Alberto Chebabo: “É muito importante que os países pobres possam ter acesso às vacinas”

Postado em dez. de 2021

Ciência | Medicina

Alberto Chebabo: “É muito importante que os países pobres possam ter acesso às vacinas”

O Fronteiras do Pensamento conversou com um profissional de referência na área de vacinas, Alberto Chebabo, médico, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.


Quando o mundo parecia respirar um pouco mais aliviado, após dois anos de convivência com a pandemia da covid-19, foi disparado um novo alerta diante do surgimento de uma nova variante da doença, denominada ômicron. Embora sua elevada capacidade de contaminação, os primeiros dados conhecidos não apontam maior gravidade da doença sobre os contaminados, tampouco que ela avance sobre a proteção das vacinas já em uso.

Para saber mais sobre esse momento emblemático e ainda com cenário incerto, o Fronteiras do Pensamento conversa com um profissional de referência no tema: Alberto Chebabo, médico infectologista que é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Diante dos dados e informações que temos até agora, a variante Ômicron é razão de maior preocupação ou até mesmo pânico?  

Pânico não. A gente tem que ter atenção e ampliar nossa vigilância. Temos uma população altamente vacinada no país. O ideal é ampliar essa cobertura vacinal para 80% da população e vacinar a população infantil, abaixo de 12 anos, que é um dos objetivos para o próximo ano, a partir da liberação da Anvisa. Essa variante ainda não mostrou nenhum dado que aponte que seja mais letal ou tenha efeitos mais graves do que as variantes que temos hoje, assim como ainda não se tem nenhum dado que evidencie que ela consiga escapar da proteção das vacinas, principalmente em relação à evolução para a doença grave.

 

Como o senhor avalia medidas preventivas que estão sendo tomadas pelas autoridades brasileiras, como o cancelamento de grandes eventos e a recomendação para seguir com o uso da máscara?

Primeiro a gente precisa entender o comportamento dessa variante, se vai justificar todo esse temor ou não. A gente não tem nenhuma evidência por enquanto de que ela causa uma doença mais grave e até mesmo a questão da reinfecção precisa ser comprovada. Sou uma voz um pouco dissonante em relação a todos esses movimentos. Em relação ao uso da máscara, ela é muito importante em ambiente fechado e não tem nenhuma importância em ambiente aberto, principalmente quando não há aglomeração. Não vejo muito sentido em não liberalizar o uso de máscara em ambiente aberto. Quem defende isso, baseado em evidências, sabe que o risco é muito baixo. Já quem defende o uso da máscara em ambientes abertos acha que a população não consegue entender a mensagem de quando usar ou não, com o que não concordo porque acho que a população brasileira consegue entender bem, desde que a gente explique. A gente tem visto isso aqui no Rio de Janeiro, onde a máscara não é obrigatória em ambiente aberto há mais de um mês e as pessoas continuam respeitando direitinho as recomendações. Em relação aos grandes eventos, a gente tem um cenário ainda muito favorável, mas aí tem que pesar o risco e a questão social, porque esses eventos trazem recursos para a população de baixa renda. Não é uma decisão fácil, tem que pesar os riscos da covid, que nesse momento são baixos, e os prejuízos sociais. Cada município tem tomado essa decisão, mas a tendência é o cancelamento.  

E qual sua posição sobre antecipar as doses de reforço da vacina?

Não vejo problema nenhum. O Reino Unido já está antecipando, a gente também. No Rio, para quem tem 55 anos ou mais, já é de três meses o intervalo para fazer a dose de reforço. Entre 18 e 54 anos, se mantém os cinco meses. Se for necessário, pode-se reduzir esse intervalo, mas não sei se isso tem um impacto tão importante. O importante é que as pessoas se vacinem no momento correto e quem já puder fazer a dose de reforço que faça o quanto antes.

 

O surgimento desta nova variante do coronavírus reforçou uma realidade preocupante desde o começo da vacinação contra a covid-19, que é a desigualdade na distribuição mundial dos imunizantes. A África tem apenas, até este momento, cerca de 7,5% de sua população com a cobertura vacinal completa. Essa disparidade não teria de ser combatida em caráter prioritário para seguir a diretriz da OMS, a de que enquanto todo mundo não estiver protegido ninguém estará protegido?

Sem dúvida. A gente já vem falando isso há algum tempo, que a cobertura  vacinal no mundo precisava ser homogênea. Não adianta um país rico amplamente vacinado, inclusive com doses de reforço, se a gente não tiver junto a vacinação nos países mais pobres e com maior dificuldade de acesso às vacinas, porque isso vai levar ao surgimento de variantes. O vírus continua se replicando, continua se modificando, continua evoluindo. Novas variantes podem escapar da cobertura vacinal que já temos, inclusive nos países que conseguiram chegar num nível de cobertura elevado, trazendo isso para um cenário de pior evolução, para um quadro de menor proteção no mundo inteiro. Pode acontecer a qualquer momento. É muito importante que os países pobres possam ter acesso às vacinas e que os países ricos, com maior capacidade de compra e investimento, também doem vacinas.

 

 O Brasil mostra um índice de vacinação superior ao de muitos países desenvolvidos, embora tenha começado a imunização com certo atraso e tenha uma dimensão continental. Quais fatores explicam esse quadro geral positivo, além da expertise do país em grandes campanhas vacinais?

O Programa Nacional de Imunização do Brasil é bastante forte e é elogiado no mundo inteiro. Tem uma capilaridade muito grande em todo o território nacional. Tem uma estrutura que permite vacinar populações ribeirinhas em locais distantes e de difícil acesso, como, por exemplo, na região Amazônica. E há uma conscientização muito grande da própria população. Nestes últimos anos, houve uma queda da cobertura vacinal no país, com menos investimento do governo federal, dos estados e municípios, é um problema que parte de diferentes esferas. Mesmo assim, a gente tem a tradição de vacinação muito incutida na população, e não foi diferente com a covid-19. Teve uma procura muito grande pela vacina, apesar de algumas autoridades terem desempenhado um papel até contrário à vacinação. A gente sabe que a cobertura vacinal é maior do que a anunciada todos os dias, porque existe um problema grave no registro das doses aplicadas. A nossa cobertura vacinal é muito boa, mas tem que melhorar e evoluir, principalmente em alguns estados do Norte e do Nordeste. Nossa população busca a vacina, não só no esquema primário, mas também nas doses de reforço. A gente tem uma cobertura muito boa, melhor do que a maior parte dos países.

 

 

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