o escárnio diante do horror é a morte do humano. 



Contardo provocou, instigou, mas também se posicionou. Sempre o fez de maneira clara e corajosa. Nos últimos tempos, subiu o tom (vivemos tempos difíceis para não se subir o tom, não?). O seu modo de olhar o mundo, tão rico, generoso e complexo, fará falta imensa num mundo cada vez mais plano, simplório, esquemático e também brutalizado. O seu pensamento segue aí. Nos seus livros, nas suas crônicas, nas fitas nas gavetas de mogno que guardam os insights de um psicanalista que marcou e marca a nossa sociedade. Mas que também não fiquemos presos a ele, tampouco esperemos encontrar nele todas as respostas. Seria pouco freudiano - e nada lacaniano. Pois, acima de tudo, respeitar o seu legado é acompanhar a citação que Contardo coloca (no original em alemão, sem tradução!) como último parágrafo do seu livro Hipótese sobre o fantasma:

                Freund, es ist auch genug.

                Im fall du mehr willst lesen,

                So geh und werde selbst die Schrift

                Und selbst das Wesen

 

                Que podemos traduzir por:

 

                “Amigo, é suficiente.

                Se acaso tu quiseres ler mais,

                Vá e torna-te tu a escrita,

                Torna-te tu a essência.”



Por Felipe Pimentel, Psicanalista e Historiador.