Ignácio de Loyola Brandão: “A gente só pode sair dessa por nós mesmos”

Postado em dez. de 2021

Literatura | Cultura

Ignácio de Loyola Brandão: “A gente só pode sair dessa por nós mesmos”

Em entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento, Ignácio de Loyola Brandão comenta a fama de escritor visionário que ganhou ao longo de sua premiada trajetória, que inclui 40 títulos.


A partir de sua base em São Paulo, Ignácio de Loyola Brandão começa a retomar a rotina de viagens de que tanto gosta. O escritor de 85 anos voltou a percorrer o país de Norte a Sul para falar de sua obra, do seu ofício e da sua visão sobre um Brasil que, ironicamente, acabou se parecendo com aquele que descreveu em um de seus mais aclamados livros, “Não Verás País Nenhum”.

Nesta narrativa distópica, publicada em 1981, o autor apresenta como cenário um lugar árido, resultado do cataclisma ambiental, assolado por violência e corrupção, sob a escassez de água e de alimentos e governado por uma espécie de milícia que limita a circulação das pessoas e impõe sua própria narrativa histórica.

“Não Verás País Nenhum” ganhou recentemente uma edição especial comemorativa de seus 40 anos, pela Global Editora. Este universo desolador teve continuidade em “Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela”, lançado em 2018. O livro apresenta em tom apocalíptico a jornada de um casal num Brasil arrasado por uma crise sem fim, com milhares de partidos políticos disputando o butim, presidentes que se revezam velozmente no poder até serem depostos, ministérios como os da Saúde, da Cultura e do Meio Ambiente extintos, população vigiada por câmeras e estímulo a morte dos idosos.

Em entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento, Ignácio de Loyola Brandão comenta a fama de escritor visionário que ganhou ao longo de sua premiada trajetória, que inclui entre os 40 títulos publicados clássicos como “Zero”, de 1975, um criativo e contundente painel sobre a ditadura militar, e obras referenciais do universo infantojuvenil. Ele também antecipa o tema de seu próximo romance, escrito durante a pandemia, avalia o atual estado das coisas no Brasil e comenta a distinção que recebeu, no dia 25 de novembro, do Prêmio Jabuti, a de personalidade literária do ano.

O senhor está retomando as viagens pelo Brasil após um prolongado período de recolhimento por conta da pandemia. Como está percebendo o estado de espírito do país?

O Brasil, por enquanto, dá um desânimo e uma desesperança muito grandes. É uma notícia ruim atrás da outra, principalmente no campo político, principalmente por parte de uma Câmara pelega, sem caráter, sem pensar no país, sem pensar em um projeto, pensando apenas em reeleição, em proveito próprio para tudo. Essa coisa das emendas, dos precatórios, tudo isso é de uma vergonha tão grande. Então, essa tristeza acompanha a gente e vai acompanhar por um tempo até que a gente, talvez pelo voto, consiga mudar. Mas é um longo processo. Por outro lado, depois de um ano e meio, eu saí de São Paulo para encontros presenciais em Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Taguatinga, Sobradinho, Goiânia e Maceió. As pessoas estão ainda se acostumando a voltar, um pouco intimidadas, um pouco com medo, mas com uma curiosidade muito grande. Em todos os lugares, tinha uma plateia de pelo menos cem pessoas, o que é bom, porque tem de obedecer regras de distanciamento. Mas havia uma alegria muito grande, eu no palco sempre muito feliz e a plateia perguntando e perguntando. E a pergunta geral era essa: “O que você acha do país?”. Todo mundo quer saber, como se nós soubéssemos tudo. Você se agarra às pessoas que têm possibilidade de dizer alguma coisa. E o que eu digo é que a gente só pode sair dessa por nós mesmos.

Livros seus como “Não Verás País Nenhum” e “Desta Terra Nada Vai Sobrar…” projetam um Brasil distópico, com personagens que percorrem cenários complicados para a saúde e para a cultura. Como encara a fama de ser um autor visionário?

