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Pierre Lévy responde: o que a internet está fazendo conosco?

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"Qual o sentido de buscar um sentido?". Esse foi o questionamento proposto pelo filósofo francês Pierre Lévy durante conferência no Fronteiras do Pensamento, em Salvador, na noite desta terça-feira (10), no Teatro Castro Alves (TCA).

Lévy é um reconhecido pesquisador das tecnologias da inteligência e investiga as interações entre informação e sociedade. Mestre em História da Ciência e Ph.D. em Comunicação e Sociologia e Ciências da Informação pela Universidade de Sorbonne, é um dos mais importantes defensores do uso da Internet para a ampliação e a democratização do conhecimento.

No palco do Teatro Castro Alves, na noite de 10 de setembro, o filósofo tratou da mutação da comunicação digital e do alto percentual de pessoas conectadas à internet em todo o mundo. Segundo ele, cerca de 60% da população mundial está conectada.

Em relação ao tema da palestra e do Fronteiras 2019, os Sentidos da Vida, Lévy comentou que “saber se a evolução da história humana tem um sentido é uma enorme questão, debatida há séculos pelos filósofos. O que está muito na moda nos círculos pós-modernos é dizer que a história humana não tem sentido ou que ela tem tantos sentidos possíveis que não é realmente importante determinar qual é".  
 


Com patrocínio da Braskem e do Governo do Estado da Bahia, através do Fazcultura, o Fronteiras é realizado pela Caderno 2 Produções Artísticas, em Salvador, desde 2008. De lá para cá, a Bahia se consolidou como um dos três eixos principais do ciclo de conferências no país.
 
PRÓXIMO EVENTO >> o terceiro e último evento deste ano do Fronteiras do Pensamento Salvador acontece no dia 1º de outubro, em formato diferente das demais. Na ocasião, a filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz vão participar de um debate no palco principal do TCA. Os ingressos estão esgotados.


A conferência de Pierre Lévy no Fronteiras do Pensamento Salvador teve mediação de André Lemos, professor titular do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Após sua fala, Lévy respondeu as perguntas do público e de André Lemos. Ainda, a pergunta enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem.

Confira esta e outras respostas de Pierre Lévy no palco do Fronteiras Salvador

Pergunta Braskem: Quando a internet surgiu, a grande expectativa era do seu aproveitamento para fins educacionais. O que vemos hoje é uma grande disseminação de informação, mas, em grande medida, de conteúdo superficial, fake news ou bobagens. A internet e as redes sociais nos deixaram mais limitados?

Não é verdade. Temos de distinguir duas coisas: vocês podem usar as redes sociais para tirar foto do café da manhã, para insultar seus adversários políticos ou para disseminar fake news, mas vocês podem também participar da construção coletiva de um artigo na Wikipédia ou fazer com que todos os livros escolares estejam disponíveis eletronicamente sem custar nada.

É o que estou fazendo já há 10 anos com os meus alunos. Eles não têm que comprar livros e todas as leituras que eu recomendo estão disponíveis na internet.

Nós utilizamos, por exemplo, grupos de Facebook para discutir juntos, utilizamos o Twitter para fazer anotações. Existem muitas coisas positivas que nós podemos fazer com a internet.

Os jornalistas normalmente destacam os aspectos negativos, porque a internet é, de certa forma, uma concorrente da mídia clássica. Mas, eu gostaria de sublinhar o fato de que a mentira ou a manipulação não começaram com a internet.

Se vocês lerem as disputas políticas que aconteciam na república romana, vocês vão ver que toda a disputa de corrupção, manipulação e todos os processos truncados já existiam naquela época. Portanto, essa é a natureza humana. Nós não podemos culpar a tecnologia, porque isso vai desresponsabilizar as pessoas.

O que eu estou dizendo é que cada vez que você dá um like, compartilha alguma coisa ou usa uma hashtag, você está contribuindo para a construção de uma memória coletiva. Esta é uma responsabilidade que nós temos e que vocês devem levar a sério.

Existem bons usos e maus usos das ferramentas. Eu diria que a melhor que coisa que nós podemos fazer é educar as pessoas desde muito jovens a serem responsáveis individualmente nessa nova rede de comunicação e ensiná-las a pensar criticamente. 

Lévy respondeu questões do público e de André Lemos. Veja as principais falas do filósofo: 

O poder das mídias na política atual

Pierre Lévy: Me parece que no discurso de muitos jornalistas há uma espécie de desresponsabilização e despolitização. A internet não é responsável por essa onda contemporânea de populismo conservador. Se eu retomar aquilo que aconteceu nos anos 1930 e 1940 do século XX, a internet não existia e nós tivemos uma onda totalitária terrível.

Nós devemos analisar as coisas no plano político. Se eu disser que o fascismo surgiu por causa do rádio, sim, realmente havia rádio na Alemanha e na Rússia de Stálin, mas também havia rádio na Inglaterra.

Se dissermos que tal candidato ganhou por causa da internet, me parece que é uma forma de pensamento curto.

Eu sei que eu sou adversário daquilo que vocês pensam aqui, mas é minha responsabilidade como filósofo. São as pessoas que votam.

