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Mario Vargas Llosa, pensador da cultura - Parte 2

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Por Eduardo Wolf

“A cultura se banalizou, se trivializou muito, em grande parte por consequência de uma intenção muito generosa, que era a de democratizar a cultura, de colocar a cultura ao alcance de todo mundo, e para isso foi-se baixando os níveis culturais até praticamente desaparecerem”.

A declaração de Mario Vargas Llosa em depoimento ao Fronteiras do Pensamento sintetiza bem sua convicção de que algo saiu errado com o processo de amplo e irrestrito acesso de todos à cultura. Não, o que o prêmio Nobel de Literatura peruano afirmou – e segue afirmando – não é que garantir o acesso à cultura a mais pessoas é ruim, ou necessariamente degenera em banalização e trivialização. Como fica claro para aqueles que acompanham seus escritos sobre a cultura, a literatura e as artes, o ponto é mais complexo. Em primeiro lugar porque, como procurei mostrar na primeira parte deste ensaio, a reflexão que Llosa faz sobre o conceito de cultura – e seu atual estado, o entendimento que dela temos hoje – insere-se em uma tradição de crítica cultural específica: aquela que remete a T. S. Eliot e seu Notas para a definição de cultura (1948) e a George Steiner e seu No castelo do Barba Azul: notas para uma redefinição de cultura (1971), entre outros. Certo, a matriz das reflexões de Llosa já traz a marca de um pessimismo cultural próprio, mas injeta uma alta dose de reflexão sofisticada sobre a hipótese de um mundo – o nosso – que vive a “pós-cultura”. 

>> Leia o artigo inicial desta série: Mario Vargas Losa, pensador da cultura - Parte 1

Em segundo lugar, como o próprio Llosa insiste em esclarecer, há certas situações concretas, certos dados objetivos que não se pode negar e que atestam o triunfo de uma versão banal e trivial da cultura, entendida agora sob a forma do entretenimento frívolo, da mercadoria para consumo e exibição, da satisfação imediata de desejos pouco educados. Esse diagnóstico, ancorado solidamente na realidade de nossa sociedade massificada e fundada no consumismo desenfreado e regulador de tudo, não é exclusividade de uma ou outra posição política – dos herdeiros da tradição da Escola de Frankfurt aos críticos reputados “elitistas”, o reconhecimento desse processo de mercantilização, com a consequente frivolidade que vem de par, é inegável.

Há, contudo, uma curiosidade a respeito da posição de Vargas Llosa que vale a pena notar. Poucos anos antes de sua conferência em 2010 nos palcos do Fronteiras do Pensamento, sua posição parecia ser bastante diferente. Havia até mesmo certo otimismo – um traço de sua personalidade a que Llosa frequentemente fazia e faz referência.



Basta voltar cinco anos no tempo, a 2005. Vargas Llosa escreveu o prólogo para um pequeno volume, a publicação da conferência justamente de George Steiner intitulada A Ideia de Europa. Llosa apresenta Steiner como uma das últimas figuras a encarnar a velha Europa dos intelectuais, da arte, da alta cultura. O peruano faz menção ao pessimismo de Steiner, é claro, quando, nesta brilhante conferência sobre a identidade, a essência do que é a Europa, Steiner afirma, em última instância, que a Europa – e a visão de cultura que a Europa representa – acabou. Já então, há mais de quinze anos, George Steiner reconhecia que o “pesadelo da História europeia” continuava intacto: os ódios étnicos, o chauvinismo, o ressurgimento do antissemitismo. Os atuais acontecimentos no Velho Mundo comprovam a correção do diagnóstico de Steiner. O velho crítico franco-americano atacava ainda vigorosamente a uniformização da cultura e das ideias, ocasionada diretamente pela globalização dos mercados que, de quebra, universalizou tudo pela régua da mercadoria, afirmando categoricamente que em nosso tempo, “não é a censura que mata a [cultura]: é o despotismo do mercado e os incentivos do estrelato comercializado”.   

>> Leia com exclusividade um excerto do primeiro romance de Llosa, "A Cidade e os Cachorros".

Quando lemos isso, é impossível não pensar que o diagnóstico é muito semelhante ao do próprio Vargas Llosa em 2010 no Fronteiras, reprisado em seu livro A civilização do espetáculo (2012). Contudo, qual não é a nossa surpresa ao constatarmos que o Llosa de apenas cinco anos antes julgava esse pessimismo de George Steiner “injustificado”, e via a situação global da cultura com melhores olhos.

Sempre me questionei o que teria levado Llosa a mudar de posição sobre algo tão importante para ele em tão pouco tempo. É certo que nesses últimos quinze anos, muita coisa mudou para pior, dando razão aos mais pessimistas, como George Steiner. Penso, contudo, que o elemento mais importante aos olhos de Llosa é constatar objetivamente o desaparecimento de uma certa forma de vida – um certo modo de existir no mundo que sempre esteve profundamente ligado ao entendimento mais tradicional, complexo e sofisticado de cultura. Essa forma de vida e essa compreensão da cultura sempre dependeram fundamentalmente do livro, da cultura livresca, das “artes da palavra”. É esse mundo – o mundo dominado pelo Texto, pela Escrita – que desaparece a olhos vistos, e que deu origem a mais de uma importante reflexão do mesmo George Steiner. É o desaparecimento dessa forma de existir e de vivenciar a cultura que, penso eu, Llosa lamenta. 

Contra isso, ele lança seu vigoroso protesto de humanista esclarecido: fiquemos com a Literatura. Não por acaso, as palavras com que encerrou seu discurso de agradecimento pelo Prêmio Nobel daquele mesmo ano de 2010 nos exortavam a isso.

Da caverna aos arranha-céus, do garrote as armas de destruição em massa, da vida tautológica da tribo à era da globalização, as ficções da literatura multiplicaram as experiências humanas, impedindo que nós, homens e mulheres, sucumbamos à letargia, ao egoísmo, à resignação. Nada semeou tanto a inquietação, perturbou tanto a imaginação e os desejos, quando a vida de mentiras que acrescentamos à vida que temos, graças à literatura, para protagonizar as grandes aventuras, as grandes paixões, que a vida verdadeira nunca nos dará. As mentiras da literatura tornam-se verdades através de nossos leitores transformados, contaminados de anseios e, por culpa da ficção, em permanente questionamento de uma realidade medíocre. Feitiçaria que, ao nos iludir que temos o que não temos, que somos o que não somos, fazendo-nos ascender a esta impossível existência onde, como deuses pagãos, nos sentimos terrenos e eternos ao mesmo tempo, a literatura introduz em nossos espíritos o inconformismo e a rebeldia, que estão por trás da de todas as façanhas que contribuíram para diminuir a violência nas relações humanas. (...) Por isto temos que continuar sonhando, lendo e escrevendo, a maneira mais eficaz que encontramos de aliviar nossa condição mortal, de derrotar a corrosão do tempo e de converter o impossível em possibilidade [1]

[1] Tradução de Larry Fernandes para a editora Simonsen, 2015.