Vou te responder de uma forma curiosa. Uma vez eu estava na redação da Última Hora, nos anos 1960, e lá estava também o Nelson Rodrigues escrevendo "A Vida como Ela É", um conto diário. Eu o admirava muito e uma hora ele me perguntou: “O que você está olhando?” Eu falei: “Sou um repórter e fico admirado com o senhor escrevendo um bom conto por dia. Como é isso?”. E ele falou: “Olha pela janela, menino. Está tudo aí. Mas, lembre, que a vida é pior do que o que você olha. Então, não tenha medo de exagerar quando você escrever porque, no fundo, a vida vai atrás da literatura.”

E a realidade por vezes supera a ficção.

Exatamente. Um professor de português no colégio, o Jurandir, uma vez me disse, após a gente ler "A Metamorfose" e falar que era impossível um homem se transformar numa barata: "Nada é impossível para a literatura. Este homem transformado em barata, em um bicho, não é um absurdo. A realidade é mais absurda que o próprio absurdo”. O Kafka não diz bem o que é, diz que é um repulsivo inseto. Quando comecei a trabalhar no "Não Verás País Nenhum", eu lia que estava nevando no deserto do Saara, que o gelo dos polos estava derretendo, que o mar ia subir, que os cientistas alertavam para a possibilidade de acabar a água, antes de acabar o petróleo. Aí me deu aquela louca, exagerei tudo ao máximo, pensando que era uma fábula minha, uma metáfora. Quarenta anos depois, aconteceu. A realidade me copiou, a filha da mãe (risos)

Durante a pandemia, o senhor concluiu um novo livro. Quando será lançado e o que pode adiantar sobre ele?

Estou com o livro terminado. Mas eu termino e deixo o livro na gaveta dormido, até dar uma esquecida. Porque quando você termina, ainda está muito quente com ele. E só um certo tempo vai me dar um distanciamento para eu reler e pensar isso eu tiro, isso em ponho, isso eu conserto. A história se passa neste país depois de sete anos e sete meses de pandemia, em que as coisas foram todas para o buraco, com quase 200 milhões de mortos por uma incúria. É uma fábula, uma grande metáfora sobre o desprezo pela vida que acaba com o país. Tem um título provisório, "Deus, Porque Você Não Diz Claramente o que Quer de Nós?", que é uma frase da Simone de Beauvoir. Mas tenho um outro título, de um poeta de Manaus, Aldísio Filgueiras, "Podemos Mergulhar num Buraco, Desde que a Gente Continue a Ver as Estrelas", para dar uma certa esperança, né? 

E o senhor tem esperança de que as coisas possam mudar no Brasil?

Quem espera confia que o outro faça. Então, vamos confiar que a gente consiga mudar isso, porque há movimentos, há pessoas, há bons líderes. Agora, querem eleger o PT. E o PT acabou de apoiar a eleição do (Daniel) Ortega na Nicarágua, uma ditadura.

Como o senhor observa os cenários em alguns países do mundo?

Em pleno século 21, estão indo para trás. O meu novo livro chega até o começo da Pré-História, vai retrocedendo no tempo, porque a gente está retrocedendo na cultura, na ciência, na educação, em tudo. Mas espero dar uma mexida no final, para fazer com que peguem uma condução e voltem para a atualidade. Vão levar milhões de anos.

O senhor é um otimista?

Olha, não sei se sou otimista. Lembro de uma frase do Curt Meyer-Clason, que já morreu, famoso decano dos tradutores do português para o alemão. Um dia, na Alemanha, conversando sobre otimismo e pessimismo, ele falou: "Como esse 'Não Verás...' você é meio pessimista, mas não se preocupe, o pessimista não passa de um otimista com experiência". Essa frase me resume.

 

 

O senhor foi eleito  personalidade literária do ano pelo Prêmio Jabuti 2021. Como recebe este tipo de distinção?

