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O mundo em desacordo: democracia e guerras culturais

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Fronteiras do Pensamento 2018 promoverá oito conferências, de maio a novembro, em cada uma das cidades que abrigam o projeto, Porto Alegre e São Paulo. Os ingressos adquiridos garantem participação em todos os encontros.

A partir da temática O mundo em desacordo: democracia e guerras culturais, o Fronteiras trará, ao Brasil, grandes mentes contemporâneas para incentivar as liberdades individuais, o debate e os novos consensos. Falamos de nomes como Ai Weiwei, Vik Muniz, Mark Lilla, Leïla Slimani e muitos outros. No palco do projeto, diferentes visões de mundo dialogarão sobre aqueles que consideram os principais desafios do nosso tempo: da criatividade humana à cura do câncer, abrangendo diversos aspectos que impactam o cotidiano da sociedade como um todo.

Participe deste grande debate. Conheça a programação e garanta sua participação na edição deste ano.
Plantão de vendas aberto ao longo do final de semana: 4020.2050.

O mundo em desacordo: democracia e guerras culturais

Construir consensos é um ideal indissociável das democracias. Ao contrário dos regimes de força, que impõem visões de mundo únicas, democracias contemplam uma pluralidade de modos de vida, de identidades coletivas e individuais, com seus anseios, suas aspirações e suas urgências. É apenas na democracia, graças ao debate público, ao esclarecimento e ao convencimento do outro, que variadas identidades formam arranjos de maiorias e minorias para buscar o acordo, a tolerância e a harmonia.

Contudo, o que ocorre quando identidades religiosas, raciais, de gênero ou de comportamento e cultura tornam-se tão radicalizadas que a sociedade não encontra mais o consenso? O que acontece quando reinam a intolerância e o extremismo onde deveriam triunfar os direitos de todos, o respeito mútuo e a igualdade na diferença? Quando a sociedade envereda por esse caminho – o caminho das guerras culturais –, é a própria democracia que corre riscos.

Já faz meio século que políticas de ações afirmativas e movimentos identitários têm sido parte essencial da busca por uma sociedade baseada em direitos e oportunidades para todos. O problema surge quando um tipo qualquer de identidade produz seus próprios critérios de superioridade moral e exclusão do outro, inviabilizando os acordos e consensos mínimos que garantem a vida e a força das sociedades democráticas modernas. Mark Lilla, da Universidade de Columbia, afirma que “o progressismo norte-americano anda imerso em um tipo de pânico moral em função de temas de gênero, raça e identidade sexual”. O mesmo poderia ser dito sobre diferentes formas de conservadorismo.

As guerras culturais marcam a migração dos temas éticos para o centro do debate público. O sentido e os limites da arte, a natureza do casamento e da família, o papel da mulher e do homem na sociedade passam a ser matéria de acirrado debate político, partidário e governamental, não mais se restringindo à esfera dos indivíduos ou da sociedade civil. Sobre esses temas não haverá acordo em uma “grande sociedade” plural.

O filósofo e neurocientista de Harvard, Joshua Greene, fala de uma “tragédia da moralidade do senso comum” para tratar do desacordo nas democracias contemporâneas. Somos talhados para viver em “tribos morais”, não em um universo cosmopolita. Uma ética global ainda está para ser construída. Este é, em boa medida, o desafio de nosso tempo.

A agravar essa situação há o papel das mídias sociais. No lugar da grande ágora global, que no final do século passado prometia o aprofundamento do diálogo entre os diferentes, o que emergiu de fato assemelha-se mais a um tipo de guerra hobbesiana de todos contra todos, impedindo os consensos e minando instituições democráticas.

Explorar esses temas, celebrar a diferença sem perder a dimensão do diálogo, decifrar os mistérios da guerra cultural e o atual estado da democracia global serão alguns dos desafios do Fronteiras do Pensamento em 2018.