Geoffrey West: cidades são espaços de interação

Postado em ago. de 2014

Ciência | Cidades Inteligentes

Geoffrey West: cidades são espaços de interação

Em entrevista, físico britânico Geoffrey West explica como biologia, física e urbanismo se encontram nas leis que regem o crescimento dos organismos


"A cidade é um espaço que inventamos para facilitar interações entre pessoas e criar novas ideias, gerar riqueza, aprimorar a qualidade de vida. Se tivermos as equações que nos dizem como isso deveria ocorrer sob dadas circunstâncias, isso deveria ser uma diretriz para construir novas cidades." - Geoffrey West

O físico britânico Geoffrey West descobriu que elementos das cidades como a oferta de infraestrutura e a incidência de doenças crescem em escala regular, seguindo equações similares às da física. Ele busca agora um modo de aplicar as regras ao planejamento urbano. Leia, abaixo, a entrevista exclusiva com West concedida a Rafael Garcia para a Folha de S.Paulo. Veja na íntegra no site da Folha:

Folha: O senhor ainda está trabalhando com o tema de seu estudo de 2007?
Geoffrey West: Sim. Tento entender, em termos amplos, a dinâmica de organização de cidades e sua relação com a sustentabilidade. Continuamos a nos urbanizar em taxa exponencial, e isso vai exercer enorme pressão sobre os recursos naturais à medida que formos construindo cidades para acomodar os dois ou três bilhões de pessoas que se juntarão a nós nos próximos 20 ou 30 anos. Será um grande desafio.

A primeira questão que busco entender é por que isso está acontecendo. O que está impulsionando? Como nos ajustamos? Há uma solução para acomodarmos 9 bilhões ou 10 bilhões de pessoas no planeta vivendo vidas decentes?

Folha: Como o senhor fez o salto da biologia para o urbanismo?
Geoffrey West: Uns dez anos atrás, eu e meus colegas começamos a nos perguntar se não haveria outros tipos de sistemas genéricos aos quais essas leis se aplicariam. Uma ideia foi estudar cidades e empresas, que também são sistemas em rede. Mas teriam as cidades leis de potência semelhantes às da física e da biologia? Haveria alguma propriedade universal?

Isso tudo foi inspirado na biologia, e a especulação era que diferentes cidades seriam como se fossem diferentes versões em escala umas das outras. Mesmo não conhecendo muito bem cidades brasileiras poderia dizer, por exemplo que Rio, São Paulo, Recife e Manaus são versões umas das outras em diferentes escalas.

Elas parecem ser bastantes diferentes porque estão em diferentes partes do país, possuem histórias diferentes etc. Mas essa disparidade soa estranha a partir de um ponto de vista mais superficial.

Voltando à biologia, é difícil crer que uma baleia seja um elefante em maior escala, ou que uma pessoa seja um rato em maior escala. Mas, na verdade, se analisamos a fisiologia e o histórico de vida -longevidade, tempo de maturação- sob quantidades mensuráveis, todos os mamíferos são de fato versões dos mesmos em escalas diferentes, com precisão de 85%.

Então, seriam as cidades versões umas das outras em escalas diferentes? O único modo de responder a isso era buscando dados da aritmética das cidades.

A primeira coisa que fizemos, em 2005, foi um estudo bem modesto sobre postos de gasolina na Europa. Descobrimos que há uma lei de escala muito regular sobre a oferta de postos per capita. Era como a "economia de escala" que existe na biologia. Quanto maior você é, menos energia metabólica por quilo você requer para viver. É uma lei que vale dentro de um mesmo grupo taxonômico. As células de um elefante não trabalham tão duro quanto as nossas células. Uma cidade maior não precisa de tantos postos de gasolina por pessoa para atender a todos.