Sim, nós tivemos fake news, mas vocês pensam que a propaganda surgiu no século XX? A propaganda existe desde o início da política e no século XIX ela já era bastante poderosa. Então, cuidado com o fato de fazer de uma mídia técnica um agente político.

Se você me diz que os dados não são neutros, que os algoritmos não são neutros, é evidente. Os dados e os algoritmos são produções humanas e elas têm defeitos, então não são neutros. Mas, nada do que nós fazemos, nada do que existe na sociedade é neutro.

Vamos retornar à ação humana e refletir sobre isso, porque é fácil demais acusar a internet. É como dizer que o Irã está aí por causa das fitas cassete usadas para disseminar a sua mensagem, ou como dizer que Kennedy ganhou contra Nixon, porque ele era mais bonito na televisão.

Nós sempre encontramos esse tipo de desculpa, mas, na verdade, são evoluções políticas, culturais e de imaginário simbólico que estão em jogo e, evidentemente, vão usar técnicas.

Não esqueçamos da dimensão humana, que é a verdadeira responsável. 

A importância da leitura na formação do cidadão 

Pierre Lévy: Eu já venho dizendo há muito tempo que não podemos dominar o software, a maneira como os dados são tratados, se não dominamos a leitura e a escrita.

Não é possível ser um cidadão consciente com o pensamento crítico capaz de discernir coisas razoáveis das coisas que não são, se não sabemos ler e escrever. Se você ler em uma tela ou em um papel, isso é secundário. A importância está no texto.

Ler livros, compreendê-los, compará-los e ter uma cultura vasta tanto quanto possível sempre é uma vantagem.

A primeira necessidade é a educação primária de base. Uma vez que nós já temos essa educação primária, nós sabemos que temos problemas no Brasil e em outros lugares em que a alfabetização não chega a 100%, mas não imagine que ela chega a 100% em qualquer outro lugar.

Olhei as estatísticas ontem, porque imaginava que nós teríamos questões sobre isso. O analfabetismo funcional no Brasil é de mais ou menos 30% e no Canadá é de 20% com o índice mais alto de desenvolvimento humano. Então, é difícil aqui e em todos os lugares.

Primeiro, temos que ter educação de base e, depois, não devemos proibir as crianças de navegar na internet. Devemos ensiná-las a ler na Wikipédia, a cruzar fontes diferentes, a não reagir de maneira imediata e emocional a imagens ou a propostas que provavelmente eles gostam e que são fake news. Isso se ensina da mesma forma como ensinamos a atravessar a rua.

Nós vivemos em um mundo onde é necessário absorver os valores essenciais e o pensamento crítico.

Como construir um sentido de vida?

Pierre Lévy: Nós temos que construir esse sentido, porque você não pode simplesmente aceitar o sentido da vida visto como verdadeiro em torno de você.

Eu tentei mostrar que havia condições essenciais como, por exemplo, tudo aquilo que nós herdamos da natureza, tudo o que herdamos da evolução cultural, todos os sistemas simbólicos dos quais dependemos.

Isso tudo é necessário para construirmos o sentido da nossa vida. Se este sentido é verdadeiro ou não, isso é outra questão.

Todos nós devemos viver com a consciência de que temos uma parte de liberdade, de autonomia e de autodeterminação em nós.

O sentido está aí para ser construído. É melhor viver tentando construir um sentido da sua vida, do que simplesmente se resignar com o fato de que a vida não tem sentido. 

As mídias sociais estão aumentando ou reduzindo o isolamento humano?

Pierre Lévy: O fato de que estamos todos aqui, juntos, no mesmo lugar, que nós respiramos o mesmo ar, que as moléculas de carbono e oxigênio estão circulando de um pulmão a outro, é a prova de que sempre é possível e necessário.

Houve um aumento incrível na comunicação há algumas dezenas de anos e, em paralelo, também temos um aumento extraordinário do transporte físico. Então, essa ideia de que não nos encontramos mais, porque existe a telecomunicação, é uma ideia falsa de acordo com a minha opinião.

Existe uma coisa que é maciça nos dados, que é o crescimento da urbanização. Na verdade, as pessoas estão cada vez mais concentradas e mais próximas umas das outras.

Agora, existe outro fenômeno que é aquele do isolamento, do sentimento de isolamento, que é um problema real, mas que tem muito mais a ver com a nossa sociabilidade deficiente do que aos meios de comunicação.

Por exemplo, na Inglaterra, eles criaram um ministério da solidão. Lá, há cada vez mais pessoas que estão isoladas, mas não é por causa da internet. São pessoas idosas que os filhos não visitam mais.

Ainda há esse fenômeno de culpabilizar alguma coisa porque é má e nos impede de olhar as nossas próprias responsabilidades e de dizer: “bem, talvez eu devesse visitar mais meus pais que estão idosos e solitários”.

LEMBRE-SE >> o terceiro e último evento deste ano do Fronteiras do Pensamento Salvador acontece no dia 1º de outubro. A filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz participam de um debate no palco principal do TCA. Os ingressos estão esgotados.