Sempre fui muito amigo da Lygia Fagundes Telles, que diz o seguinte: “Eu quero as glórias quentes. Se quiser me homenagear, me homenageie em vida. Depois que eu estiver lá embaixo de um túmulo frio, sob uma lápide de granito gelada, pouco me importa”. Então, eu fico muito feliz por ser homenageado, receber prêmios e elogios em vida. Depois, eu não sei como é.

O senhor tem uma obra de grande destaque na literatura infantojuvenil, fundamental para a formação de leitores. Quais são suas inspirações para se dedicar a esse público?

Escrevo esses livros como se estivesse escrevendo qualquer um dos outros. Tem professores que dizem que tem de tomar cuidado com a linguagem para crianças. Tudo bobagem. Eu tinha uma professora que dizia que, se a criança não entender, pergunta pra alguém o que é a palavra, aprende a perguntar. No fundo, os meus livros infantis são memórias que eu trabalho e atualizo. “O Menino que Vendia Palavras” é um livro que pegou, ganhou o Jabuti e virou até peça de teatro. Outro que também ganhou o Jabuti, “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos” é sobre o meu avô, a relação de um neto com seu avô. Eu fiz uma sacanagem com meu avô, perdi todas as bolinhas que ele guardava, que eram os olhos dos cavalos de um carrossel, e ele ficou muito triste. Minha forma de pedir perdão, porque ele não queria tocar no assunto comigo, foi escrever o livro. Eu dia, eu estava em um colégio aqui em São Paulo que tinha adotado o livro. Os professores perguntaram aos alunos como iriam trabalhar o livro. A ideia foi: “E se a gente entrevistar nossos avós? Não sabemos nada da vida deles". E teve uma feira com a exibição de vídeos e trabalhos escritos. Eu fui, os avós estavam lá e os netos diziam que tinham descoberto uma pessoa muito interessante na vida deles. Fico contente com isso. Por outro lado, escrevi um livro que se chama “O Menino que não Teve Medo do Medo” e um dia fui numa escola rural no interior de Goiás. Um menino virou para mim e disse: “O seu livro não tem fim, o senhor não sabe fazer fim”. Aí eu percebi que tinha feito um livro sem final. Os meninos vão procurar cachorros loucos, que não existiam, porque eram invenção dos pais para as crianças não irem para a rua. Não descobrem nada e voltam para casa. Percebi que você tem de fazer um final, ou não, mas que a pessoa entenda o porquê. Foi uma lição. Eu gosto destas coisas.

Que balanço o senhor faz do período de isolamento da pandemia? Quais novos hábitos adquiriu e gostaria de manter?

Eu trabalhei muito com a minha solidão. Eu e minha mulher trabalhamos bem como a nossa solidão, sentindo muitas vezes angústia e ansiedade, mas passando por cima. Aprendemos a nos comportar juntos um do outro, a nos respeitar mais, a nos gostar mais. No meu novo livro tem dois personagens. A mulher reclama pro marido sobre uma cueca largada no meio da sala. Ele responde que ninguém vai ver porque estão só os dois em casa. São essas pequenas coisas, de repente a casa vira um lixo se você não tomar cuidado. E tem uma coisa curiosa que percebi viajando agora. A educação do povo brasileiro ainda é precária. Quando os aviões pousam, vem uma ordem do comandante para ninguém se levantar, que é proibido, vão todos sair fileira por fileira. Seria uma maravilha ser sempre assim, porque é aquela loucura quando um avião para e todo mundo levanta, empurra, bate a sacola na sua cabeça, tem cara que vai buscar a mala lá no fundo. As pessoas têm de aprender a esperar. Mas vejo que ainda tem esses desesperados. Seria maravilhoso se continuasse essa ordem na saída do avião. E sai mais depressa. Descobri isso nas viagens agora. Foi uma grande conquista.

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