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Gilles Lipovetsky: "Bem-estar é o novo luxo"

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Detalhe da capa de 'Da Leveza' (edição coreana, Moonye Publishing)
Detalhe da capa de 'Da Leveza' (edição coreana, Moonye Publishing)

Você quer uma pele bronzeada, mas tem medo do câncer. Quer um bom almoço de domingo, mas a magreza exige dieta permanente. Quer trabalhar menos, mas precisa pagar os retiros de relaxamento nas férias. Se você sente culpa constantemente, bem-vindo ao clube: as regras que regem nossa sociedade são sim paradoxais. A culpa é quase inescapável.

Para esquecer de tanta angústia, nada melhor do que apostar no consumo. Mas não o consumo das décadas de 1960, 1970, aquele dos incontáveis produtos se acumulando pela casa. Hoje, queremos aventuras, spas, viagens... Experiências que tragam saúde física e mental, que garantam que nossa vida não passou em vão. Nossa busca é a qualidade de vida. Nosso luxo é o bem-estar.

Estamos melhorando? Piorando? Isso não importa. O objeto de estudo do filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky não é a salvação da humanidade, mas sim uma profunda compreensão sobre quem somos, o que buscamos e todas as consequências emocionais que isso nos gera. Talvez, seja por isso que ele entra no difícil grupo de filósofos best-sellers. Seu foco de pesquisa é nossa vida e ouvir o que ele tem a dizer vai de enriquecedor a reconfortante.

Salvador poderá assistir às ideias de Gilles Lipovetsky em um evento especial: um debate entre o filósofo francês e Leandro Karnal. Garanta sua presença na série de conferências na capital baiana.

O que é "consumo de experiência"?
Gilles Lipovetsky:
Vai além dos produtos que podem me trazer esse ou aquele conforto, ou me identificar com essa ou aquela classe. As razões para escolher um celular, hoje, vão além das especificações. Queremos ouvir música, tirar fotos, receber e-mails, jogar. Ter vivências, sensações, prazeres. É um consumo emocional.

Então, o que é o luxo, hoje?
Gilles Lipovetsky: O luxo, apesar de ainda existir na forma tradicional, também está mudando. Quando buscamos um hotel de luxo hoje, não queremos torneiras de ouro, lustres. O luxo está nas experiências de bem-estar que o lugar pode oferecer. Spa, sala de ginástica, serviço de massagem. O bem-estar é o novo luxo.

Como consumir bem-estar?
Gilles Lipovetsky: Nos anos 60 e 70, quando o consumo de massa possibilitou que famílias de classe média se equipassem com produtos, o bem-estar ainda era medido em termos de quantidade. Hoje, o que está na cabeça das pessoas é o bem-estar qualitativo: a tal qualidade de vida. O que inclui a qualidade estética.

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Qual a relação entre busca de bem-estar e uma sociedade mais e mais "medicalizada"?
Gilles Lipovetsky: A obsessão com a saúde e a prevenção é o lado obscuro do hiperconsumismo, gerador de ansiedade quase higienista. A quantidade de informação disponível torna o consumo complicado. Na alimentação, os consumidores estão ávidos pela leitura dos rótulos: quais são os ingredientes, de onde vêm, podem causar câncer, engordar?

Há 40 anos, íamos ao médico uma vez por ano, se muito. Hoje, um indivíduo faz até dez consultas por ano. O consumo de exames, para nos fazer sentir "seguros", cresce exponencialmente. Sintoma do hiperconsumismo: queremos comprar nossa saúde.

Como vê as campanhas contra o cigarro e a obesidade?
Gilles Lipovetsky: O hiperconsumidor está preso num emaranhado de informações e ele tem muitas regras a seguir. Parar de fumar faz parte da lógica da prevenção. É um sacrifício do presente em prol do futuro. No hiperindividualismo, a gestão do corpo é central. Esse autogerenciamento permanente explica, também, a onda do emagrecimento.

Expor-se ao sol é arriscado, mas é considerado bonito ter a pele bronzeada. Privar-se de comer é privar-se do prazer. É um paradoxo que todos vivem e, por isso, no caso dessas mulheres subjugadas ao terrorismo da magreza, elas sentem culpa. As regras são contraditórias.

Qual é a saída para toda essa ansiedade?
Gilles Lipovetsky: As compras. Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão ao shopping center. Comprar, ir ao shopping, viajar -são as terapias modernas para depressão, tristeza, solidão. Você pode comprar "terapias de desenvolvimento pessoal". Um fim de semana zen, um pacote de massagens. Todas as esferas de vida estão subjugadas à lógica do mercado.

Por que as pessoas não se sentem felizes?
Gilles Lipovetsky: O hiperindividualismo aparece quando nossa sociedade nega as instituições da coletividade. A religião, a comunidade, a política. Os deuses são os homens. O indivíduo é um agente autônomo que deve gerenciar a própria existência. Esse indivíduo pode fazer escolhas privadas - que profissão fazer, com quem se casar, o que comprar - mas está submetido às regras da globalização econômica de eficácia, de produtividade, juventude, consumo.

O acesso ao conforto material, enquanto sociedade, não nos aproximou da felicidade. Há tanta ansiedade, tanto estresse, tanta angústia e tanto medo que a abundância não consegue proporcionar um sentimento de completude.

Consumimos para esquecer?
Gilles Lipovetsky: Também. Mas há um outro lado. Desenvolvemos o que eu chamei de "don juanismo" [ele cita o personagem "Don Juan", da ópera de Mozart, que "conheceu" 1.003 mulheres]. Todos nos transformamos em Dons Juans.

Somos todos colecionadores de experiências. Temos medo que a vida passe ao largo. Existe um senso comum que nos diz que se não tivermos vivido tal ou tal experiência, teremos perdido nossa vida. É uma luta contra o tédio, uma busca incansável e viciada pela novidade, pela fuga da rotina.

(entrevista via Folha de S.Paulo)

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Quais crenças fundamentam sua existência? Quais sistemas de governo você defende? Esqueça estas perguntas. Agora, o importante é saber o que você gosta de fazer, de ouvir, de ver... E compartilhar tudo isso, é claro, porque, na era das mídias sociais, os elementos que definiam nossa identidade se transformaram e passaram a focar nos gostos culturais das pessoas. Os incontáveis posts sobre nosso cotidiano são a base da explicação do filósofo francês Gilles Lipovetsky, que explica como nossos murais revelam mais sobre nós do que pensamos e clamam por um reconhecimento questionável.