Folha: O fato de seu grupo ter feito pela primeira vez esse estudo relativamente simples não era sinal de que o urbanismo estava em carência de metodologias mais sólidas?
Geoffrey West: Eu acho que sim, mas não quero parecer arrogante. As pessoas vêm estudando cidades e construindo cidades há muito tempo. O planejamento urbano, a geografia urbana, a economia urbana não são coisas novas. Mas ninguém jamais havia analisado transformações de escala e leis de potência em cidades. Foi uma surpresa notar que ninguém havia se perguntado coisas simples como qual quantidade de postos de gasolina existe em função do tamanho das cidades.

Um mérito de muitas teorias da física é o poder preditivo. As teorias que o sr. tem criado possuem essa qualidade? É possível prever quando uma cidade ruma ao colapso?

Com o trabalho sobre os postos de gasolina que fizemos no começo e, depois, com a análise de diversas medidas, conseguimos mostrar que leis de escala se manifestavam ao longo de toda métrica que víamos. Esse escalonamento era essencialmente o mesmo para qualquer métrica socioeconômica que envolve a interação entre humanos. Ele valia, por exemplo, para produção de patentes, valores de salários, transmissão de doenças. Tudo isso crescia da mesma maneira, com relações de escala. E as métricas de infraestrutura, como os postos de gasolina e cabos de eletricidade, também cresciam com relações de escala. Essas relações eram as mesmas em diferentes países, em diferentes sistemas urbanos, e a previsão se verificou.

Assim como na biologia, estávamos nos perguntando o que seria comum entre todas essas cidades, independentemente de história, geografia e cultura. E aquilo que era comum entre elas eram as redes sociais, a maneira com que as pessoas vêm interagindo.

Já usamos dados de telefones celulares para verificar previsões da teoria. Medimos o número de interações entre pessoas com base no número de vezes que elas ligam umas para as outras, e vimos que isso aumenta em escala da mesma forma que outras métricas socioeconômicas. Isso ajudou a verificar uma previsão muito poderosa, e os dados são uma evidência forte.

Já temos uma teoria séria sobre de onde essas leis de potência vêm, mas não tão desenvolvida quanto a que temos para biologia. Ela nos diz algo sobre as propriedades medianas da organização, dinâmica e crescimento de cidades. Ela determina uma linha de base para aquilo que se esperaria de uma cidade idealizada, com população de um certo tamanho.

Uma maneira de entender essas leis de potência é assim: você me diz o tamanho de uma cidade num sistema urbano e eu posso dizer com uma precisão de 80% a 90% os valores de diversos aspectos mensuráveis, sejam eles o número de postos de gasolina, o comprimento somado de suas ruas, o número de casos de Aids ou o número de patentes produzidas.

É claro que cada uma das cidades analisadas terá um desempenho um pouco diferente em relação aos valores de base. O desempenho abaixo ou acima dessa média é o que representa a verdadeira individualidade de uma determinada cidade. É a essência daquilo que a distingue de outras.

Folha: Como isso pode ser usado na prática em planejamento urbano?
Geoffrey West:
Isso ainda é, em grande parte, um trabalho em desenvolvimento. Talvez seja justo dizer que jamais teremos uma teoria detalhada para uma cidade específica. Se você quiser saber algo muito específico sobre um comportamento muito específico no centro do Rio de Janeiro, essa teoria não é capaz de fazer previsões como se faz em física. Mas ela fornece uma linha de base, uma métrica para saber quão bem você está se saindo. Ela serve para entender, afinal, que tudo isso deriva da maneira com que as pessoas interagem.

Jane Jacobs reforçou isso de modo qualitativo, quando disse que uma cidade não é só seus prédios, suas ruas e sua infraestrutura, mas sim a interação entre suas pessoas.

A cidade é um espaço que inventamos para facilitar interações entre pessoas e criar novas ideias, gerar riqueza, aprimorar a qualidade de vida. Se tivermos as equações que nos dizem como isso deveria ocorrer sob dadas circunstâncias, isso deveria ser uma diretriz para construir novas cidades.

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Geoffrey West

Geoffrey West

​Físico

Físico teórico britânico. Um dos mais destacados pesquisadores dos modelos científicos das grandes cidades.
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