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Gilles Lipovetsky: A busca pela leveza se tornou uma pesada obsessão

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Lipovetsky participa de debate com Leandro Karnal no Fronteiras Salvador
Lipovetsky participa de debate com Leandro Karnal no Fronteiras Salvador

"Reality shows e games, programas de auditório, espetáculos e animações contínuas: a oposição entre o econômico e o frívolo se embaralhou; nosso princípio de realidade se confunde agora com o princípio de superficialidade." - Gilles Lipovetsky, Da leveza - rumo a uma civilização sem peso (Ed. Amarilys, 2016)

Sugira um pensador capaz de explicar a lógica das incontáveis questões que se apresentam cotidianamente em nossas vidas. Nós indicamos Gilles Lipovetsky, cujas reflexões sobre moda, tecnologia, dietas e lazer revelam muito de nossos mais profundos medos e anseios.

Tudo isso é abordado na obra do filósofo, que jamais deixa de lado os aspectos emocionais da hipermodernidade: a solidão, o sentimento de vazio, a ansiedade e a depressão são problemas que o pensador atribui ao nosso tempo.

Gilles Lipovetsky foi convidado do Fronteiras do Pensamento Salvador 2018. Em um evento especial, o filósofo francês sentou frente a frente com Leandro Karnal, no Teatro Castro Alves, no dia 17 de setembro de 2018.

Da Leveza – Rumo a uma civilização sem peso

Lipovetsky é autor de vários best-sellers, como O império do efêmero, A era do vazio e O crepúsculo do dever.

Seu amplo e "inusitado" campo de pesquisa (ao menos para um filósofo com tamanho respeito do mundo acadêmico), resultou em mais uma obra inovadora, que apresenta as transformações do mundo nos mais diversos aspectos como um caminho em direção à civilização da leveza.

O livro Da leveza – Rumo a uma civilização sem peso, foi premiado na França com o Prêmio Montyon, entregue pela Académie française e pela l'Académie des sciences.

Na obra, Lipovetsky defende que "o leve" invadiu nossa rotina e transformou nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal.

Na sociedade pós-moderna (ou melhor, hipermoderna), o virtual, os dispositivos móveis, os nanomateriais estão mudando nosso cotidiano. Por todos os lados, a ordem é conectar, miniaturizar, desmaterializar.

Na contramão dessa tendência, contudo, ele defende que a vida parece cada vez mais pesada e difícil de suportar; ironicamente, diz ele, seria essa leveza que alimenta a sensação de peso.

Os imperativos de uma vida mais leve – dietas, desintoxicações, desaceleração, alívio do estresse, meditação e outras práticas – vêm acompanhados por demandas exigentes.

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Em entrevista, Gilles Lipovetsky fala mais sobre sua obra:

No seu livro, o senhor avalia que a busca pela leveza se tornou uma pesada obsessão. Esse é um círculo vicioso?
Gilles Lipovetsky: Todo o universo da leveza é, para as pessoas, cada vez menos leve. Por isso eu falo em civilização do leve, que tem só uma aparência de leveza. Nas nossas democracias, vemos a multiplicação dos pós-materialismos, como o budismo, o zen, a meditação. Tudo para nos ajudar a respirar um pouco.

Pagamos o preço do individualismo, do estresse, da ansiedade. Ao mesmo tempo, as pessoas veem vídeos, ouvem música, saem de férias, viajam. É um paradoxo.

Eu acredito que nós estamos vivendo uma nova cultura democrática. Eu pertenço à geração da década de 1960 que tinha uma retórica revolucionária, que não era leve. Não é mais esse o espírito do tempo.

As pessoas não sonham mais com revolução, elas sonham com uma existência mais leve, mais equilibrada, menos conflituosa. Isso é infinitamente mais difícil porque se trata da busca eterna pela felicidade. E a solução para a felicidade nós não temos.

A obsessão pela leveza é um desdobramento do hiperconsumismo e do hiperindividualismo, que o senhor já abordou em livros anteriores?
Gilles Lipovetsky:
A obsessão pela leveza é uma manifestação desses fenômenos, mas traz uma dimensão nova. Nós vivemos em um mundo tecnologicamente leve.

Nos últimos 50 anos, desenvolvemos uma série de técnicas que fizeram com que a leveza não fosse mais um sonho.

Hoje, você tem a possibilidade de viajar o mundo inteiro em um celular que cabe no bolso, muito mais potente do que os primeiros computadores que pesavam uma tonelada. É inacreditável!

A civilização do leve conjuga três lógicas: a tecnocientífica, a capitalista e a individualista. E estamos apenas no início. O poder hoje está em dominar os menores elementos: a inteligência artificial, a engenharia genética, isso é o ultraleve.

Antes, o poder era pesado. Castelos, ouro, canhões. Hoje, as maiores potências vendem bytes.

A civilização do leve valoriza o prazer, o consumo, o lazer e o entretenimento. Precisamos dessa leveza, mas ela precisa ter limites.

É preciso dar às pessoas ferramentas para que elas construam uma leveza rica, não uma leveza pobre. Passar três horas no shopping é leve, mas é pobre. Uma hora, a leveza vira vazio.

É possível estabelecer uma relação entre a civilização do leve e o que você chama de “capitalismo artista"?
Gilles Lipovetsky:
O capitalismo industrial tem na produção o seu motor. Nessa época, a produção é separada de outras manifestações, como a arte e a moda. A fábrica é a fábrica, a arte é a arte. Cada universo é bem separado.

A partir dos anos 1950, o consumo passa a ser o elemento mais dinâmico. Assistimos, então, à hibridação desses universos antes separados, o que dá uma leveza ao que antes era pesado.

Produção e criatividade se misturam, criando o que chamo de capitalismo artista. A Apple é o exemplo perfeito desse capitalismo. É a hibridação entre o produto utilitário e o produto criativo.

ASSISTA A LIPOVESTKY | Vemos o mundo através de imagens. Até aqui, não há nada de novo. O que mudou foi que as marcas compreenderam esta lógica e passaram a integrar diversas ferramentas para transformar o comportamento dos consumidores. Gilles Lipovetsky, autor de best-sellers como “O império do efêmero” e “A era do vazio”, nos explica como funciona este novo “management do imaginário”.



lipovetsky e karnal

Gilles Lipovetsky e Leandro Karnal | Faça o download gratuito do conteúdo especial para o debate entre o filósofo francês e o historiador brasileiro. O libreto inclui breve biografia, links indicados e informações de destaque sobre os conferencistas.

"Pós-modernidade significa também a conciliação da economia de mercado com direitos humanos. Logo, a pós-modernidade é a reconciliação da modernidade consigo mesma.” - Gilles Lipovetsky

"O mais desafiador seria pensar, ‘sartrianamente’, que a vida em si não apresenta um sentido prévio, mas que devemos descobrir algo a partir da nossa realidade, pois a existência precede a essência.” - Leandro Karnal