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Margaret Atwood: muito além do “Conto da Aia”

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Até pouco tempo, Margaret Atwood era a mais famosa escritora canadense em atividade, algo que o Nobel concedido em 2013 a sua colega Alice Munro pode ou não ter alterado. A sua curiosidade e a sua versatilidade como criadora são amplas. Ela já publicou umas seis dezenas de livros, entre poesias, contos, romances, ensaios luminosos e inteligentes, resenhas generosas (não avalia livros dos quais não gosta), mas também já se dedicou a libretos de óperas e roteiros para histórias em quadrinhos. É também aberta a vincular seu trabalho a experiências desconcertantes – em 2014, foi a primeira escritora a colaborar com um projeto artístico chamado Future Library: ela entregou um romance inédito para ser guardado por 100 anos e só publicado em 2114 com papel produzido a partir de uma floresta plantada especificamente para essas futuras edições.

Atwood nasceu em Ottawa, no Canadá, em 1939. Filha de biólogos e com um conhecimento aprofundado sobre ciências naturais, ela não se sente confortável com rótulos por demais estritos. Escreve ficção especulativa filiada à melhor tradição do gênero, mas não define seus livros como ficção científica. Lá pela metade da década passada, a leitura de sua obra ainda era uma alegria compartilhada por um grupo restrito de leitores, até que dois fenômenos simultâneos e relacionados, mas sem ligação de causa e efeito, ocorreram: a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, em 2016, e a estreia avassaladora da série “O Conto da Aia”, produção do serviço de vídeo Hulu baseada em sua obra mais conhecida, publicada em 1985.

A série, que mostra um futuro distópico em que a liberdade das mulheres foi abolida em uma América nas mãos de um governo fundamentalista cristão, foi sucesso de crítica e transcendeu da categoria do fantástico especulativo para uma possível alegoria do presente pós-Trump, político que se elegeu (como outras imitações baratas ao redor do mundo, inclusive no Brasil) impulsionado por um ativo discurso contra minorias.

Um dos elementos para o sucesso de “O Conto da Aia”, além de seu timing e de seu cuidado de produção, era justamente o quanto a trama de Atwood antecipou inquietações que logo se tornariam recorrentes. Em marchas de mulheres contra as primeiras medidas de Trump, logo após sua posse, algumas carregavam cartazes com os dizeres “Façam Margaret Atwood virar ficção de novo”. Desde então, o impactante visual imaginado para a série para retratar as “aias” da história – um hábito vermelho destinado a apagar a individualidade das mulheres tornadas “propriedades” dos homens – foi incorporado em performances e protestos públicos que irromperam na esteira do movimento #MeToo.

Essa ancoragem do “Conto da Aia” na realidade foi obtida por Atwood com um artifício simples e engenhoso: O romance inventa muito pouco e se ampara não no amanhã, mas no passado. As restrições e abominações perpetradas contra as mulheres no romance foram todas retiradas de episódios reais do passado histórico, apenas reunidas convenientemente no mesmo cenário.

O reconhecimento extemporâneo que Atwood obteve por O Conto da Aia foi o suficiente para que ela própria trouxesse aquele mundo de volta em uma outra obra, denominada “Os Testamentos”, lançada após o sucesso da série. Mas suas virtudes não se restringem ao Conto da Aia.

Criadora multifacetada

Atwood é uma autora com um domínio sóbrio e seguro da linguagem. Sua prosa é sofisticada num grau que não se confunde com hermetismo. Talvez a chave para entender por que seus livros agora são considerados visionários é seu interesse onívoro no ontem, no hoje e no amanhã – interesse expresso em três grandes vertentes temáticas que cruzam o conjunto de sua obra: a História, o feminismo e os avanços da tecnologia.

