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Valter Hugo Mãe: livros para criar humanidade

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Valter Hugo Mãe e Edney Silvestre no Fronteiras Braskem do Pensamento 2016 (Danilo Ribeiro | Ag. BAPRESS)
Valter Hugo Mãe e Edney Silvestre no Fronteiras Braskem do Pensamento 2016 (Danilo Ribeiro | Ag. BAPRESS)

As obras de Valter Hugo Mãe questionam nossas certezas mais profundas, visitam as profundezas da alma, define o escritor Mia Couto.

Ao ler livros como A desumanização, O filho de mil homens ou a máquina de fazer espanhóis, "passamos a encontrar uma luz interior num ato de revelação".

O fio condutor de toda a obra de Hugo Mãe é sua busca por uma humanidade essencial.

Seus personagens são muitas vezes dominados por circunstâncias difíceis ou incontornáveis. Diante destes desafios, eles saem engrandecidos devido ao seu crescimento pessoal, à sua maturidade e ao seu posicionamento diante da realidade.

Ou seja, reconhecer-se nas obras de Mãe é quase que uma regra. O escritor português, diz o amigo Couto, consegue apagar as fronteiras entre criatura e criador, entre autor, leitor e personagem: "somos nós que somos lidos".

Hugo Mãe nos explica como suas obras conseguem falar com o leitor de formas mais consoladoras e fraternas até mesmo do que muitos seres humanos.

"Para mim, os livros estiveram sempre presentes como companhias fundamentais, como se fossem gente e, talvez, mais do que isso: como se fossem gente fundamental para produzir o bem-estar, o equilíbrio, essa harmonização com as nossas dores e que é a única maneira possível para a felicidade", diz o autor.

Foi justamente sobre a felicidade que Hugo Mãe falou nesta entrevista concedida à Braskem, patrocinadora do Fronteiras.com.

O premiado autor português conversa sobre a distorção de valores entre construir e ter, sobre o que os livros devem fazer por nós e sobre como a internet está transformando a literatura. Confira a transcrição e o vídeo logo abaixo.

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A felicidade é um tema recorrente em suas histórias. Para você, como a sociedade moderna busca a felicidade e qual seria o caminho certo para encontrá-la?

Valter Hugo Mãe: Acho que, na sociedade moderna, nós somos consumidores. Eventualmente, nos deixamos levar por esta ratoeira, por esta armadilha do consumo. Colocamos o bem-estar e a questão das alegrias naquilo que está mais ligado ao ter.

Por isso, costumo dizer que valorizamos as coisas a partir do seu preço e não a partir daquilo que elas representam. Deveríamos pensar mais no valor efetivo e ético das coisas e não tanto no seu valor de mercado. Talvez, as coisas mais importantes nem estejam à venda, nem seja possível comprá-las.

Hoje, a felicidade está um pouco confundida com coisas básicas que já deveriam ter sido garantidas a todos, como habitação, vestuário, mobilidade... Porque a felicidade de verdade é outra coisa, é muito mais íntima, é muito mais perene. Ela não pode ser reveladora, orgástica: precisa ser uma construção mais perene.

>> Assista aos diversos vídeos com Valter Hugo Mãe e com outros grandes nomes da literatura contemporânea

Sobre o papel dos livros: eles têm papel de provocar mudança e inserir o ser humano na sociedade?

Valter Hugo Mãe: Eu não conseguiria escrever livros que não tivessem uma vontade de melhorar o mundo.

Eu jamais escreveria um livro se ele não estivesse influenciando e melhorar a mim mesmo. Por isso, sim.

Eu acho que, de alguma forma, sem que eu tenha planejado, eu gosto que meus livros sejam úteis nesse sentido estrito do termo, que sirvam efetivamente para criar humanidade.

Como a internet está mudando a maneira de se contar histórias?

Valter Hugo Mãe: A internet propõe uma abreviação. Subitamente, parece que não conseguimos aguentar um mesmo assunto durante mais do que três segundos. Isso pode radicalizar a maneira como frequentamos a literatura, como criamos a literatura.

Eu espero que as pessoas não se tornem tão aceleradas, ao ponto em que deixarão de poder aprofundar, digamos assim. Esse é, sobretudo, o grande desafio que os meios virtuais levantam: a profundidade com que as pessoas são capazes de abordar determinados assuntos.