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José Eduardo Agualusa: "Em tempos de construção de muros, os livros são nossas pontes"

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José Eduardo Agualusa acredita que os livros são um território de pensamento e que a literatura é um exercício permanente de se colocar na pele do outro.

O escritor angolano já publicou 30 obras, traduzidas para mais de 25 idiomas. Dentre seus trabalhos, está o premiado O Vendedor de Passados (2002), que virou filme nas mãos de Lula Buarque de Hollanda.

Ao contrário da maior parte dos escritores da sua geração – que critica em seu livro mais recente, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários –, o escritor angolano optou por fazer da crítica política e social um tema recorrente de suas obras.

Esta interseção entre arte e política foi tema da sua fala no Fronteiras do Pensamento 2018, em Porto Alegre e Salvador, intitulada A leitura como utopia – literatura, democracia e justiça social, o caso angolano.

Foi no palco do projeto que o escritor mostrou como a literatura, o otimismo e a capacidade de sonhar podem nos ajudar a enfrentar momentos de crise política e social:  “Em países como Angola, que estão emergindo agora de longas guerras civis ou de outros conflitos semelhantes, a pacificação passa pela redescoberta do próximo. Os livros podem e devem ter um papel fundamental em todo este processo.”

Em entrevista à Braskem, patrocinadora do www.fronteiras.com, Agualusa prossegue sua defesa da literatura como agente de transformação social e explica que, em tempos de construção de muros, os livros podem ser nossas mais poderosas pontes para recuperarmos a capacidade de diálogo.

Leia e assista abaixo à fala de José Eduardo Agualusa


Seu livro mais recente no Brasil, A sociedade dos sonhadores involuntários, apresenta uma prosa muito poética. Qual a importância da poesia para o seu trabalho?

José Eduardo Agualusa: É fundamental. Eu sou, sobretudo, um grande leitor de poesia. Sempre leio poesia para escrever ficção. Nunca consegui entender por que haveríamos de fazer divisões e fronteiras. Acho que continuo a escrever poesia escrevendo ficção.

Como a literatura pode nos ajudar a descobrir quem somos e o que podemos fazer pelo mundo em que vivemos?

José Eduardo Agualusa: Um livro, qualquer livro, é um diálogo. Ele estabelece um diálogo entre quem lê e o autor desse livro. Nesse sentido, o livro, qualquer livro, nos abre janelas para outros mundos.

Por outro lado, o livro também nos aproxima das pessoas, dos outros. Acho que a literatura é sempre um exercício também de autoconhecimento: ao conhecer melhor o outro, você conhece melhor a si próprio.

Em sua vinda ao Fronteiras, Mia Couto defendeu uma nova forma de pensamento, uma que crie pontes e não fortalezas. Seus livros se aproximam muito desta sabedoria. Como começar este processo de transformação?

José Eduardo Agualusa: Sim, concordo em absoluto com Mia. Acho que os livros são pontes. Os livros são sempre pontes. Em um tempo dramático como este em que vivemos, em que se faz a exaltação dos muros, da construção dos muros, a melhor forma de combater essas ideias é ler, é divulgar um livro, é apoiar as redes de bibliotecas públicas, é levar um livro a todos os leitores possíveis.


Existem eixos que conectam as literaturas realizadas por autores africanos, portugueses e brasileiros?

José Eduardo Agualusa: Eu acho que a literatura dos nossos países, quer seja no Brasil, em Portugal, Angola ou Moçambique, já estão tão evoluídas, já são tão complexas, que é difícil responder a uma pergunta dessas.

Em cada um desses países, já existem modelos literários e as pessoas cultivam modelos literários muito diferentes. Tenho dificuldade de responder, não só porque em cada um desses países as literaturas já são tão diferentes, que não é possível falar de um modelo em Portugal ou um modelo no Brasil, quanto mais no conjunto dos três.

Relembre a passagem de José Eduardo Agualusa pelo Fronteiras do Pensamento

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Clique nas cidades para ver as fotos dos eventos: em Porto Alegre e em Salvador

Assista a José Eduardo Agualusa – Democracia, literatura e a queda de todos os muros

No próximo debate presidencial, peça ao jornalista que questione os candidatos sobre suas obras de ficção favoritas. A pergunta pode parecer estranha, mas é o caminho para descobrir se você estará elegendo um país de muros ou uma nação de pontes. É o que indica José Eduardo Agualusa, que nos explica como a literatura é capaz de transformar a democracia e a desenvolver a empatia dentro de todos nós.