Voltar para Entrevistas

O poder de contar e ouvir histórias

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Mia Couto no Fronteiras Braskem do Pensamento 2017
Mia Couto no Fronteiras Braskem do Pensamento 2017

Saber escutar. Eis uma característica que todos buscam num bom amigo. Quem sabe escutar mostra curiosidade, interesse no outro e disposição a entender uma realidade que não é a sua. Em tempos de ansiedade e necessidade de assumir posicionamentos, muitas vezes escutamos inquietamente, atropelando o ritmo do outro para podermos também falar. As pessoas que têm paciência para ouvir, frequentemente se tornam mais habilidosas no momento de se expressar. Para Mia Couto, escritor moçambicano, o hábito de escutar histórias ao longo da vida teve papel central no desenvolvimento de sua escrita.

“Essa África onde eu vivo é uma sociedade que escuta. As pessoas escutam os outros e, na conversa, há uma distribuição de tempos: o tempo da fala e o tempo da escuta, como se por turnos as pessoas soubessem o que têm de fazer”, relata Mia Couto.

Em entrevista especial à Revista Brasileiros, o escritor fala sobre sua trajetória na literatura, os escritores que o influenciaram, o desenvolvimento da criatividade e a importância de as crianças ouvirem histórias para enxergarem melhor o outro. Leia o material completo!

Mia Couto foi o primeiro conferencista da série especial do Fronteiras em Salvador. Camille Paglia e Graça Machel são as próximas convidadas. Garanta sua participação nas conferências! 


Gostaria de perguntar sobre o seu processo de escuta. De que forma começou a escutar essa oralidade que transpõe para a palavra escrita?

Começou em casa, quando começa tudo. Havia ali essa tentação de escutar e vivia-se em um ambiente de histórias. Meus pais, sendo imigrantes portugueses, eram contadores de histórias e sofriam daquele mal da saudade, então tinham de reinventar o país que deixaram. As primeiras grandes viagens que fiz foi por meio da escuta dessa narração. Também havia outra coisa: eu era o que ficava calado, os meus irmãos falavam. Digamos que percebi que havia quase uma repartição de funções. Cabia a mim escutar, e isso foi uma grande escola.

Quando o senhor começou a achar que era hora de transpor essas vozes para a escrita?

Essa África onde eu vivo é uma sociedade que escuta. As pessoas escutam os outros e, na conversa, há uma distribuição de tempos: o tempo da fala e o tempo da escuta, como se por turnos as pessoas soubessem o que têm de fazer.

Acho que houve um momento em que eu, já jornalista, fui tentado a escrever as histórias que escutava. Essas histórias estavam tão vivas, tinham tanta força, que pediam que fossem transportadas dessa oralidade para a escrita.

Mas aí percebi que a própria escrita tinha de mudar. Aquela que eu sabia e reconhecia não acomodava essa riqueza, essa coloração e, sobretudo, a música, a prosódia. Comecei a procura de uma escrita que fosse plástica e permitisse essa inundação da oralidade.

Fiz um primeiro livro (Vozes Anoitecidas, 1987) já muito influenciado por um angolano chamado Luandino Vieira, que abriu portas à oralidade da sua cidade, Luanda, e li uma entrevista em que ele fazia referência à influência de João Guimarães Rosa em seu trabalho.

Então, fui à procura de Guimarães Rosa. Nos meus livros seguintes, como Estórias Abensonhadas (1994), já tive esse encontro, que realmente foi importante porque havia ali uma legitimação: é possível fazer isso, é possível deixar entrar essas vozes.

Em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento [em 2011], Edgar Morin disse que a poesia da vida é mais importante que a felicidade. O senhor concorda? Acha que falta poesia no mundo?

Provavelmente a felicidade implica sempre uma poesia do mundo. Não sei o contexto dessa frase, mas dita assim parece que há uma dicotomia entre felicidade e poesia.

Não vejo outra maneira de reconquistarmos um sentido de felicidade que seja pleno, que não vá por esse caminho de nos restituir um olhar poético. O olhar poético não é alguma coisa que tenha a ver com a poesia escrita ou como gênero literário, mas tem a ver com aceitarmos que essa linguagem dos sonhos é uma linguagem válida, que nos ajuda a ler o mundo.

O senhor mencionou o perigo de entregar a máquinas - como televisão, computadores e tablets - a tarefa de contar histórias às crianças. Por que isso é perigoso e como reencontrar o tempo para contar histórias?

Acho que é perigoso, porque contar histórias não é simplesmente transmitir alguma coisa que já está feita. No momento em que se conta a história a alguém, não há ali uma escuta mecânica, mas sim qualquer coisa que cria, sobretudo, a construção de uma relação entre pessoas e, obviamente, a máquina não pode fazer isso.

A construção dessa relação interpessoal e do apetite por ela marca: é como se a história existisse só para criar essa rede, essa capacidade de estarmos juntos, de escutarmos, de sermos outros.

Claro, há um momento em que a máquina pode estar ligada e cumpre a função de “anestesiar" a criança, mas falo é da ausência do resto. A máquina passa a ser a exclusiva ligação com a fantasia, e a criança é colocada desde o princípio só como consumidora de uma imagem que já está feita em definitivo e ela pode voltar e ver da mesma maneira mil vezes.

Mas quando a criança pede ao pai, à mãe ou a alguém que lhe conte uma história, ela nunca é exatamente repetida. Há ali uma recriação e a criança percebe que esse momento a torna também criadora.

Entre as suas identidades está a de biólogo, e o senhor já classificou a biologia como uma “indisciplina científica". Como essa identidade entra em sua literatura?

De uma forma que é absolutamente vital. Está onipresente aquilo que a biologia me entrega como uma linguagem e uma maneira de escutar.

A biologia prolongou esse apetite que tenho de escutar o mundo e de perceber que há ali vozes que tinham sido anuladas por certa visão antropocêntrica de que somos nós os únicos que temos alguma coisa a dizer. A maneira como abracei a biologia foi nessa procura de perceber linguagens e aprender códigos.

Hoje, sem ser de uma maneira metafórica, escuto a árvore, a planta, o bicho, porque de fato todas essas entidades querem dizer qualquer coisa além, não é? E por isso assumem cores e cheiros e diferenças de forma que me agrada muito escutar.

A literatura pode ser uma ponte para nos ajudar a refazer esses encontros também do ponto de vista da natureza?

Sem dúvida. Assim como a biologia, porque é também uma narrativa que tem feito descobertas que deviam ser mais conhecidas nessa educação para nos ajudar a descentrar-nos de nós próprios.

Por exemplo, as recentes descobertas genéticas que mostram o quanto temos de não humano, o quanto de nosso material genético não é exatamente humano, o quanto da nossa composição celular e da constituição física devemos a outros que estão dentro de nós, e que não são tão outros assim, porque, se os tirássemos, morreríamos em segundos…

Dizemos que essas bactérias e esse mundo de micro-organismos são meros hospedeiros que estão dentro de nós. Mas percebermos que eles não são simplesmente hospedeiros, são de tal maneira simbióticos que nós somos eles, é uma espécie de cambalhota e de reviravolta do ponto de vista quase filosófico na maneira que apreendemos o mundo.

Por que a escolha por esse caminho chamado literatura?

Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura.

Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a" literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo…

Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar ( risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita.


(Via Brasileiros)