A vertente da reconstrução do passado pode ser encontrada em seus romances históricos como, por exemplo, “Vulgo Grace” (também adaptado para uma minissérie, mas pela Netflix). Publicado em 1997, o livro baseia-se nos autos de um crime real ocorrido no Canadá em 1843: Grace Marks, imigrante irlandesa que trabalhava como criada na residência de um homem rico, foi condenada como cúmplice no assassinato de seu patrão e da governanta da casa. Embora tenha a moldura tênue de uma história de crime, o que torna este romance tão bem urdido é a maneira como Atwood, ao escolher narrar pelo ponto de vista de um médico designado para entrevistar Grace anos depois do crime, visando a uma possível apelação do caso, não assume uma versão definitiva para a história (algo que não soaria de todo honesto), mas abraça a ambiguidade da personagem. Grace de fato participou do crime ou foi falsamente incriminada pelo suposto amante que o cometeu? Ela seduziu o homem ou foi enganada por ele? Ela é louca ou apenas ingênua? É uma assassina ou mais uma vítima?

Esse olhar irônico lançado ao passado, revirando as certezas de histórias já contadas, é também exercitado no romance “A Odisseia de Penélope”. Lançado em 2005, o livro (que no original chama-se “A Penelopíada”, evitando o paradoxo algo canhestro do título traduzido em português) retoma o mito clássico de Odisseu/Ulisses com uma perspectiva mais cínica e realista. Os fatos básicos são razoavelmente preservados, mas Atwood inteligentemente subverte seus sentidos: Penélope não é a esposa casta que ludibria seus pretendentes com o engodo da mortalha, mas uma mulher sozinha e abandonada que pode muito bem ter aliviado com eles parte de sua solidão – numa equivalência subversiva ao próprio Odisseu, que nunca se furtou a outras aventuras amorosas durante sua jornada contada no original.

É um olhar que dialoga com a segunda vertente presente desde sempre em sua obra: interrogações de cunho feminista sobre a estrutura patriarcal presente na sociedade e o quanto elas podem servir como armadilhas nas quais, para sobreviver, uma mulher talvez precise prejudicar outras. A morte das criadas por Odisseu, que no original se deve à cumplicidade destas com os pretendentes, aqui toma a sinistra feição de Penélope tentando fazer valer sua narrativa de virtude silenciando as criadas para encobrir suas supostas transgressões. Essa mirada feminista, muito mais aberta e desbragada em suas primeiras obras, como “A Mulher Comestível” (1969) e “Madame Oráculo” (1976), torna-se mais sutil, embora não menos efetiva, à medida que sua obra progride em direção aos elementos da literatura de gêneros de massa


E o futuro é um tema que Atwood, onívora leitora sem preconceitos de obras que vão de faroeste e policial à ficção científica, tratou em romances distópicos especulativos como o próprio “O Conto da Aia” ou como maravilhosa trilogia, ainda não de todo redescoberta pelo grande público, “Oryx e Crake” (2003), “O Ano do Dilúvio” (2009) e “MaddAddam” (2013). Nesta distopia pós-apocalíptica ecológica, Atwood narra os antecedentes e as consequências de um colapso da civilização testemunhado por um homem conhecido por Jimmy antes do cataclismo e chamado de Homem da Neve depois do fim.

Talvez o último ser humano de antes do colapso ainda vivo, o protagonista vive na terra devastada – e seus únicos contatos eventuais com outros seres inteligentes são com uma tribo de jovens geneticamente modificados pelo tal Crake do título, de quem O Homem da Neve foi amigo e colega de laboratório em uma empresa de engenharia genética. O romance vai e volta no tempo e no espaço, viajando do passado de Jimmy e suas interações com Crake e com a sua amada Oryx para o presente em que a geração preparada para o amanhã parece viver uma existência mais animalesca do que humana. E também os animais que ameaçam sua existência são fruto das experiências genéticas de Crake. O segundo e o terceiro volumes mudam os pontos de vista da narrativa apresentando outros personagens reagindo ao misterioso dilúvio que parece destinado a erradicar a humanidade. Uma obra que em seu conjunto é arrebatadora e que põe em discussão engenharia genética, o poder predatório das grandes corporações, a ética da ciência e a ecologia.

Uma obra sólida e multifacetada que resume as principais virtudes artísticas e intelectuais de Atwood, uma artista inquieta e que jamais se conforma com a apatia, cuja grande virtude como criadora é o modo preciso como projeta o presente e o passado no futuro.

*Carlos André Moreira é jornalista, crítico literário e editor do canal e blog Admirável Mundo Livro