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Leia um trecho de "Copo Vazio", obra de Natalia Timerman

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Crédito da imagem: Sasha Freemind / Unsplash
Crédito da imagem: Sasha Freemind / Unsplash

Fronteiras do Pensamento traz ao seu público escritores e pensadores que nos ensinam a valiosa lição a respeito do poder da literatura e das reflexões que dela brotam. Oferecemos aos leitores, em parceria com a Editora Todavia, um trecho da obra Copo Vazio, romance sobre perda, amor e abandono escrito por Natalia Timerman: "O livro perscruta a vulnerabilidade de sua protagonista sem constrangimentos. Há algo de ancestral, talvez atemporal, no sofrimento de Mirela, que ecoa a dor de todas essas mulheres. Mas há também elementos contemporâneos: a forma de vida nas grandes cidades e as redes sociais são questões que acentuam os dilemas".

 

Hoje

Mirela tem duas semanas para enviar um projeto no prazo, mas ainda não conseguiu encontrar algumas soluções. É sábado, recusou um almoço com a família de Rui para adiantar o trabalho. Parada diante do computador, passa os olhos pelo que já fez sem conseguir se concentrar muito. Paga uma conta, dá uma olhada nuns produtos em promoção, volta para o projeto, desanima. Entra no Facebook, rola a página, sem se fixar em nenhuma atualização, nada de interessante, nada de interessante nunca, as últimas notícias, o Carnaval que passou, uma amiga que começou a fabricar queijos numa cidade pequena de Minas Gerais — Minas Gerais — e de repente se vê acessando seu perfil falso para olhar a página de Pedro. Há meses não a vê, qual era mesmo a senha?, acerta na segunda tentativa. Por alguns meses, ano passado, pôde acessar a página de Pedro usando seu perfil verdadeiro, mas desde o último bloqueio — ao que parece, já passado tanto tempo, definitivo —, depois de uma série de mensagens bêbadas madrugada adentro, só como Joanna Romma. Melhor assim, melhor não poder vê-lo tão facilmente.

Copo Vazio

Só há ele no histórico de buscas, a página carrega e lá está aquele rosto tão conhecido, tão distante, enorme. O tempo não alterou a película invisível de intimidade: o cabelo, os olhos, o nariz, o sorriso quase escapando da boca fechada, cada traço confirma a memória longínqua e a faz de novo recente e fresca. Mantém o olhar sobre a imagem ainda por um tempo como se dela esperasse sair voz ou gesto, e a imobilidade daquele rosto e o fato de conhecer cada centímetro dele agudizam a distância que já não doía, uma distância de novo estranha. Fecha a aba do Facebook, arrependida.

Solta o ar, gira na cadeira em direção à janela, se levanta para fazer um chá. Como é fácil cair em certas armadilhas. O que é mais absurdo, a distância entre ela e Pedro ou essa pergunta ainda existir? Como é possível haver consequências tão diferentes para uma só relação? Era só uma?

Talvez não. Caminhando até a cozinha, pensa que talvez tenham, ela e Pedro, vivido apenas um começo, estado apenas numa antessala de relacionamento onde Mirela sozinha

se esparramou acreditando ser a casa inteira.

Coloca água numa chaleira, aperta duas vezes a ignição do fogão para conseguir acendê-lo. Ou não. Ou estavam ambos ali, juntos, apoiando-se um no outro como em qualquer relação e ele se retirou, simplesmente saiu, fazendo-a perder o equilíbrio e cair.

Não sabe. Não tem como saber. Observa as bolhas pequenas subindo da água que começa a esquentar. Ainda ama Pedro? Se envergonha da própria pergunta, amor é uma palavra brega. Mesmo assim. Seria possível amá-lo ainda depois de quase dois anos ou qualquer sentimento só pode ser uma invenção? As bolhas ficam maiores e começam a explodir na superfície da água. Talvez o tenha amado sim, lá atrás, quando estiveram juntos, mas depois, depois não. Ou será que nunca chegou de fato a amá-lo e seu gostar, ainda embrionário, comum, então do tamanho certo, se expandiu a partir do vácuo súbito da ausência dele, assim como as leis da física?

Existe diferença entre gostar e amar, como num espectro?

Estaria feliz com ele?

Tenta resgatar a imagem do rosto de Pedro na memória. Os traços não se fixam, escapam feito fumaça. Recorre à foto que acabou de ver no computador, faz certo esforço para retê-la na mente, consegue, consegue. Mas é a memória da foto, estática, indireta, não do rosto de Pedro. Suas lembranças com ele já não existem mais, substituídas pelos fragmentos insuficientes obtidos através de sua busca frenética, a memória sendo então daquela procura insana por Pedro, ou seja, dela mesma. A única coisa que sobrou dos dois: a ausência dele, aquele nada que Mirela se acostumou a buscar como se fosse um resquício de Pedro, mesmo sabendo em algum lugar que não é. E a própria busca.

Ele escapou. Mas e se voltasse? Estaria de fato feliz com ele?

Perderia a busca.

Desliga o fogo, entorna devagar a água quente sobre a xícara de chá.

>>>Leia artigo de Natalia Timerman sobre "Copo Vazio e a ficção".